Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Media

Avalancha informativa e redes sociais "atropelaram" as redacções

A grande revolução nas rotinas e normas do jornalismo foi-nos imposta, não pelo computador, mas pela Internet, quando “a avalancha informativa e as redes sociais virtuais atropelaram a capacidade das redacções processarem informações; (...) o volume cresceu em tal magnitude que se tornaram incapazes de lidar com tantos dados, factos e eventos”.

A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A tese de doutoramento de Carlos Castilho, na Universidade Federal de Santa Catarina, foi precisamente sobre o papel da curadoria na promoção do fluxo de notícias. A sua observação é que “o mundo do jornalismo virou um redemoinho permanente; não acho isto ruim, mas não é fácil a nossa adaptação à fluidez das normas, rotinas, equipamentos, modelos de negócios, perspectivas e principalmente ao convívio com a diversidade de posicionamentos do público”: 

“Nós não sabemos lidar com o erro, principalmente no jornalismo, porque ele é imediatamente associado a fracasso. Os teóricos sempre ensinaram que não há acerto sem erro prévio, mas na prática a cultura das redacções só valorizava os acertos. Acho que a principal perda sofrida por nós, jornalistas, foi a da segurança no exercício da nossa profissão. Entrámos numa era de inovação permanente e isto gera uma enorme instabilidade e incerteza profissionais.” (...) 

Questionado sobre se o jornalismo digital já encontrou a sua linguagem, Carlos Castilho responde que ainda não, “está todo o mundo buscando; o problema é que jornalistas e académicos tendem a procurar sozinhos as novas fórmulas narrativas. Sem a interacção com o leitor, sem o tal engajamento com o público, fica muito mais difícil”. (...) 

Carlos Castilho defende que a “narrativa multimedia não linear” é o futuro do jornalismo na Internet, embora nem todas as notícias tenham que ser publicadas em formato multimedia

“Não acho que o impresso acabará. Ele vai conviver com outros formatos narrativos. O problema da multimedia é que ela é bem mais cara do que os processos convencionais do jornalismo actual. Cara porque exige mão de obra. Você pode fazer uma grande reportagem com três ou quatro repórteres, mas um projecto multimedia simples requer no mínimo cinco pessoas especializadas em pelo menos três softwares básicos.” (...)

 

 

A entrevista de Carlos Castilho, na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital” Ver galeria

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

O Clube
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