Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
Media

Avalancha informativa e redes sociais "atropelaram" as redacções

A grande revolução nas rotinas e normas do jornalismo foi-nos imposta, não pelo computador, mas pela Internet, quando “a avalancha informativa e as redes sociais virtuais atropelaram a capacidade das redacções processarem informações; (...) o volume cresceu em tal magnitude que se tornaram incapazes de lidar com tantos dados, factos e eventos”.

A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A tese de doutoramento de Carlos Castilho, na Universidade Federal de Santa Catarina, foi precisamente sobre o papel da curadoria na promoção do fluxo de notícias. A sua observação é que “o mundo do jornalismo virou um redemoinho permanente; não acho isto ruim, mas não é fácil a nossa adaptação à fluidez das normas, rotinas, equipamentos, modelos de negócios, perspectivas e principalmente ao convívio com a diversidade de posicionamentos do público”: 

“Nós não sabemos lidar com o erro, principalmente no jornalismo, porque ele é imediatamente associado a fracasso. Os teóricos sempre ensinaram que não há acerto sem erro prévio, mas na prática a cultura das redacções só valorizava os acertos. Acho que a principal perda sofrida por nós, jornalistas, foi a da segurança no exercício da nossa profissão. Entrámos numa era de inovação permanente e isto gera uma enorme instabilidade e incerteza profissionais.” (...) 

Questionado sobre se o jornalismo digital já encontrou a sua linguagem, Carlos Castilho responde que ainda não, “está todo o mundo buscando; o problema é que jornalistas e académicos tendem a procurar sozinhos as novas fórmulas narrativas. Sem a interacção com o leitor, sem o tal engajamento com o público, fica muito mais difícil”. (...) 

Carlos Castilho defende que a “narrativa multimedia não linear” é o futuro do jornalismo na Internet, embora nem todas as notícias tenham que ser publicadas em formato multimedia

“Não acho que o impresso acabará. Ele vai conviver com outros formatos narrativos. O problema da multimedia é que ela é bem mais cara do que os processos convencionais do jornalismo actual. Cara porque exige mão de obra. Você pode fazer uma grande reportagem com três ou quatro repórteres, mas um projecto multimedia simples requer no mínimo cinco pessoas especializadas em pelo menos três softwares básicos.” (...)

 

 

A entrevista de Carlos Castilho, na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
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Francisco Sarsfield Cabral
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