null, 20 de Maio, 2018
Homenagem

A história fascinante de David Perlman ao despedir-se do jornalismo após 80 anos de carreira

Um jornalista pode chegar aos 98 anos de idade e gostar tanto do que faz que vai adiando a reforma. Aconteceu com David Perlman, o editor de temas científicos do jornal The San Francisco Chronicle. Bem, desta vez aceitou a ideia e vai mesmo sair. A redacção fez-lhe uma festa de despedida. Entrevistado pelo Poynter Institute, fala dos seus quase 80 anos de carreira, conta como foi, reflecte sobre o que está a acontecer agora e tem recados para nós todos.

David Perlman ganhou uma quantidade de prémios na área do jornalismo sobre ciência  - e até já existem prémios com o seu nome -  além de ter presidido a diversas organizações de divulgação científica. A respeito da reforma, confessa ao Poynter

“Comecei a pensar nisso há cerca de um ano e, nessa altura, caramba!... era muito divertido continuar a trabalhar, e eu ainda podia escrever bons artigos. Só agora, há uns poucos meses, mais ou menos, é que eu achei que realmente era tempo de parar.” 

Mas mantendo sempre que, se voltasse atrás, voltava a fazer tudo da mesma maneira:

“O que eu sou é jornalista, e isso eu nunca mudaria” – garante. 

David Perlman estudou Jornalismo na Columbia University, no curso de 1939, serviu no Exército durante a II Guerra Mundial e estava na Europa quando ela acabou, de modo que ficou algum tempo em Paris, a trabalhar na edição europeia de The New York Herald Tribune. Mas já tinha começado no San Francisco Chronicle, antes da guerra, e acabou por voltar para lá em 1951... até hoje. 

A respeito de como era o jornal nesse tempo, conta coisas que os mais grisalhos entre nós recordam bem:

“Em primeiro lugar, era todo impresso, evidentemente  - não havia nada digital. Em segundo, nós fazíamos o artigo. Eu tinha uma grande máquina de escrever e, se saísse da cidade em reportagem, levava uma velha Olivetti portátil, e tínhamos telefones, ditávamos os textos para alguém os escrever na redacção.” 

“Os caracteres para impressão eram feitos na linotype e as rotativas eram na cave do edifício do Chronicle, aqui no cruzamento da 5th street com a Mission street.” 

“Era como qualquer outro jornal impresso, porque não havia outra coisa. O objecto mais electrónico que tínhamos era um rádio, acho eu, e é claro que havia noticiários radiofónicos. Mas isto foi antes da televisão. No final dos anos 40, a televisão estava a tomar forma e não havia ainda autêntica concorrência. Era um jornal impresso, como todos eram nos anos 50, 60, 70 e 80, até que veio a Internet e as coisas mudaram rapidamente  - e continuam a mudar.” (...) 

O seu interesse pela ciência começou em 1957, quando teve uma fractura a fazer esqui, e ficou imobilizado algum tempo. Um amigo trouxe-lhe o livro The Nature of the Universe, do astrónomo britânico Fred Hoyle, que ele acabou por achar interessante, indo ao ponto, quando saíu do hospital, de visitar o Lick Observatory, na Califórnia, e procurar astrónomos americanos para conhecer a sério o trabalho que faziam. 

Hoje confessa que se apaixonou pelo tema quando ouviu falar do nascimento das estrelas, que achou de tal modo “romântico” que escreveu um primeiro artigo sobre o assunto. O jornal entregou-lhe de boa vontade o lugar de redactor de temas científicos, porque não tinha outra pessoa.

“Tudo o que escrevi desde então tem sido uma experiência de aprendizagem, e é esse o prazer de ser um repórter  - especialmente num jornal como este, que encoraja os repórteres, novos ou velhos, a procurarem os temas que os fascinam e a dedicarem-se a eles.” (...) 

David Perlman confessa que, quando ainda estudava para vir a ser um jornalista, a imagem que tinha era a de vir para a rua com um cartão de “Press” no chapéu e fazer a reportagem de crimes:

“Eu tinha todas essas ideias românticas habituais dos candidatos ao jornalismo. Por outro lado, a minha carreira acabou por ser muito diferente do que eu alguma vez tinha imaginado, mas foi maravilhosa. E, aqui no Chronicle, os nossos editores deixaram-me fazer o tipo de trabalho que eu queria fazer.” (...) 

Sobre o que se passa hoje, com os cortes nas secções de divulgação científica dos jornais, David Perlman tem palavras fortes:

“Acho que é completamente obsceno. Os jornais, sejam eles online ou impressos, são um factor primordial na educação continuada e na consciência do público, especialmente das gerações mais novas. Quer sejam online ou impressos, a ideia de descurarem os avanços na ciência... isso vai criar uma geração com uma deficiência fundamental naquilo que podem pensar e compreender.” 

“Um exemplo perfeito disto é a controvérsia sobre as alterações climáticas, o aquecimento global e tudo o que isso implica. (...) Eu acho que os jornais abdicaram da sua responsabilidade ao reduzirem a cobertura científica. Houve um tempo em que tínhamos umas 50, ou até 75, secções de ciência em jornais por todo o país. Agora temos The New York Times às terças-feiras. Muito poucos jornais mantêm qualquer coisa próxima disso.” (...) 

 

A entrevista na íntegra, no Poynter.org

Connosco
Conferência a 22 de Maio com ministro Mário Centeno Ver galeria

Mário Centeno, Ministro das Finanças e Presidente do Eurogrupo, é o nosso orador convidado para o jantar-debate do próximo dia 22 de Maio, promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema que tem presidido a esta série  - “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”.

Mário José Gomes de Freitas Centeno nasceu em Olhão, em Dezembro de 1966, e fez o seu percurso académico em Lisboa, para onde veio morar, com os pais e irmãos, quando tinha 15 anos. Obteve no ISEG  - Instituto Superior de Economia e Gestão a sua licenciatura em Economia, em 1990, seguida de um mestrado em Matemática Aplicada na mesma escola superior.


Livro de memórias de Pedro Rolo Duarte sem ser autobiografia Ver galeria

Pedro Rolo Duarte, que nos deixou em Novembro de 2017, deixou também um conjunto de textos agora reunidos e publicados em livro. O título, “Não Respire”, vai direito a um tema incontornável, que o autor assume e é continuado logo abaixo, na mesma capa: “Tudo começou cedo demais (e quando dei por isso era tarde)”.
O Observador, que publica excertos de momentos marcantes da sua vida, explica que “a autobiografia póstuma do jornalista, que a editora Manuscrito acabou de publicar, fala naturalmente da doença, mas não só”. O primeiro desses excertos é “o vício do tabaco”. Mas as 296 páginas “estão repletas de histórias de uma vida cheia. Nelas, Rolo Duarte recordou os melhores tempos de uma carreira com mais de 30 anos (a fundação d’O Independente, do DNA), os amigos, as paixões e os vícios. Sempre com grande saudade mas sem uma ponta de pessimismo.”

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
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