Sábado, 17 de Novembro, 2018
Homenagem

A história fascinante de David Perlman ao despedir-se do jornalismo após 80 anos de carreira

Um jornalista pode chegar aos 98 anos de idade e gostar tanto do que faz que vai adiando a reforma. Aconteceu com David Perlman, o editor de temas científicos do jornal The San Francisco Chronicle. Bem, desta vez aceitou a ideia e vai mesmo sair. A redacção fez-lhe uma festa de despedida. Entrevistado pelo Poynter Institute, fala dos seus quase 80 anos de carreira, conta como foi, reflecte sobre o que está a acontecer agora e tem recados para nós todos.

David Perlman ganhou uma quantidade de prémios na área do jornalismo sobre ciência  - e até já existem prémios com o seu nome -  além de ter presidido a diversas organizações de divulgação científica. A respeito da reforma, confessa ao Poynter

“Comecei a pensar nisso há cerca de um ano e, nessa altura, caramba!... era muito divertido continuar a trabalhar, e eu ainda podia escrever bons artigos. Só agora, há uns poucos meses, mais ou menos, é que eu achei que realmente era tempo de parar.” 

Mas mantendo sempre que, se voltasse atrás, voltava a fazer tudo da mesma maneira:

“O que eu sou é jornalista, e isso eu nunca mudaria” – garante. 

David Perlman estudou Jornalismo na Columbia University, no curso de 1939, serviu no Exército durante a II Guerra Mundial e estava na Europa quando ela acabou, de modo que ficou algum tempo em Paris, a trabalhar na edição europeia de The New York Herald Tribune. Mas já tinha começado no San Francisco Chronicle, antes da guerra, e acabou por voltar para lá em 1951... até hoje. 

A respeito de como era o jornal nesse tempo, conta coisas que os mais grisalhos entre nós recordam bem:

“Em primeiro lugar, era todo impresso, evidentemente  - não havia nada digital. Em segundo, nós fazíamos o artigo. Eu tinha uma grande máquina de escrever e, se saísse da cidade em reportagem, levava uma velha Olivetti portátil, e tínhamos telefones, ditávamos os textos para alguém os escrever na redacção.” 

“Os caracteres para impressão eram feitos na linotype e as rotativas eram na cave do edifício do Chronicle, aqui no cruzamento da 5th street com a Mission street.” 

“Era como qualquer outro jornal impresso, porque não havia outra coisa. O objecto mais electrónico que tínhamos era um rádio, acho eu, e é claro que havia noticiários radiofónicos. Mas isto foi antes da televisão. No final dos anos 40, a televisão estava a tomar forma e não havia ainda autêntica concorrência. Era um jornal impresso, como todos eram nos anos 50, 60, 70 e 80, até que veio a Internet e as coisas mudaram rapidamente  - e continuam a mudar.” (...) 

O seu interesse pela ciência começou em 1957, quando teve uma fractura a fazer esqui, e ficou imobilizado algum tempo. Um amigo trouxe-lhe o livro The Nature of the Universe, do astrónomo britânico Fred Hoyle, que ele acabou por achar interessante, indo ao ponto, quando saíu do hospital, de visitar o Lick Observatory, na Califórnia, e procurar astrónomos americanos para conhecer a sério o trabalho que faziam. 

Hoje confessa que se apaixonou pelo tema quando ouviu falar do nascimento das estrelas, que achou de tal modo “romântico” que escreveu um primeiro artigo sobre o assunto. O jornal entregou-lhe de boa vontade o lugar de redactor de temas científicos, porque não tinha outra pessoa.

“Tudo o que escrevi desde então tem sido uma experiência de aprendizagem, e é esse o prazer de ser um repórter  - especialmente num jornal como este, que encoraja os repórteres, novos ou velhos, a procurarem os temas que os fascinam e a dedicarem-se a eles.” (...) 

David Perlman confessa que, quando ainda estudava para vir a ser um jornalista, a imagem que tinha era a de vir para a rua com um cartão de “Press” no chapéu e fazer a reportagem de crimes:

“Eu tinha todas essas ideias românticas habituais dos candidatos ao jornalismo. Por outro lado, a minha carreira acabou por ser muito diferente do que eu alguma vez tinha imaginado, mas foi maravilhosa. E, aqui no Chronicle, os nossos editores deixaram-me fazer o tipo de trabalho que eu queria fazer.” (...) 

Sobre o que se passa hoje, com os cortes nas secções de divulgação científica dos jornais, David Perlman tem palavras fortes:

“Acho que é completamente obsceno. Os jornais, sejam eles online ou impressos, são um factor primordial na educação continuada e na consciência do público, especialmente das gerações mais novas. Quer sejam online ou impressos, a ideia de descurarem os avanços na ciência... isso vai criar uma geração com uma deficiência fundamental naquilo que podem pensar e compreender.” 

“Um exemplo perfeito disto é a controvérsia sobre as alterações climáticas, o aquecimento global e tudo o que isso implica. (...) Eu acho que os jornais abdicaram da sua responsabilidade ao reduzirem a cobertura científica. Houve um tempo em que tínhamos umas 50, ou até 75, secções de ciência em jornais por todo o país. Agora temos The New York Times às terças-feiras. Muito poucos jornais mantêm qualquer coisa próxima disso.” (...) 

 

A entrevista na íntegra, no Poynter.org

Connosco
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Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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