Quinta-feira, 21 de Setembro, 2017
Homenagem

A história fascinante de David Perlman ao despedir-se do jornalismo após 80 anos de carreira

Um jornalista pode chegar aos 98 anos de idade e gostar tanto do que faz que vai adiando a reforma. Aconteceu com David Perlman, o editor de temas científicos do jornal The San Francisco Chronicle. Bem, desta vez aceitou a ideia e vai mesmo sair. A redacção fez-lhe uma festa de despedida. Entrevistado pelo Poynter Institute, fala dos seus quase 80 anos de carreira, conta como foi, reflecte sobre o que está a acontecer agora e tem recados para nós todos.

David Perlman ganhou uma quantidade de prémios na área do jornalismo sobre ciência  - e até já existem prémios com o seu nome -  além de ter presidido a diversas organizações de divulgação científica. A respeito da reforma, confessa ao Poynter

“Comecei a pensar nisso há cerca de um ano e, nessa altura, caramba!... era muito divertido continuar a trabalhar, e eu ainda podia escrever bons artigos. Só agora, há uns poucos meses, mais ou menos, é que eu achei que realmente era tempo de parar.” 

Mas mantendo sempre que, se voltasse atrás, voltava a fazer tudo da mesma maneira:

“O que eu sou é jornalista, e isso eu nunca mudaria” – garante. 

David Perlman estudou Jornalismo na Columbia University, no curso de 1939, serviu no Exército durante a II Guerra Mundial e estava na Europa quando ela acabou, de modo que ficou algum tempo em Paris, a trabalhar na edição europeia de The New York Herald Tribune. Mas já tinha começado no San Francisco Chronicle, antes da guerra, e acabou por voltar para lá em 1951... até hoje. 

A respeito de como era o jornal nesse tempo, conta coisas que os mais grisalhos entre nós recordam bem:

“Em primeiro lugar, era todo impresso, evidentemente  - não havia nada digital. Em segundo, nós fazíamos o artigo. Eu tinha uma grande máquina de escrever e, se saísse da cidade em reportagem, levava uma velha Olivetti portátil, e tínhamos telefones, ditávamos os textos para alguém os escrever na redacção.” 

“Os caracteres para impressão eram feitos na linotype e as rotativas eram na cave do edifício do Chronicle, aqui no cruzamento da 5th street com a Mission street.” 

“Era como qualquer outro jornal impresso, porque não havia outra coisa. O objecto mais electrónico que tínhamos era um rádio, acho eu, e é claro que havia noticiários radiofónicos. Mas isto foi antes da televisão. No final dos anos 40, a televisão estava a tomar forma e não havia ainda autêntica concorrência. Era um jornal impresso, como todos eram nos anos 50, 60, 70 e 80, até que veio a Internet e as coisas mudaram rapidamente  - e continuam a mudar.” (...) 

O seu interesse pela ciência começou em 1957, quando teve uma fractura a fazer esqui, e ficou imobilizado algum tempo. Um amigo trouxe-lhe o livro The Nature of the Universe, do astrónomo britânico Fred Hoyle, que ele acabou por achar interessante, indo ao ponto, quando saíu do hospital, de visitar o Lick Observatory, na Califórnia, e procurar astrónomos americanos para conhecer a sério o trabalho que faziam. 

Hoje confessa que se apaixonou pelo tema quando ouviu falar do nascimento das estrelas, que achou de tal modo “romântico” que escreveu um primeiro artigo sobre o assunto. O jornal entregou-lhe de boa vontade o lugar de redactor de temas científicos, porque não tinha outra pessoa.

“Tudo o que escrevi desde então tem sido uma experiência de aprendizagem, e é esse o prazer de ser um repórter  - especialmente num jornal como este, que encoraja os repórteres, novos ou velhos, a procurarem os temas que os fascinam e a dedicarem-se a eles.” (...) 

David Perlman confessa que, quando ainda estudava para vir a ser um jornalista, a imagem que tinha era a de vir para a rua com um cartão de “Press” no chapéu e fazer a reportagem de crimes:

“Eu tinha todas essas ideias românticas habituais dos candidatos ao jornalismo. Por outro lado, a minha carreira acabou por ser muito diferente do que eu alguma vez tinha imaginado, mas foi maravilhosa. E, aqui no Chronicle, os nossos editores deixaram-me fazer o tipo de trabalho que eu queria fazer.” (...) 

Sobre o que se passa hoje, com os cortes nas secções de divulgação científica dos jornais, David Perlman tem palavras fortes:

“Acho que é completamente obsceno. Os jornais, sejam eles online ou impressos, são um factor primordial na educação continuada e na consciência do público, especialmente das gerações mais novas. Quer sejam online ou impressos, a ideia de descurarem os avanços na ciência... isso vai criar uma geração com uma deficiência fundamental naquilo que podem pensar e compreender.” 

“Um exemplo perfeito disto é a controvérsia sobre as alterações climáticas, o aquecimento global e tudo o que isso implica. (...) Eu acho que os jornais abdicaram da sua responsabilidade ao reduzirem a cobertura científica. Houve um tempo em que tínhamos umas 50, ou até 75, secções de ciência em jornais por todo o país. Agora temos The New York Times às terças-feiras. Muito poucos jornais mantêm qualquer coisa próxima disso.” (...) 

 

A entrevista na íntegra, no Poynter.org

Connosco
A prisão solitária do “egosistema digital” como doença contagiosa do nosso tempo Ver galeria

Há uma geração zombie deambulando pelas ruas sem levantar os olhos dos seus ecrãs, teclando no Whatsapp ou consultando o Facebook. Até os restaurantes se tornaram mais silenciosos, porque chamamos o empregado tocando num botão e conversamos à distância pelo smartphone sem prestar atenção aos vizinhos de mesa que estão a fazer exactamente o mesmo. Não é uma mudança tecnológica, é uma revolução sociológica. E o vírus é contagioso, impregnou o espaço do cosmos. Todos fomos contagiados pela doença do nosso tempo, o egosistema digital.

O jornalismo em “tempos de cólera” e a interacção com o público Ver galeria

Chegámos a um novo “patamar de interacção entre jornais e público, potencializado pela Internet e pelas ferramentas de diálogo”, e é nesse espaço  que “um tipo específico de emoção e de sensação” é agora exposto com mais frequência: “há casos recentes e emblemáticos que ilustram tempos de cólera, intolerância e polarização social por todo o mundo”. A questão de fundo é a de saber que papel de controlo, ou de mediação, pode ainda o jornalismo exercer. É este o tema do “comentário da semana” de ObjEthos, Observatório da Ética Jornalística do Brasil.

O Clube

Está formado o Júri que vai apreciar os trabalhos concorrentes ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído pelo Clube Português de Imprensa (CPI) e pelo Jornal Tribuna de Macau (JTM),  com o apoio da Fundação Jorge Álvares.

O Júri será presidido por Dinis de Abreu, em representação do CPI, e integrado pelos jornalistas José Rocha Diniz, fundador e administrador do Jornal Tribuna de Macau, José Carlos de Vasconcelos, director do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, Carlos Magno, pela Fundação Jorge Álvares e por José António Silva Pires, também do CPI.


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Opinião
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