Sábado, 17 de Novembro, 2018
Media

Repórter de guerra em Mossul confessa-se sem ilusões na cobertura dos conflitos

Um jornalista brasileiro que foi ver o que sobrava da “Primavera Árabe”, em 2013, e cobriu depois, como freelancer, o que se passa no Iraque e na Síria, conta como é ser repórter de guerra. Yan Boechat voltou há pouco tempo e foi entrevistado pela Agência Pública, no Rio de Janeiro, na abertura da exposição de fotos “A Batalha por Mossul”, que trouxe da cidade onde passou sete meses acompanhando a guerra entre o “Estado Islâmico” e as forças armadas iraquianas. Toma o seu trabalho a sério mas não tem ilusões. O que um repórter pode fazer na frente é importante, diz, mas não vai mudar o mundo nem tem poder para parar o conflito. A entrevista é reproduzida no Observatório da Imprensa, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Um dos primeiros equívocos que encontrou em Mossul, e hoje procura esclarecer, é o da aceitação que o chamado “Estado Islâmico” conseguiu à chegada. A população local tinha sido tão maltratada pelas forças armadas iraquianas, “quase 100% xiitas hoje, com soldados recrutados no sul do Iraque, região predominantemente xiita”, que o “Estado Islâmico” foi bem recebido no verão de 2014. 

Compreender as ambiguidades desta tragédia passa por conhecer a história anterior, “e o sectarismo, que era uma coisa que não tinha tanta importância na época do Saddam, e todo o processo de arabização dos partidos Baath”. 

Respondendo a uma pergunta da jornalista Adriana Carranca, Yan Boechat concorda que a guerra não acaba, nem o “Estado Islâmico”: 

“Aqui não sai muita notícia porque é pobre matando pobre. Mas os atentados já começaram em Mossul, os atentados suicidas entre a população civil, as células adormecidas estão despertando. Enfim, vai ser o que era Mossul entre 2009 e 2014, até que algo maior surja e domine.” 

Sobre o papel do jornalista no local, reconhece que é muito limitado pelas condições de acesso. Os freelancers ficam dependentes de um indivíduo local a que chamam o fixer, “que é o seu tradutor, também uma espécie de produtor, o cara que vai abrir caminho, que tem contato com os generais, coronéis. É o cara que dá uma grana ali por baixo: quando o cara vai na cidade, ele faz um negocinho e abre esse esquema. Sem esse cara, é muito difícil você conseguir entrar, até por conta da barreira da língua e das conexões que vão sendo criadas também com as forças armadas”. (...) 

No caso da Síria, “você tem que se registar no Ministério da Informação e, quando entra, o Ministério aloca uma pessoa, um tradutor. Esse tradutor, obviamente, é um minder, um agente do governo que vai te censurar em várias coisas e guiar você dentro do país. Você fica com ele 24 horas por dia. O único lugar em que ele não dorme ao seu lado é em Damasco, em que você pode pegar um hotel e ficar na parte do governo.” (...) 

“Tenho muito claro que nós, repórteres, em um ambiente de guerra, seja ela qual for, cobrindo conflito no Rio, no Iraque, na Ucrânia, a gente é instrumento de propaganda. Achar que ‘eu vou lá e vou fazer uma reportagem!’, você vai descobrir que eles querem, de qualquer lado, que você veja só o que eles quiserem.” 

“Eu sei que estou sendo usado, eles querem me usar e vou tentar escapar. Por isso, prefiro não fazer matérias de teor político ou tentar dizer quem está ganhando ou perdendo porque não me sinto capaz de identificar o que está acontecendo. O que dá para ver e fazer é contar as histórias. Por exemplo, dá para perceber que os caras estão massacrando na sua cara. Isso dá uma matéria. Ou fazer uma matéria sobre como os snipers atuam. Prefiro uma visão de quem está na ponta, acho que é menos perigoso.”  (...) 

 

A entrevista, na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
Bettany Hughes, Prémio Europeu Helena Vaz da Silva a comunicar história e património cultural Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hughes, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hughes como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Marçal Grilo abre novo ciclo de jantares-debate em Novembro Ver galeria

O Clube Português de Imprensa, o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário juntam-se, novamente,para promover um novo ciclo de jantares-debate, desta vez subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?

Será orador convidado, no próximo dia 22 de Novembro, Eduardo Marçal Grilo, antigo ministro da Educação e administrador da Fundação Gulbenkian, que tem dedicado à problemática do ensino e às causas da cultura e da ciência o essencial da sua actividade de intelectual, de homem político e enquanto docente.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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