null, 20 de Maio, 2018
Media

Repórter de guerra em Mossul confessa-se sem ilusões na cobertura dos conflitos

Um jornalista brasileiro que foi ver o que sobrava da “Primavera Árabe”, em 2013, e cobriu depois, como freelancer, o que se passa no Iraque e na Síria, conta como é ser repórter de guerra. Yan Boechat voltou há pouco tempo e foi entrevistado pela Agência Pública, no Rio de Janeiro, na abertura da exposição de fotos “A Batalha por Mossul”, que trouxe da cidade onde passou sete meses acompanhando a guerra entre o “Estado Islâmico” e as forças armadas iraquianas. Toma o seu trabalho a sério mas não tem ilusões. O que um repórter pode fazer na frente é importante, diz, mas não vai mudar o mundo nem tem poder para parar o conflito. A entrevista é reproduzida no Observatório da Imprensa, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Um dos primeiros equívocos que encontrou em Mossul, e hoje procura esclarecer, é o da aceitação que o chamado “Estado Islâmico” conseguiu à chegada. A população local tinha sido tão maltratada pelas forças armadas iraquianas, “quase 100% xiitas hoje, com soldados recrutados no sul do Iraque, região predominantemente xiita”, que o “Estado Islâmico” foi bem recebido no verão de 2014. 

Compreender as ambiguidades desta tragédia passa por conhecer a história anterior, “e o sectarismo, que era uma coisa que não tinha tanta importância na época do Saddam, e todo o processo de arabização dos partidos Baath”. 

Respondendo a uma pergunta da jornalista Adriana Carranca, Yan Boechat concorda que a guerra não acaba, nem o “Estado Islâmico”: 

“Aqui não sai muita notícia porque é pobre matando pobre. Mas os atentados já começaram em Mossul, os atentados suicidas entre a população civil, as células adormecidas estão despertando. Enfim, vai ser o que era Mossul entre 2009 e 2014, até que algo maior surja e domine.” 

Sobre o papel do jornalista no local, reconhece que é muito limitado pelas condições de acesso. Os freelancers ficam dependentes de um indivíduo local a que chamam o fixer, “que é o seu tradutor, também uma espécie de produtor, o cara que vai abrir caminho, que tem contato com os generais, coronéis. É o cara que dá uma grana ali por baixo: quando o cara vai na cidade, ele faz um negocinho e abre esse esquema. Sem esse cara, é muito difícil você conseguir entrar, até por conta da barreira da língua e das conexões que vão sendo criadas também com as forças armadas”. (...) 

No caso da Síria, “você tem que se registar no Ministério da Informação e, quando entra, o Ministério aloca uma pessoa, um tradutor. Esse tradutor, obviamente, é um minder, um agente do governo que vai te censurar em várias coisas e guiar você dentro do país. Você fica com ele 24 horas por dia. O único lugar em que ele não dorme ao seu lado é em Damasco, em que você pode pegar um hotel e ficar na parte do governo.” (...) 

“Tenho muito claro que nós, repórteres, em um ambiente de guerra, seja ela qual for, cobrindo conflito no Rio, no Iraque, na Ucrânia, a gente é instrumento de propaganda. Achar que ‘eu vou lá e vou fazer uma reportagem!’, você vai descobrir que eles querem, de qualquer lado, que você veja só o que eles quiserem.” 

“Eu sei que estou sendo usado, eles querem me usar e vou tentar escapar. Por isso, prefiro não fazer matérias de teor político ou tentar dizer quem está ganhando ou perdendo porque não me sinto capaz de identificar o que está acontecendo. O que dá para ver e fazer é contar as histórias. Por exemplo, dá para perceber que os caras estão massacrando na sua cara. Isso dá uma matéria. Ou fazer uma matéria sobre como os snipers atuam. Prefiro uma visão de quem está na ponta, acho que é menos perigoso.”  (...) 

 

A entrevista, na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
Conferência a 22 de Maio com ministro Mário Centeno Ver galeria

Mário Centeno, Ministro das Finanças e Presidente do Eurogrupo, é o nosso orador convidado para o jantar-debate do próximo dia 22 de Maio, promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema que tem presidido a esta série  - “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”.

Mário José Gomes de Freitas Centeno nasceu em Olhão, em Dezembro de 1966, e fez o seu percurso académico em Lisboa, para onde veio morar, com os pais e irmãos, quando tinha 15 anos. Obteve no ISEG  - Instituto Superior de Economia e Gestão a sua licenciatura em Economia, em 1990, seguida de um mestrado em Matemática Aplicada na mesma escola superior.


Livro de memórias de Pedro Rolo Duarte sem ser autobiografia Ver galeria

Pedro Rolo Duarte, que nos deixou em Novembro de 2017, deixou também um conjunto de textos agora reunidos e publicados em livro. O título, “Não Respire”, vai direito a um tema incontornável, que o autor assume e é continuado logo abaixo, na mesma capa: “Tudo começou cedo demais (e quando dei por isso era tarde)”.
O Observador, que publica excertos de momentos marcantes da sua vida, explica que “a autobiografia póstuma do jornalista, que a editora Manuscrito acabou de publicar, fala naturalmente da doença, mas não só”. O primeiro desses excertos é “o vício do tabaco”. Mas as 296 páginas “estão repletas de histórias de uma vida cheia. Nelas, Rolo Duarte recordou os melhores tempos de uma carreira com mais de 30 anos (a fundação d’O Independente, do DNA), os amigos, as paixões e os vícios. Sempre com grande saudade mas sem uma ponta de pessimismo.”

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
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