Sábado, 30 de Maio, 2020
Media

Repórter de guerra em Mossul confessa-se sem ilusões na cobertura dos conflitos

Um jornalista brasileiro que foi ver o que sobrava da “Primavera Árabe”, em 2013, e cobriu depois, como freelancer, o que se passa no Iraque e na Síria, conta como é ser repórter de guerra. Yan Boechat voltou há pouco tempo e foi entrevistado pela Agência Pública, no Rio de Janeiro, na abertura da exposição de fotos “A Batalha por Mossul”, que trouxe da cidade onde passou sete meses acompanhando a guerra entre o “Estado Islâmico” e as forças armadas iraquianas. Toma o seu trabalho a sério mas não tem ilusões. O que um repórter pode fazer na frente é importante, diz, mas não vai mudar o mundo nem tem poder para parar o conflito. A entrevista é reproduzida no Observatório da Imprensa, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Um dos primeiros equívocos que encontrou em Mossul, e hoje procura esclarecer, é o da aceitação que o chamado “Estado Islâmico” conseguiu à chegada. A população local tinha sido tão maltratada pelas forças armadas iraquianas, “quase 100% xiitas hoje, com soldados recrutados no sul do Iraque, região predominantemente xiita”, que o “Estado Islâmico” foi bem recebido no verão de 2014. 

Compreender as ambiguidades desta tragédia passa por conhecer a história anterior, “e o sectarismo, que era uma coisa que não tinha tanta importância na época do Saddam, e todo o processo de arabização dos partidos Baath”. 

Respondendo a uma pergunta da jornalista Adriana Carranca, Yan Boechat concorda que a guerra não acaba, nem o “Estado Islâmico”: 

“Aqui não sai muita notícia porque é pobre matando pobre. Mas os atentados já começaram em Mossul, os atentados suicidas entre a população civil, as células adormecidas estão despertando. Enfim, vai ser o que era Mossul entre 2009 e 2014, até que algo maior surja e domine.” 

Sobre o papel do jornalista no local, reconhece que é muito limitado pelas condições de acesso. Os freelancers ficam dependentes de um indivíduo local a que chamam o fixer, “que é o seu tradutor, também uma espécie de produtor, o cara que vai abrir caminho, que tem contato com os generais, coronéis. É o cara que dá uma grana ali por baixo: quando o cara vai na cidade, ele faz um negocinho e abre esse esquema. Sem esse cara, é muito difícil você conseguir entrar, até por conta da barreira da língua e das conexões que vão sendo criadas também com as forças armadas”. (...) 

No caso da Síria, “você tem que se registar no Ministério da Informação e, quando entra, o Ministério aloca uma pessoa, um tradutor. Esse tradutor, obviamente, é um minder, um agente do governo que vai te censurar em várias coisas e guiar você dentro do país. Você fica com ele 24 horas por dia. O único lugar em que ele não dorme ao seu lado é em Damasco, em que você pode pegar um hotel e ficar na parte do governo.” (...) 

“Tenho muito claro que nós, repórteres, em um ambiente de guerra, seja ela qual for, cobrindo conflito no Rio, no Iraque, na Ucrânia, a gente é instrumento de propaganda. Achar que ‘eu vou lá e vou fazer uma reportagem!’, você vai descobrir que eles querem, de qualquer lado, que você veja só o que eles quiserem.” 

“Eu sei que estou sendo usado, eles querem me usar e vou tentar escapar. Por isso, prefiro não fazer matérias de teor político ou tentar dizer quem está ganhando ou perdendo porque não me sinto capaz de identificar o que está acontecendo. O que dá para ver e fazer é contar as histórias. Por exemplo, dá para perceber que os caras estão massacrando na sua cara. Isso dá uma matéria. Ou fazer uma matéria sobre como os snipers atuam. Prefiro uma visão de quem está na ponta, acho que é menos perigoso.”  (...) 

 

A entrevista, na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
Na era digital a máquina é o “braço direito” do jornalista ... Ver galeria

A era digital fez-se acompanhar de uma profunda alteração nos modelos de actividade e de negócio, entre os quais se destaca o sector mediático, segundo aponta o mais recente relatório do Obercom.

De acordo com o estudo, essas mudanças caracterizam-se, sobretudo, pela implementação de algoritmos e pela automatização dos sistemas.

Se, por um lado, a digitalização trouxe alguns problemas ao sector mediático, que, durante décadas estudou a adaptação a um mundo globalizado, onde a informação nunca pára, por outro, veio facilitar o trabalho aos jornalistas.

Este fenómeno é, aparentemente, paradoxal, mas a verdade é que os processos automáticos ajudam os profissionais a responderem, eficazmente, à necessidade da produção “sôfrega” de conteúdos noticiosos.

Trocando por miúdos: se as máquinas existem, porque não “pedir-lhes ajuda”?

Assim, os “media” actuais dependem, cada vez mais, de algoritmos que permitem analisar a preferências dos leitores, bem como de sistemas que facilitam a actualização de “websites” ao minuto.

A urgência de proteger jornalistas em países onde falha a liberdade de imprensa Ver galeria

A violência contra os jornalistas é uma realidade cada vez mais presente no mundo contemporâneo, já que várias entidades, insatisfeitas com a sua independência, estão a desenvolver novos mecanismos para impedir a publicação de artigos incómodos para o poder instituído.

Os atentados mais graves contra a liberdade de imprensa ocorrem em países onde esta está condicionada, mas, igualmente, noutros onde era suposto haver protecção para o trabalho jornalístico.

De acordo com um artigo do “Guardian”, esta realidade distópica ficou  mais evidente com o aparecimento do coronavírus.

A título de exemplo, alguns governos criaram medidas extraordinárias, visando a restrição do trabalho jornalístico. Foi o caso da Hungria, onde Viktor Órban instituiu a lei “coronavírus”, que criminaliza a difusão de “notícias falsas” sobre a pandemia. 

Da mesma forma, tanto a China como o Irão censuraram a informação respeitante aos surtos nestes países.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Jornalismo Empreendedor
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Congresso Mundial de "Media"
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18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
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15
Out
II Conferência Internacional - História do Jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas