Terça-feira, 11 de Dezembro, 2018
Media

Mais um jornal condenado pede socorro no meio do naufrágio

O semanário The Baltimore City Paper, que durante 40 anos tem animado a cidade com o seu estilo “alternativo” de reportagem, sobre música e artes em geral, vai encerrar durante este ano. A notícia vem da empresa a que pertence, o Grupo do Baltimore Sun, mas o editor não se rende sem luta e lança um apelo no meio do naufrágio: “Daqui fala Brandon Soderberg, editor do City Paper, em directo do deck do Titanic; (…) ainda estou meio convencido de que isto não vai ser o fim do jornal e que alguém vai aparecer de repente para nos comprar.” 

O motivo oficial anunciado é o do costume, a quebra nas receitas da publicidade. Mas Ross Barkan, num comentário em The Guardian, vai mais directo ao assunto:  

“O jornalismo está hoje a morrer porque ninguém ainda conseguiu descobrir como pode ser financiado num sistema capitalista do tipo ‘quem ganha fica com tudo’.” (…)  

E recorda os números conhecidos: 

“Nos últimos 15 anos, mais de metade dos empregos na indústria da Informação desapareceram, segundo um relatório do Bureau of Labour Statistics dos Estados Unidos, publicado em Abril. Em Janeiro de 2001, empregava 411.800 pessoas. Em Setembro de 2016, este número tinha caído para 173.709. Houve crescimento nos meios noticiosos online, ao longo da década, mas não foi suficiente para compensar todos os empregos perdidos nos jornais. A maioria desses websites estão concentrados em meia dúzia de grandes cidades, o que é fraco consolo para as cidades pequenas e as regiões mais modestas, que são as mais atingidas pelo colapso.” 

Ross Barkan afirma que “as preocupações financeiras colocam à indústria da Informação uma ameaça muito maior do que tudo aquilo que Trump diga ou faça”. Não poupa críticas aos “nihilistas Trumpianos”, pelo modo como denigrem a profissão do jornalismo na sua totalidade. Mas acrescenta: 

“A tragédia é que isto seria muito mais difícil de conseguir se os maiores adeptos de Trump, espalhados pelos vários subúrbios e ex-urbes e cidades deprimidas por todo o país encontrassem regularmente jornais locais vibrantes, reconhecendo o papel construtivo que podem ter.” 

A concluir, a sua esperança de “um modelo económico que funcione” passa por um misto de empresa não-lucrativa ou baseada nos seus próprios membros (como a ProPublica ou o jornal holandês De Correspondent) “ou pela necessidade, a longo prazo, de que o governo comece a tratar as empresas noticiosas como um bem público, subsidiando parcialmente as suas necessidades limite, ou providenciando outras salvaguardas para as manter vivas". 

 

O artigo citado, em The Guardian, e mais informação sobre o City Paper

Connosco
Estratégia mediática da China usa "barcos emprestados" para "autenticar" a propaganda... Ver galeria

Durante décadas, a estratégia de imagem da China foi defensiva, de resposta, e apontada sobretudo à sua audiência interna. O efeito mais visível era o desaparecimento de conteúdos: revistas estrangeiras com páginas arrancadas, ou as emissões da BBC que ficavam escuras quando tratavam de temas sensíveis, como o Tibete, Taiwan ou o massacre de Tienanmen.

Mas nos últimos anos a China desenvolveu uma estratégia mais sofisticada e assertiva, apontada às audiências internacionais. E Pequim está a fazê-lo com grande investimento financeiro  - que inclui cobertura jornalística patrocinada.

Um dos exemplos mais ostensivos é agora a contratação de jornalistas ocidentais para a China Global Television Network  - o ramo internacional da Televisão Central da China -  com estúdios em Chiswick, Londres. O objectivo deste esforço é, nas palavras do Presidente Xi Jinping, “contar bem a história da China”. E não faltam candidatos. A informação consta de uma reportagem extensa, em The Guardian.

Jornais perdem publicidade e a democracia qualidade Ver galeria

A receita proveniente da publicidade nos diários impressos está a desaparecer num movimento que parece inexorável. Acontece em todos os mercados, e nomeadamente no dos EUA, que pode servir de aviso aos outros: neste caso, a receita da publicidade de todos os diários foi de 13.330 milhões de dólares em 2016, de 9.760 neste ano de 2018, quase a acabar, e será de apenas 4.400 milhões em 2022, segundo a mais recente projecção da eMarketer.

Na Espanha, e segundo os dados da InfoAdex sobre os nove primeiros meses de 2018, regista-se uma queda generalizada de 6,1% no investimento na Imprensa escrita, depois de onze anos de descida sem fim. O balanço é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, que conclui: “A desinformação instala-se à vontade e é urgente fazer qualquer coisa. Não abandonemos os editores, ou a qualidade da democracia irá pelo mesmo ralo por onde se escoa a conta de resultados dos meios de comunicação.”

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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