Sexta-feira, 22 de Setembro, 2017
Opinião

Uma comunicação mal comunicada

por Francisco Sarsfield Cabral

A tragédia dos incêndios florestal tem evidenciado uma preocupante desorganização no seu combate. Essa desorganização também se manifesta no campo da comunicação social.

A Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) anunciou há dias que passaria a concentrar a informação sobre os fogos em dois “briefings” diários na sua sede em Carnaxide – um de manhã, outro à tarde. Os bombeiros não gostaram; o presidente da Liga de Bombeiros falou mesmo em “lei da rolha”. Instalou-se a ideia que ANPC queria filtrar e eventualmente ocultar alguma informação. Os jornalistas também se insurgiram contra a anunciada medida, considerando indispensável terem informação fidedigna no terreno, no “teatro das operações”.

A ideia da “lei da rolha” parece afinal ser falsa: a nova directiva só se aplica aos elementos da estrutura operacional da ANPC, não aos comandantes dos bombeiros e outros operacionais no terreno. Digo “parece” porque esta clarificação passou largamente desapercebida, havendo ainda agora quem critique a aparente “mordaça” aos bombeiros. Vejam-se, por exemplo, os artigos de hoje (sexta-feira, 20) de José Manuel Fernandes no Observador e de Felisbela Lopes no Jornal de Notícias.

 

De facto, as primeiras explicações da ANPC sobre a tal directiva referiam justificações como “em situações excepcionais são precisas soluções excepcionais”. “Não temos qualquer interesse em esconder informação”, garantia Patrícia Gaspar, da ANPC. Mas é difícil confiar em que venha informação útil da parte de uma entidade que tão mal comunicou algo que lhe dizia respeito.

 

Para além deste caso envolvendo a ANPC, creio existir fraca consciência em algumas cabeças quanto à maneira como, actualmente, funciona a comunicação social: em permanente informação. Seja através das televisões (cinco canais informativos transmitindo notícias quase 24 horas por dia), seja pelas rádios, jornais, blogues,    

redes sociais, etc. Mesmo os jornais que apenas e publicam uma vez por dia têm, como os outros “media”, sites onde as notícias são actualizadas em permanência.

 

Da parte das autoridades deveriam existir pessoas qualificadas (bombeiros ou não) capazes de transmitir aos jornalistas informações seguras nos locais dos incêndios. Tem havido progressos, por exemplo na PSP, na informação pública. Esses progressos deveriam chegar, também ao combate aos incêndios florestais.

Connosco
A prisão solitária do “egosistema digital” como doença contagiosa do nosso tempo Ver galeria

Há uma geração zombie deambulando pelas ruas sem levantar os olhos dos seus ecrãs, teclando no Whatsapp ou consultando o Facebook. Até os restaurantes se tornaram mais silenciosos, porque chamamos o empregado tocando num botão e conversamos à distância pelo smartphone sem prestar atenção aos vizinhos de mesa que estão a fazer exactamente o mesmo. Não é uma mudança tecnológica, é uma revolução sociológica. E o vírus é contagioso, impregnou o espaço do cosmos. Todos fomos contagiados pela doença do nosso tempo, o egosistema digital.

O jornalismo em “tempos de cólera” e a interacção com o público Ver galeria

Chegámos a um novo “patamar de interacção entre jornais e público, potencializado pela Internet e pelas ferramentas de diálogo”, e é nesse espaço  que “um tipo específico de emoção e de sensação” é agora exposto com mais frequência: “há casos recentes e emblemáticos que ilustram tempos de cólera, intolerância e polarização social por todo o mundo”. A questão de fundo é a de saber que papel de controlo, ou de mediação, pode ainda o jornalismo exercer. É este o tema do “comentário da semana” de ObjEthos, Observatório da Ética Jornalística do Brasil.

O Clube

Está formado o Júri que vai apreciar os trabalhos concorrentes ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído pelo Clube Português de Imprensa (CPI) e pelo Jornal Tribuna de Macau (JTM),  com o apoio da Fundação Jorge Álvares.

O Júri será presidido por Dinis de Abreu, em representação do CPI, e integrado pelos jornalistas José Rocha Diniz, fundador e administrador do Jornal Tribuna de Macau, José Carlos de Vasconcelos, director do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, Carlos Magno, pela Fundação Jorge Álvares e por José António Silva Pires, também do CPI.


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