Terça-feira, 21 de Novembro, 2017
Opinião

Uma comunicação mal comunicada

por Francisco Sarsfield Cabral

A tragédia dos incêndios florestal tem evidenciado uma preocupante desorganização no seu combate. Essa desorganização também se manifesta no campo da comunicação social.

A Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) anunciou há dias que passaria a concentrar a informação sobre os fogos em dois “briefings” diários na sua sede em Carnaxide – um de manhã, outro à tarde. Os bombeiros não gostaram; o presidente da Liga de Bombeiros falou mesmo em “lei da rolha”. Instalou-se a ideia que ANPC queria filtrar e eventualmente ocultar alguma informação. Os jornalistas também se insurgiram contra a anunciada medida, considerando indispensável terem informação fidedigna no terreno, no “teatro das operações”.

A ideia da “lei da rolha” parece afinal ser falsa: a nova directiva só se aplica aos elementos da estrutura operacional da ANPC, não aos comandantes dos bombeiros e outros operacionais no terreno. Digo “parece” porque esta clarificação passou largamente desapercebida, havendo ainda agora quem critique a aparente “mordaça” aos bombeiros. Vejam-se, por exemplo, os artigos de hoje (sexta-feira, 20) de José Manuel Fernandes no Observador e de Felisbela Lopes no Jornal de Notícias.

 

De facto, as primeiras explicações da ANPC sobre a tal directiva referiam justificações como “em situações excepcionais são precisas soluções excepcionais”. “Não temos qualquer interesse em esconder informação”, garantia Patrícia Gaspar, da ANPC. Mas é difícil confiar em que venha informação útil da parte de uma entidade que tão mal comunicou algo que lhe dizia respeito.

 

Para além deste caso envolvendo a ANPC, creio existir fraca consciência em algumas cabeças quanto à maneira como, actualmente, funciona a comunicação social: em permanente informação. Seja através das televisões (cinco canais informativos transmitindo notícias quase 24 horas por dia), seja pelas rádios, jornais, blogues,    

redes sociais, etc. Mesmo os jornais que apenas e publicam uma vez por dia têm, como os outros “media”, sites onde as notícias são actualizadas em permanência.

 

Da parte das autoridades deveriam existir pessoas qualificadas (bombeiros ou não) capazes de transmitir aos jornalistas informações seguras nos locais dos incêndios. Tem havido progressos, por exemplo na PSP, na informação pública. Esses progressos deveriam chegar, também ao combate aos incêndios florestais.

Connosco
Imprensa nas mãos de grupos financeiros "proletariza" jornalistas Ver galeria

“Um jornal, hoje, não pode viver sem se pôr de joelhos diante da Google”. Foi esta a síntese de Casimiro García Abadillo, director de El Independiente, na comemoração do centenário do jornal El Sol. Disse ainda que as quedas da tiragem e da receita publicitária, desde a chegada da Internet, trouxeram uma “debilidade financeira” que permitiu que os grandes jornais fossem apropriados pela banca e outros grupos empresariais. Outra consequência foi a perda de emprego para muitos profissionais e uma desvalorização salarial que “proletarizou [a profissão] até limites insuportáveis”. A reportagem é da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

Jornalismo de investigação em crise por falta de suporte financeiro Ver galeria

“Podíamos pensar que não devia haver discussão a respeito da importância do jornalismo de investigação. Mas o colapso da base financeira do jornalismo nestes últimos 15 anos causou muitas vítimas, e uma das principais foi o campo da investigação. (...) O jornalismo de investigação passou a ser visto, cada vez mais, como um desperdício de tempo, custoso e ineficiente.” Esta reflexão faz parte da síntese de apresentação do novo relatório produzido pelo Global Investigative Journalism Network, que desmente o preconceito e demonstra o verdadeiro impacto do jornalismo de investigação, bem como o seu contributo essencial para uma vida democrática saudável.

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Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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