Quinta-feira, 21 de Março, 2019
Media

Uma fórmula original de serviço público para apoiar o jornalismo local

A grande crise que se tem abatido sobre os meios de comunicação, nos Estados Unidos, é mais visível pelos cortes e despedimentos nos grandes títulos, mas regista um número incontável de vítimas entre os jornais de informação local. Agora, um grupo de jornalistas interessado em reverter esta tendência retoma a noção do serviço público como possível caminho de solução, e o seu espaço de implantação numa entidade autárquica americana pouco conhecida entre nós  -  os Distritos de Serviços Especiais.

Existem presentemente nos EUA mais de 30 mil Special Service Districts, cuja lógica é a vocação de serviço público numa determinada função e para uma determinada comunidade humana, que pode não coincidir com o território definido pelos Estados ou pelas municipalidades onde esta necessidade é sentida. 

Pode tratar-se de manter os serviços de bombeiros, ou de saúde, ou do fornecimento de água, por exemplo. Estes Distritos são sustentados por impostos ou outras contribuições recolhidas em determinada área geográfica, e ficam com a responsabilidade de servir as comunidades que contribuíram para isso. 

Existem depois, dentro desta rede, os Community Information Districts (à letra, Distritos de Informação Comunitária), que têm por missão servir as necessidades de informação em determinada área, que pode reunir várias municipalidades. 

É neste espaço que o jornalista Simon Galperin e os seus companheiros têm estado a propor a criação de um modelo de Special Service District direccionado para o jornalismo local. 

Os jornalistas que já foram abordados sobre este assunto  - como conta em artigo publicado na Columbia Journalism Review, que aqui citamos  -  “ficaram intrigados com a ideia, embora alguns se tenham tornado apreensivos quando se lhes pede que avaliem a proposta como contribuintes; mas nós também falámos com os contribuintes, que se mostraram de modo geral receptivos”. 

O autor cita o exemplo da sua cidade de Fair Lawn, no Estado de New Jersey, com 32 mil habitantes. Uma contribuição anual de 40 dólares por cada habitação podia financiar um orçamento operativo de 500 mil dólares a uma redacção vocacionada para compreender e servir as necessidades de noticiário e informação local da sua comunidade. 

“Esse orçamento podia manter jornais impressos ou online, ou a transmissão ao vivo das assembleias municipais. Um Special Service District para o jornalismo local podia organizar debates comunitários ou cursos de literacia dos media, criar um sistema de mensagens ou alertas de e-mail, ou pagar um serviço automatizado de resposta a perguntas como  – está em vigor o parqueamento em lados alternados?” (...) 

“Estes Community Information Districts não serão uma cura universal, e há obstáculos ao seu estabelecimento. Algumas comunidades podem resistir à noção de mais um imposto. Outras podem não ter, antes do mais, a base necessária para manter estes serviços. Estamos à procura de soluções para estes casos, mas não são insuperáveis.” (...) 

“O acesso às notícias e à informação é a chave para um governo democrático. O modelo dos CID’s oferece um motor financeiro para um jornalismo sustentável e radicalmente local, que por sua vez mantém a Imprensa regional e nacional. Proporciona um incentivo financeiro directo a jornalistas para que deixem as [cidades costeiras], se envolvam profundamente nas suas comunidades e passem a dar prioridade ao impacto do seu trabalho, em vez de às pageviews. Os CID’s podiam revitalizar e manter o noticiário local, reconstruir a confiança e aumentar o envolvimento cívico por todo o país.” 

 

O texto original, na íntegra, na CJ Review

Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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