Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Media

Uma fórmula original de serviço público para apoiar o jornalismo local

A grande crise que se tem abatido sobre os meios de comunicação, nos Estados Unidos, é mais visível pelos cortes e despedimentos nos grandes títulos, mas regista um número incontável de vítimas entre os jornais de informação local. Agora, um grupo de jornalistas interessado em reverter esta tendência retoma a noção do serviço público como possível caminho de solução, e o seu espaço de implantação numa entidade autárquica americana pouco conhecida entre nós  -  os Distritos de Serviços Especiais.

Existem presentemente nos EUA mais de 30 mil Special Service Districts, cuja lógica é a vocação de serviço público numa determinada função e para uma determinada comunidade humana, que pode não coincidir com o território definido pelos Estados ou pelas municipalidades onde esta necessidade é sentida. 

Pode tratar-se de manter os serviços de bombeiros, ou de saúde, ou do fornecimento de água, por exemplo. Estes Distritos são sustentados por impostos ou outras contribuições recolhidas em determinada área geográfica, e ficam com a responsabilidade de servir as comunidades que contribuíram para isso. 

Existem depois, dentro desta rede, os Community Information Districts (à letra, Distritos de Informação Comunitária), que têm por missão servir as necessidades de informação em determinada área, que pode reunir várias municipalidades. 

É neste espaço que o jornalista Simon Galperin e os seus companheiros têm estado a propor a criação de um modelo de Special Service District direccionado para o jornalismo local. 

Os jornalistas que já foram abordados sobre este assunto  - como conta em artigo publicado na Columbia Journalism Review, que aqui citamos  -  “ficaram intrigados com a ideia, embora alguns se tenham tornado apreensivos quando se lhes pede que avaliem a proposta como contribuintes; mas nós também falámos com os contribuintes, que se mostraram de modo geral receptivos”. 

O autor cita o exemplo da sua cidade de Fair Lawn, no Estado de New Jersey, com 32 mil habitantes. Uma contribuição anual de 40 dólares por cada habitação podia financiar um orçamento operativo de 500 mil dólares a uma redacção vocacionada para compreender e servir as necessidades de noticiário e informação local da sua comunidade. 

“Esse orçamento podia manter jornais impressos ou online, ou a transmissão ao vivo das assembleias municipais. Um Special Service District para o jornalismo local podia organizar debates comunitários ou cursos de literacia dos media, criar um sistema de mensagens ou alertas de e-mail, ou pagar um serviço automatizado de resposta a perguntas como  – está em vigor o parqueamento em lados alternados?” (...) 

“Estes Community Information Districts não serão uma cura universal, e há obstáculos ao seu estabelecimento. Algumas comunidades podem resistir à noção de mais um imposto. Outras podem não ter, antes do mais, a base necessária para manter estes serviços. Estamos à procura de soluções para estes casos, mas não são insuperáveis.” (...) 

“O acesso às notícias e à informação é a chave para um governo democrático. O modelo dos CID’s oferece um motor financeiro para um jornalismo sustentável e radicalmente local, que por sua vez mantém a Imprensa regional e nacional. Proporciona um incentivo financeiro directo a jornalistas para que deixem as [cidades costeiras], se envolvam profundamente nas suas comunidades e passem a dar prioridade ao impacto do seu trabalho, em vez de às pageviews. Os CID’s podiam revitalizar e manter o noticiário local, reconstruir a confiança e aumentar o envolvimento cívico por todo o país.” 

 

O texto original, na íntegra, na CJ Review

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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