Sábado, 25 de Maio, 2019
Media

História da Al-Jazeera "longe de ser perfeita" vista por um seu “biógrafo”

A estação Al-Jazeera está “longe de ser perfeita”, e a sua política continua controversa, mas “as sociedades árabes beneficiam por terem uma diversidade de vozes debatendo os temas actuais”. “Fechar qualquer empresa noticiosa enfraquece a viabilidade de uma Imprensa livre  - em especial numa região onde a democracia tem tanta dificuldade em consolidar-se.” Esta reflexão é de Philip Seib, docente de Jornalismo e Relações Internacionais na Universidade de Southern California, citada do European Journalism Observatory.

O autor começa por se declarar um estudioso e comentador do fenómeno Al-Jazeera desde o seu começo, o que o levou, em 2008, a publicar o livro The Al Jazeera Effect

Philip Seib descreve a surpresa que causou na paisagem mediática árabe, quando foi fundada em 1996, oferecendo “uma cobertura relativamente não censurada da política na região”, um pouco à semelhança dos noticiários da BBC e da CNN

Mais importante, quando aconteceu a Segunda Intifada (o levantamento Palestiniano de 2000 contra Israel), “as audiências árabes já não tinham de ligar para as estações ocidentais para obterem uma análise sobre o que estava a acontecer; em vez disso viam repórteres árabes cobrindo as notícias com uma inclinação pró-árabe”. (...) 

“Em termos mais amplos, o canal tornou-se controverso devido à sua reportagem das guerras americanas no Afeganistão e no Iraque. O governo de George W. Bush considerou a sua cobertura inflamatória, pelo relevo atribuído às baixas civis nesses conflitos, com representantes oficiais acusando a Al-Jazeera de atiçar a oposição contra os esforços dos Estados Unidos na região.” (...)

Philip Seib explica, também, que, sendo embora muito crítica das classes dominantes na maior parte dos Estados árebes, a Al-Jazeera não faz a cobertura da família real do Qatar com o mesmo nível de investigação, sendo considerada, na prática, uma parte do “aparelho de política estrangeira do Qatar”. (...) 

“A Arábia Saudita, o Bahrain e os Emirados Árabes Unidos sentiram-se especialmente contrariados com a Al-Jazeera e os seus proprietários do Qatar a partir das Primaveras Árabes de 2011. Eles consideraram a Al-Jazeera como favorável aos contestatários e entenderam que estava a soprar as labaredas da revolta que ameaçava as monarquias da região.” 

Philip Seib afirma que a Al-Jazeera fez uma cobertura favorável à Irmandade Muçulmana (o que enfureceu o Presidente Abdel Fattah el-Sisi), e que é verdade que a sua reportagem tem “uma inclinação pró-Islamista”. Os adversários do Qatar dizem “que esta reportagem toma a forma de uma cobertura simpática não só da Irmandade Muçulmana, mas ainda de grupos ligados à Al-Qaeda na Síria e no Iemen”. (...) 

Apesar de tudo, e em conclusão, o autor declara:

“O Médio Oriente tem problemas incontáveis, mas eles não vão ser resolvidos fazendo recuar uma já limitada liberdade de Imprensa.”

 

O artigo de Philip Seib, no European Journalism Observatory

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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