Terça-feira, 26 de Outubro, 2021
Media

A “tempestade perfeita” que ameaça os meios de comunicação

A convergência entre o domínio esmagador do Google e do Facebook sobre a publicidade digital, os bloqueadores de anúncios, a chegada de uma publicidade menos invasiva e a presente entronização dos dispositivos móveis está a reunir todos os elementos para uma espécie de “tempestade perfeita” no sector dos meios de comunicação, que podem ter pela frente uma devastadora nova vaga de crise. Devem os governos intervir, indo mesmo ao ponto de converter as grandes plataformas numa espécie de serviço público? Esta reflexão é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics.

O Google recolheu, em 2016, 90.300 milhões de dólares, essencialmente provenientes da publicidade digital. Segundo os peritos, este ano poderá ultrapassar os cem mil milhões, duplicando assim a sua receita em cinco anos. O Google tem um valor em bolsa de 581.000 milhões de dólares, e Facebook e Amazon aproximam-se já dos 400.000 milhões de capitalização.

Como recorda Miguel Ormaetxea: 

“Perante isto, e para ajudar as editoras, o Google dotou com 150 milhões de euros a sua Digital News Initiative. No dia 6 de Julho concordou em dar 21 milhões de euros a 107 projectos europeus. É de notar que a grande maioria deste dinheiro foi para editoras médias ou grandes, quando são as pequenas editoras digitais as que mais estão a sofrer, até ao ponto de poderem extinguir-se em massa, como os dinossauros. É curioso assinalar também que o Google financiou o projecto RADAR, um site de ‘jornalista-robot’ capaz de escrever 30 mil notícias por mês. É esta a ideia que tem o Google sobre o novo eco-sistema da Informação digital? 21 milhões de 90 mil de receita? Estão a gozar connosco?” (...) 

Cabe dizer, neste ponto, que o artigo que citamos faz uma espécie de “revisão da matéria dada” sobre factos muito recentes, dos quais temos deixado oportuna referência no site do CPI.

O mais recente de todos é a diligência conjunta dos grandes jornais de referência dos Estados Unidos, para imporem, por via legal, a capacidade de negociarem colectivamente, a nível da sua associação representativa, a News Media Alliance, contra a pressão do “duopólio digital” Google – Facebook. 

O Google disse em comunicado que pretende “ajudar as editoras a triunfarem na sua transição digital” mas Miguel Ormaetxea comenta:

“Não parece que esteja a consegui-lo. Para dar só um exemplo, o grupo de media que é hegemónico em Espanha, a PRISA, viu reduzirem-se as suas receitas 66% em menos de dez anos, e o EBITDA 74%, e ainda suporta uma dívida de 1.600 milhões de euros. A acção perdeu mais de 90% do seu valor. Não parece que o Google tenha ajudado muito a PRISA.” (...)

O autor fala ainda das várias alianças de jornais em curso, em diferentes países, para combaterem juntos o referido “duopólio”, e termina com uma referência à batalha pela posse dos dados sociodemográficos e de tendências de compra:

“A chave são os dados: aquelas editoras que têm apenas um endereço de e-mail dos seus assinantes têm muito pouco que possam fazer. E os reis dos dados são, de novo, Google, Facebook e Amazon. Está na hora de ir mais longe do que aplicar simples multas.”

 

 

 

O artigo citado, na íntegra, em Media-tics

Connosco
Jornal finlandês troca "cadeados" por "diamantes" para atrair assinantes Ver galeria

Com a era digital, vários jornais passaram a apostar nos conteúdos “online”, recorrendo às “paywalls” para obter receitas.

Este novo modelo de negócio foi introduzido um pouco por toda a Europa, incluindo na Finlândia, onde o jornal “Helsingin Sanomat” conta com a subscrição de 48% de todos os assinantes de produtos noticiosos do país.

Conforme apontou Hanaa Tameez num artigo publicado no “Nieman Lab”, o "Helsingin Sanomat” foi fundado em 1889, quando a Finlândia ainda integrava o Império Russo. Agora, este jornal é detido pelo Grupo Sanoma, que controla 40 outras marcas mediáticas naquele país.

Em 2016, continuou Tameez, os editores do “Helsingin Sanomat” chegaram à conclusão de que a “paywall” não estava a obter os resultados esperados.

Por isso mesmo, os responsáveis por aquela publicação começaram a analisar o tipo de conteúdos que deveriam ser exclusivos para subscritores e, em vez de os assinalarem com um “cadeado”, passaram a identificá-los através de um “diamante”.

“O símbolo do cadeado passou a ser reconhecido mundialmente enquanto um identificador da ‘Paywall’”, disse o editor-executivo, Kaius Niemi, em entrevista para o “Nieman Lab”. “Sentimos, contudo, que o cadeado não simboliza valor acrescentado no jornalismo, ou ‘storytelling’ avançado. Por outro lado, acaba por ter uma conotação negativa, já que fecha a porta a um potencial subscritor. Os diamantes, por sua vez, ilustram o trabalho árduo dedicado a cada história”.

Graças a estas iniciativas, a equipa editorial daquele jornal finlandês percebeu que estava a apostar em temáticas que não chamavam a atenção dos leitores, e decidiram investir em artigos sobre sociedade, cultura e “lifestyle”.

Relatório aponta prioridade para o jornalismo isento e objectivo Ver galeria

As audiências valorizam a imparcialidade no jornalismo, e justificam a convicção de que os artigos noticiosos e as colunas de opinião devem ser, claramente, distinguidas, aponta o estudo The Relevance Of Impartial News In A Polarised World, encomendado pela Universidade de Oxford.

De acordo com este relatório -- que contou com 52 participantes, provenientes da Alemanha, do Brasil, dos Estados Unidos e do Reino Unido -- a informação objectiva e a contextualização devem estar no centro de qualquer formato noticioso.

Neste sentido, os participantes do estudo alertaram para o facto de as peças noticiosas e as colunas de opinião não serem facilmente identificáveis em formatos “online”, ao contrário do que acontece nas publicações em formato de papel.

“As audiências valorizam a opinião como um suplemento dos factos, mas, na sua generalidade, querem que a informação objectiva seja estabelecida em primeiro lugar. O público preocupa-se, também, com a mistura destes dois formatos”.

Os jornais assumem-se, assim, como a fonte noticiosa mais fiável, embora alguns leitores mais jovens considerem que estas publicações transmitem “ideais conservadores”, com os quais não se identificam.

Por outro lado, os participantes afirmam que as redes sociais não são boas fontes noticiosas, já que os seus algoritmos dão prioridade aos artigos de opinião, sem que estes estejam identificados como tal.

“Nas redes sociais, torna-se difícil distinguir entre notícias e a opinião, devido à falta de pistas. Algumas pessoas consideram que isto é um problema”, indica o relatório. “Alguns temem que o conteúdo de opinião esteja a contaminar as notícias. Outros assumem, simplesmente, que a opinião é uma característica inerente a estas plataformas”.

O Clube


Conhecidas as propostas do governo para o Orçamento de Estado, verifica-se que o sector dos media continua a ser o “parente pobre”, sem atrair medidas de reanimação capazes de corrigirem e de equilibrarem o plano inclinado em que se encontra a maioria das empresas jornalísticas, já periclitantes antes de serem fortemente flageladas pela pandemia.
O Sindicato dos Jornalistas lamenta-o e estranha que o OE ignore “completamente as dificuldades da comunicação social”. As associações do sector, como é o caso do CPI, certamente não menos.
O documento é omisso em medidas de apoio, que possam contribuir para inverter o declínio das vendas de jornais e revistas, sem pôr em causa a independência das publicações.
O bom jornalismo não precisa de ser subsidiado, mas implica redacções ágeis e com capacidade de resposta, que não dependam das redes sociais para medirem a realidade.
Com as contas no “vermelho”, as empresas editoriais não dispõem , contudo, de meios nem de condições propícias ao investimento, por exemplo, na reportagem de investigação.
Os jornalistas saem cada vez menos e a pandemia, com o teletrabalho, mais acentuou esse défice de contacto com o exterior.
É impossível não concordar com o SJ quando este defende várias medidas, como a criação de um voucher de 20 euros por agregado familiar para assinaturas ou compra de jornais e revistas, o desconto do IVA de produtos de media no IRS e a oferta de jornais ou de uma assinatura digital a todos os jovens que completem 18 anos.
Salva-se apenas a digitalização, a única que tem verbas disponíveis no âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR). É importante. Mas não é exclusivamente por aí que se salvam os media em sérias dificuldades, que lutam pela sobrevivência. E que são um pilar da democracia. Eis um debate urgente ao qual nos associamos.


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Nov
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