Terça-feira, 28 de Janeiro, 2020
Media

A “tempestade perfeita” que ameaça os meios de comunicação

A convergência entre o domínio esmagador do Google e do Facebook sobre a publicidade digital, os bloqueadores de anúncios, a chegada de uma publicidade menos invasiva e a presente entronização dos dispositivos móveis está a reunir todos os elementos para uma espécie de “tempestade perfeita” no sector dos meios de comunicação, que podem ter pela frente uma devastadora nova vaga de crise. Devem os governos intervir, indo mesmo ao ponto de converter as grandes plataformas numa espécie de serviço público? Esta reflexão é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics.

O Google recolheu, em 2016, 90.300 milhões de dólares, essencialmente provenientes da publicidade digital. Segundo os peritos, este ano poderá ultrapassar os cem mil milhões, duplicando assim a sua receita em cinco anos. O Google tem um valor em bolsa de 581.000 milhões de dólares, e Facebook e Amazon aproximam-se já dos 400.000 milhões de capitalização.

Como recorda Miguel Ormaetxea: 

“Perante isto, e para ajudar as editoras, o Google dotou com 150 milhões de euros a sua Digital News Initiative. No dia 6 de Julho concordou em dar 21 milhões de euros a 107 projectos europeus. É de notar que a grande maioria deste dinheiro foi para editoras médias ou grandes, quando são as pequenas editoras digitais as que mais estão a sofrer, até ao ponto de poderem extinguir-se em massa, como os dinossauros. É curioso assinalar também que o Google financiou o projecto RADAR, um site de ‘jornalista-robot’ capaz de escrever 30 mil notícias por mês. É esta a ideia que tem o Google sobre o novo eco-sistema da Informação digital? 21 milhões de 90 mil de receita? Estão a gozar connosco?” (...) 

Cabe dizer, neste ponto, que o artigo que citamos faz uma espécie de “revisão da matéria dada” sobre factos muito recentes, dos quais temos deixado oportuna referência no site do CPI.

O mais recente de todos é a diligência conjunta dos grandes jornais de referência dos Estados Unidos, para imporem, por via legal, a capacidade de negociarem colectivamente, a nível da sua associação representativa, a News Media Alliance, contra a pressão do “duopólio digital” Google – Facebook. 

O Google disse em comunicado que pretende “ajudar as editoras a triunfarem na sua transição digital” mas Miguel Ormaetxea comenta:

“Não parece que esteja a consegui-lo. Para dar só um exemplo, o grupo de media que é hegemónico em Espanha, a PRISA, viu reduzirem-se as suas receitas 66% em menos de dez anos, e o EBITDA 74%, e ainda suporta uma dívida de 1.600 milhões de euros. A acção perdeu mais de 90% do seu valor. Não parece que o Google tenha ajudado muito a PRISA.” (...)

O autor fala ainda das várias alianças de jornais em curso, em diferentes países, para combaterem juntos o referido “duopólio”, e termina com uma referência à batalha pela posse dos dados sociodemográficos e de tendências de compra:

“A chave são os dados: aquelas editoras que têm apenas um endereço de e-mail dos seus assinantes têm muito pouco que possam fazer. E os reis dos dados são, de novo, Google, Facebook e Amazon. Está na hora de ir mais longe do que aplicar simples multas.”

 

 

 

O artigo citado, na íntegra, em Media-tics

Connosco
Jornalismo universitário americano cultiva independência Ver galeria

A indústria mediática está em decadência. Nos últimos dez anos, perdeu-se um quarto dos empregos no sector e espera-se que, na próxima década, desapareçam mais 10%.

O jornais regionais são, particularmente, prejudicados, com mais de 1.400 cidades norte-americanas a ficar sem a cobertura local.

Cole Stallone, director do jornal universitário “Washington Square News”, escreveu um artigo oportuno sobre a importância da aposta no jornalismo independente, promovido por estudantes.

Para Stallone, embora o jornalismo seja uma profissão em risco, continua a ser importante cobrir histórias e acontecimentos. Enquanto os profissionais se debatem com a importância de relatar eventos de maior dimensão, é crucial que haja cidadãos que se ocupem de ocorrências locais.


Como a tecnologia pode ser "amiga" do jornalismo... Ver galeria

A desinformação é uma das maiores preocupações dos “media” e, com o desenvolvimento tecnológico, têm surgido alguma soluções interessantes. O Blockchain é um programa que bloqueia, automaticamente, informações que considera falsas, e embora não se entenda que pode salvar o jornalismo, ainda pode ser útil à imprensa. O problema é que os leitores não parecem interessados nos factos.

O “The New York Times” lançou um projecto com o objectivo de perceber se o bloqueio facilita, ou não, a compreensão da origem das notícias, por parte dos consumidores. Os colaboradores têm pesquisado utilizadores e construído protótipos da Blockchain, divulgando, agora algumas das suas revelações iniciais.


O Clube

Ao retomar a regularidade de actualização deste site, no inicio de outra década, achámos oportuno proceder ao  balanço do vasto material arquivado, designadamente, em textos de reflexão sobre a forma como está a ser exercido o jornalismo,  no contexto de um período extremamente exigente  para os novos e velhos  “media”.

O resultado dessa pesquisa retrospectiva foi muito estimulante, a ponto de termos sentido  ser um imperativo partilhá-la, no essencial,  com quem nos acompanha mais de perto, sendo, no entanto,  recém-chegados. 


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