Quarta-feira, 18 de Julho, 2018
Media

Quando o jornal e os leitores formam uma comunidade

Os jornais vivem para os seus leitores e, em princípio, dos seus leitores. Pelo lado melhor, estabelecem com eles uma relação de serviço público. Outras vezes tratam-nos como consumidores, ou clientes instáveis, cujas preferências é preciso satisfazer. Quando a publicidade deixou de garantir a sobrevivência das empresas, estas apelaram à constância dos leitores como assinantes. Jay Rosen, docente de Jornalismo na Universidade de Nova Iorque, está a pesquisar um caminho ainda mais ambicioso: o de se estabelecer, entre os leitores e o seu jornal, uma relação de pertença, uma fidelidade de “membrasia”.

O projecto que apresentou, no final de Março de 2017, chama-se Membership Puzzle Project e, antes do mais, não esconde que tem mecenato à partida: é apoiado pela Fundação Knight, pelo Democracy Fund e pela First Look Media. Mas o seu objectivo é o de desenvolver os jornais como comunidades associativas de envolvimento pessoal, e o modelo proposto como exemplo a seguir é o de um jornal que já existe, o De Correspondent, na Holanda.  

“Uma das coisas que descobri  - afirma Jay Rosen -  é que o De Correspondent conseguiu, no período de três anos, criar uma cultura interna muito forte. É um lugar muito divertido para se trabalhar. As pessoas estão todas na mesma página.” 

“Não têm tanto cinismo sobre a sua própria empresa como muitos jornalistas nos jornais das grandes metrópoles. E têm uma liderança que é muito respeitada. Os princípios de manterem a ligação com os membros e de se relacionarem com as pessoas como sendo leitores esclarecidos, bem como a ideia de que qualquer pessoa é competente em qualquer coisa, são princípios em que os correspondentes realmente acreditam, na sua maioria.” 

“Há alguns dissidentes e uns poucos que duvidam. Mas, na sua maioria, os que são correspondentes no De Correspondent têm aprendido que este tipo de envolvimento é muito útil e os ajuda a fazerem melhor trabalho. E mostram entusiasmo no seu aperfeiçoamento.” (...) 

Interrogado sobre a viabilidade deste modelo nos Estados Unidos, Jay Rosen lembra que a ideia de “membrasia” se limita muito à noção de doar apoio económico para sustentar qualquer instituição. No caso de um jornal, acaba por ser um departamento completamente separado da redacção. Mas “é quando as pessoas estão envolvidas com o jornalismo, e se sentem parte dele, que se cria o laço mais forte entre membros e jornalistas”. 

E, no entanto, não falta nos EUA uma “tradição forte de associações voluntárias e de filantropia”. Há modelos de “membrasia” no apoio às orquestras e outras instituições culturais, bem como em movimentos activistas [por causas concretas] e, evidentemente, na religião. As igrejas podem ser um exemplo interessante a ter em conta.

 

 

A entrevista com Jay Rosen, o lançamento do Membership Puzzle Project e o jornal De Correspondent, apresentado em inglês

Connosco
Aumentam assinaturas pagas de meios digitais com algumas surpresas... Ver galeria

As assinaturas pagas são a “tábua de salvação” dos jornais digitais, mas cobrar pelas notícias, neste terreno, é uma estratégia difícil de implementar. Muitos meios de comunicação hesitam em dar este passo, pelo receio de perderem leitores. No entanto, dezenas de outros tiveram êxito, seguindo estratégias diferentes e, também, com diversos graus de sucesso. A FIPP  - Federação Internacional da Imprensa Periódica -  editou recentemente o seu primeiro Global Digital Subscription Snapshot, que permite consultar a tabela com os principais meios online, comparar os seus números de assinantes e preços cobrados e, assim, obter ideias úteis para os que procuram chegar ao desejado equilíbrio financeiro sem terem de perder público.

Como captar audiência e ser fiel ao bom jornalismo Ver galeria

A crise que tem atingido os meios de comunicação, nos últimos anos, com a queda constante das receitas da publicidade e a dependência incerta da adesão dos leitores, tem conduzido editores e jornalistas a apostarem sobretudo nesta segunda direcção. Reatar relações de confiança e construir “audiências leais em torno de um jornalismo de qualidade”, parece ser o único caminho sólido, mesmo que não seja fácil. Os fundamentos da próxima geração de modelos sustentáveis de receita para os media “serão contribuições directas da sua audiência, apoiados por altos níveis de compromisso dos leitores”.

Portanto, uma espécie de “contrato social”, pelo lado do meio de comunicação e dos seus jornalistas, e uma espécie de “conversão pessoal”, pelo lado dos leitores. É esta a linha desenvolvida por um recente estudo do Tow Center for Digital Journalism, da Universidade de Columbia, nos EUA, aqui comentado em artigo publicado na 36ª edição de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

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