Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
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As sondagens como alquimia mediática para influenciar o espaço público

Há mais de meio século que os media atribuem às sondagens um papel cada vez maior, para tratarem cada vez mais temas e questões. Mas o que são, afinal, as sondagens? Instrumentos objectivos de medida, ou antes ferramentas destinadas a influenciar a chamada “opinião pública”? É esta a reflexão sarcástica de um texto assinado por Blaise Magnin e Denis Souchon e publicado no AcrimedObservatoire des Médias, em França.

Blaise Magnin, investigador em Ciências Políticas na Universidade de Nanterre, e Denis Souchon, jornalista e membro do Acrimed, chegam à conclusão de que os meios de comunicação que procedem deste modo “tendem a impor a sua visão do espaço social e participam, de facto, na elaboração desta forma de discurso a que Pierre Bourdieu e Luc Boltanski chamavam, em 1976, a ‘ideologia dominante’ pela qual ‘a fracção dominante da classe dominante fornece a sua filosofia social’.”  (...) 

“Este trabalho de imposição de problemáticas ou de pseudo-problemáticas por meio das sondagens é um trabalho colectivo realizado, em estreita relação de concorrência e de obrigações recíprocas com os actores dos mundos políticos e mediáticos, por um clero composto de pseudo-sábios habitualmente chamados sondeurs [técnicos ou especialistas de sondagens].” 

“Estes sondeurs (que são, em muitos aspectos, para o conhecimento do mundo social, aquilo que são os alquimistas para a química ou os atrólogos para a astronomia) são, de facto, administradores de opiniões, tornados mediaticamente omnipresentes desde há 30 anos, sendo ao mesmo tempo os agentes de uma indústria com fins (muito) lucrativos, da qual as sondagens políticas não constituem mais do que a parte visível e a montra de prestígio: a dos inquéritos de opinião com objectivos comerciais, realizados junto dos consumidores.” (...) 

O artigo que citamos detém-se depois sobre duas dúzias de técnicos ou especialistas de sondagens, em França, “activos em 2017, que ocuparam ou continuam a ocupar metodicamente o espaço mediático, com frequências de aparição variáveis ao longo da carreira de cada um, e de um indivíduo para outro”. (...) 

Entre outras características, eles são definidos como “quase-ventríloquos do poder”, por efeito da formação em “Sciences-po” [Ciências Políticas] de cerca de 80%, “que explica em grande parte este ‘ar de família’ (social e ‘intelectual’) que emana deles”. Por sua vez, esta “formação comum explica como parecem intermutáveis na sua forma de contribuirem para pôr em palavras, em números e em curvas [de gráfico] as prioridades, as preocupações e as ‘soluções’ dos seus ex-condiscípulos que ocupam posições de poder nos campos económicos, políticos e mediáticos”. (...) 

Um destes especialistas é objecto particular de atenção no texto que citamos  -  Stéphane Rozès, apresentado como alguém que, “em três decénios, construiu um curriculum vitae que lhe permite tocar ‘música fina’ em quase todos os media e lugares de poder”. 

O diagnóstico final sobre o uso presente das sondagens no universo mediático é sobrio, citando mais uma vez Pierre Bourdieu:

“Entrámos na era da demagogia racional ou racionalizada. A lógica do plebiscito, que é a da sondagem ou da entrevista na televisão em directo, ou do audimat, ou do inquérito de marketing comercial ou político, pode conduzir às formas mais primitivas da barbárie, contra a qual todas as instituições democráticas, parlamentares e, nomeadamente, judiciais, foram construídas.”

 

O artigo citado, na íntegra, no site de Acrimed, a que pertencem ambas as imagens utilizadas

Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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