Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
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As sondagens como alquimia mediática para influenciar o espaço público

Há mais de meio século que os media atribuem às sondagens um papel cada vez maior, para tratarem cada vez mais temas e questões. Mas o que são, afinal, as sondagens? Instrumentos objectivos de medida, ou antes ferramentas destinadas a influenciar a chamada “opinião pública”? É esta a reflexão sarcástica de um texto assinado por Blaise Magnin e Denis Souchon e publicado no AcrimedObservatoire des Médias, em França.

Blaise Magnin, investigador em Ciências Políticas na Universidade de Nanterre, e Denis Souchon, jornalista e membro do Acrimed, chegam à conclusão de que os meios de comunicação que procedem deste modo “tendem a impor a sua visão do espaço social e participam, de facto, na elaboração desta forma de discurso a que Pierre Bourdieu e Luc Boltanski chamavam, em 1976, a ‘ideologia dominante’ pela qual ‘a fracção dominante da classe dominante fornece a sua filosofia social’.”  (...) 

“Este trabalho de imposição de problemáticas ou de pseudo-problemáticas por meio das sondagens é um trabalho colectivo realizado, em estreita relação de concorrência e de obrigações recíprocas com os actores dos mundos políticos e mediáticos, por um clero composto de pseudo-sábios habitualmente chamados sondeurs [técnicos ou especialistas de sondagens].” 

“Estes sondeurs (que são, em muitos aspectos, para o conhecimento do mundo social, aquilo que são os alquimistas para a química ou os atrólogos para a astronomia) são, de facto, administradores de opiniões, tornados mediaticamente omnipresentes desde há 30 anos, sendo ao mesmo tempo os agentes de uma indústria com fins (muito) lucrativos, da qual as sondagens políticas não constituem mais do que a parte visível e a montra de prestígio: a dos inquéritos de opinião com objectivos comerciais, realizados junto dos consumidores.” (...) 

O artigo que citamos detém-se depois sobre duas dúzias de técnicos ou especialistas de sondagens, em França, “activos em 2017, que ocuparam ou continuam a ocupar metodicamente o espaço mediático, com frequências de aparição variáveis ao longo da carreira de cada um, e de um indivíduo para outro”. (...) 

Entre outras características, eles são definidos como “quase-ventríloquos do poder”, por efeito da formação em “Sciences-po” [Ciências Políticas] de cerca de 80%, “que explica em grande parte este ‘ar de família’ (social e ‘intelectual’) que emana deles”. Por sua vez, esta “formação comum explica como parecem intermutáveis na sua forma de contribuirem para pôr em palavras, em números e em curvas [de gráfico] as prioridades, as preocupações e as ‘soluções’ dos seus ex-condiscípulos que ocupam posições de poder nos campos económicos, políticos e mediáticos”. (...) 

Um destes especialistas é objecto particular de atenção no texto que citamos  -  Stéphane Rozès, apresentado como alguém que, “em três decénios, construiu um curriculum vitae que lhe permite tocar ‘música fina’ em quase todos os media e lugares de poder”. 

O diagnóstico final sobre o uso presente das sondagens no universo mediático é sobrio, citando mais uma vez Pierre Bourdieu:

“Entrámos na era da demagogia racional ou racionalizada. A lógica do plebiscito, que é a da sondagem ou da entrevista na televisão em directo, ou do audimat, ou do inquérito de marketing comercial ou político, pode conduzir às formas mais primitivas da barbárie, contra a qual todas as instituições democráticas, parlamentares e, nomeadamente, judiciais, foram construídas.”

 

O artigo citado, na íntegra, no site de Acrimed, a que pertencem ambas as imagens utilizadas

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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