Segunda-feira, 25 de Junho, 2018
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As sondagens como alquimia mediática para influenciar o espaço público

Há mais de meio século que os media atribuem às sondagens um papel cada vez maior, para tratarem cada vez mais temas e questões. Mas o que são, afinal, as sondagens? Instrumentos objectivos de medida, ou antes ferramentas destinadas a influenciar a chamada “opinião pública”? É esta a reflexão sarcástica de um texto assinado por Blaise Magnin e Denis Souchon e publicado no AcrimedObservatoire des Médias, em França.

Blaise Magnin, investigador em Ciências Políticas na Universidade de Nanterre, e Denis Souchon, jornalista e membro do Acrimed, chegam à conclusão de que os meios de comunicação que procedem deste modo “tendem a impor a sua visão do espaço social e participam, de facto, na elaboração desta forma de discurso a que Pierre Bourdieu e Luc Boltanski chamavam, em 1976, a ‘ideologia dominante’ pela qual ‘a fracção dominante da classe dominante fornece a sua filosofia social’.”  (...) 

“Este trabalho de imposição de problemáticas ou de pseudo-problemáticas por meio das sondagens é um trabalho colectivo realizado, em estreita relação de concorrência e de obrigações recíprocas com os actores dos mundos políticos e mediáticos, por um clero composto de pseudo-sábios habitualmente chamados sondeurs [técnicos ou especialistas de sondagens].” 

“Estes sondeurs (que são, em muitos aspectos, para o conhecimento do mundo social, aquilo que são os alquimistas para a química ou os atrólogos para a astronomia) são, de facto, administradores de opiniões, tornados mediaticamente omnipresentes desde há 30 anos, sendo ao mesmo tempo os agentes de uma indústria com fins (muito) lucrativos, da qual as sondagens políticas não constituem mais do que a parte visível e a montra de prestígio: a dos inquéritos de opinião com objectivos comerciais, realizados junto dos consumidores.” (...) 

O artigo que citamos detém-se depois sobre duas dúzias de técnicos ou especialistas de sondagens, em França, “activos em 2017, que ocuparam ou continuam a ocupar metodicamente o espaço mediático, com frequências de aparição variáveis ao longo da carreira de cada um, e de um indivíduo para outro”. (...) 

Entre outras características, eles são definidos como “quase-ventríloquos do poder”, por efeito da formação em “Sciences-po” [Ciências Políticas] de cerca de 80%, “que explica em grande parte este ‘ar de família’ (social e ‘intelectual’) que emana deles”. Por sua vez, esta “formação comum explica como parecem intermutáveis na sua forma de contribuirem para pôr em palavras, em números e em curvas [de gráfico] as prioridades, as preocupações e as ‘soluções’ dos seus ex-condiscípulos que ocupam posições de poder nos campos económicos, políticos e mediáticos”. (...) 

Um destes especialistas é objecto particular de atenção no texto que citamos  -  Stéphane Rozès, apresentado como alguém que, “em três decénios, construiu um curriculum vitae que lhe permite tocar ‘música fina’ em quase todos os media e lugares de poder”. 

O diagnóstico final sobre o uso presente das sondagens no universo mediático é sobrio, citando mais uma vez Pierre Bourdieu:

“Entrámos na era da demagogia racional ou racionalizada. A lógica do plebiscito, que é a da sondagem ou da entrevista na televisão em directo, ou do audimat, ou do inquérito de marketing comercial ou político, pode conduzir às formas mais primitivas da barbárie, contra a qual todas as instituições democráticas, parlamentares e, nomeadamente, judiciais, foram construídas.”

 

O artigo citado, na íntegra, no site de Acrimed, a que pertencem ambas as imagens utilizadas

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