Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
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As sondagens como alquimia mediática para influenciar o espaço público

Há mais de meio século que os media atribuem às sondagens um papel cada vez maior, para tratarem cada vez mais temas e questões. Mas o que são, afinal, as sondagens? Instrumentos objectivos de medida, ou antes ferramentas destinadas a influenciar a chamada “opinião pública”? É esta a reflexão sarcástica de um texto assinado por Blaise Magnin e Denis Souchon e publicado no AcrimedObservatoire des Médias, em França.

Blaise Magnin, investigador em Ciências Políticas na Universidade de Nanterre, e Denis Souchon, jornalista e membro do Acrimed, chegam à conclusão de que os meios de comunicação que procedem deste modo “tendem a impor a sua visão do espaço social e participam, de facto, na elaboração desta forma de discurso a que Pierre Bourdieu e Luc Boltanski chamavam, em 1976, a ‘ideologia dominante’ pela qual ‘a fracção dominante da classe dominante fornece a sua filosofia social’.”  (...) 

“Este trabalho de imposição de problemáticas ou de pseudo-problemáticas por meio das sondagens é um trabalho colectivo realizado, em estreita relação de concorrência e de obrigações recíprocas com os actores dos mundos políticos e mediáticos, por um clero composto de pseudo-sábios habitualmente chamados sondeurs [técnicos ou especialistas de sondagens].” 

“Estes sondeurs (que são, em muitos aspectos, para o conhecimento do mundo social, aquilo que são os alquimistas para a química ou os atrólogos para a astronomia) são, de facto, administradores de opiniões, tornados mediaticamente omnipresentes desde há 30 anos, sendo ao mesmo tempo os agentes de uma indústria com fins (muito) lucrativos, da qual as sondagens políticas não constituem mais do que a parte visível e a montra de prestígio: a dos inquéritos de opinião com objectivos comerciais, realizados junto dos consumidores.” (...) 

O artigo que citamos detém-se depois sobre duas dúzias de técnicos ou especialistas de sondagens, em França, “activos em 2017, que ocuparam ou continuam a ocupar metodicamente o espaço mediático, com frequências de aparição variáveis ao longo da carreira de cada um, e de um indivíduo para outro”. (...) 

Entre outras características, eles são definidos como “quase-ventríloquos do poder”, por efeito da formação em “Sciences-po” [Ciências Políticas] de cerca de 80%, “que explica em grande parte este ‘ar de família’ (social e ‘intelectual’) que emana deles”. Por sua vez, esta “formação comum explica como parecem intermutáveis na sua forma de contribuirem para pôr em palavras, em números e em curvas [de gráfico] as prioridades, as preocupações e as ‘soluções’ dos seus ex-condiscípulos que ocupam posições de poder nos campos económicos, políticos e mediáticos”. (...) 

Um destes especialistas é objecto particular de atenção no texto que citamos  -  Stéphane Rozès, apresentado como alguém que, “em três decénios, construiu um curriculum vitae que lhe permite tocar ‘música fina’ em quase todos os media e lugares de poder”. 

O diagnóstico final sobre o uso presente das sondagens no universo mediático é sobrio, citando mais uma vez Pierre Bourdieu:

“Entrámos na era da demagogia racional ou racionalizada. A lógica do plebiscito, que é a da sondagem ou da entrevista na televisão em directo, ou do audimat, ou do inquérito de marketing comercial ou político, pode conduzir às formas mais primitivas da barbárie, contra a qual todas as instituições democráticas, parlamentares e, nomeadamente, judiciais, foram construídas.”

 

O artigo citado, na íntegra, no site de Acrimed, a que pertencem ambas as imagens utilizadas

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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