Sábado, 25 de Maio, 2019
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Ética jornalística em debate sobre a cobertura de tiroteios indiscriminados

A reportagem dos tiroteios que se têm tornado vulgares nos Estados Unidos, habitualmente designados pela expressão mass shootings, coloca problemas de ética jornalística. Um deles pode ser o efeito de insensibilização dos leitores ou telespectadores; outro, pior, o de imitação, pelo qual outros candidatos a agressores são tentados à conquista de fama instantânea na comunicação social. Um inquérito recente, feito junto de 1.300 jornalistas, procura avaliar o que pensam disto os próprios profissionais.

A primeira afirmação do artigo que apresenta este trabalho é que os tiroteios desta natureza, sem motivo aparente e com vítimas aleatórias, se tornaram lugar-comum nos EUA  -  tendo já ocorrido 173 neste ano de 2017, segundo uma estimativa citada. O mais recente foi o de 30 de Junho, em que 25 pessoas foram mortas num clube nocturno em Little Rock. Duas semanas antes, o Congressista Steve Scalise contava-se entre os cinco mortos num campo de baseball em Alexandria, e a sua visibilidade política provocou uma cobertura mais intensa deste caso concreto, reavivando o debate sobre a violência com armas de fogo e a questão do seu controlo nos Estados Unidos. 

Alguns jornalistas e estudiosos do fenómeno  - incluindo o ex-Presidente Barack Obama -  sugerem que a natureza já rotineira desta cobertura dos mass shootings tem contribuído para a “fadiga da compaixão”, uma espécie de insensibilização à crise. 

Outros sublinham a relação entre os atacantes “sedentos de fama”, que podem ser seduzidos a agir por efeito de imitação. Em resultado desta descoberta, algumas organizações (como a No Notoriety), agentes policiais ou de governo, e mesmo jornalistas, têm feito a escolha consciente de não nomear os causadores dos tiroteios. Mas é evidente que a decisão de “não nomear” o protagonista de um acto destes é “atípica” na cobertura jornalística. 

A autora do artigo que citamos, Nicole Smith Dahmen, professora de comunicação visual na Universidade do Oregon e ela própria uma das quatro pessoas que realizaram o inquérito referido, apresenta as seguintes três conclusões principais:

  1. – Apesar de existir investigação que revela uma relação entre a cobertura noticiosa e o efeito de “imitação”, os jornalistas mostraram-se bastante ambivalentes quanto a esssa relação.
  2. – A maioria dos jornalistas apoia a cobertura típica do causador, incluindo a identificação e a publicação de fotos dele, bem como das suas afirmações, vídeos ou manifestos.
  3. – Ao mesmo tempo, os jornalistas manifestaram grande apoio a reportagens que se focam sobre os sobreviventes e a resiliência da comunidade no seguimento de mass shootings. Também apoiam muito uma cobertura de longo termo e apontando possíveis soluções.

 

Noutra parte do seu artigo, cita reacções de grupos específicos entre os profissionais dos media, por exemplo os editores, os jornalistas mais velhos, os não-brancos, etc. Há um momento em que afirma: 

“É uma triste conclusão pensar que o produto do trabalho de uma pessoa pode contribuir para mais mass shootings. Mas, dado que os resultados da investigação sugerem o efeito de ‘imitação’, os jornalistas devem estar conscientes de que a percepção que têm do seu trabalho nem sempre se ajusta ao seu real impacto. Uma comparação útil, neste caso, pode ser a cobertura de suicídios.” (...)

 

 

O artigo de Nicole Dahmen, na íntegra, na International Journalists’ Network

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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