Quarta-feira, 18 de Julho, 2018
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Ética jornalística em debate sobre a cobertura de tiroteios indiscriminados

A reportagem dos tiroteios que se têm tornado vulgares nos Estados Unidos, habitualmente designados pela expressão mass shootings, coloca problemas de ética jornalística. Um deles pode ser o efeito de insensibilização dos leitores ou telespectadores; outro, pior, o de imitação, pelo qual outros candidatos a agressores são tentados à conquista de fama instantânea na comunicação social. Um inquérito recente, feito junto de 1.300 jornalistas, procura avaliar o que pensam disto os próprios profissionais.

A primeira afirmação do artigo que apresenta este trabalho é que os tiroteios desta natureza, sem motivo aparente e com vítimas aleatórias, se tornaram lugar-comum nos EUA  -  tendo já ocorrido 173 neste ano de 2017, segundo uma estimativa citada. O mais recente foi o de 30 de Junho, em que 25 pessoas foram mortas num clube nocturno em Little Rock. Duas semanas antes, o Congressista Steve Scalise contava-se entre os cinco mortos num campo de baseball em Alexandria, e a sua visibilidade política provocou uma cobertura mais intensa deste caso concreto, reavivando o debate sobre a violência com armas de fogo e a questão do seu controlo nos Estados Unidos. 

Alguns jornalistas e estudiosos do fenómeno  - incluindo o ex-Presidente Barack Obama -  sugerem que a natureza já rotineira desta cobertura dos mass shootings tem contribuído para a “fadiga da compaixão”, uma espécie de insensibilização à crise. 

Outros sublinham a relação entre os atacantes “sedentos de fama”, que podem ser seduzidos a agir por efeito de imitação. Em resultado desta descoberta, algumas organizações (como a No Notoriety), agentes policiais ou de governo, e mesmo jornalistas, têm feito a escolha consciente de não nomear os causadores dos tiroteios. Mas é evidente que a decisão de “não nomear” o protagonista de um acto destes é “atípica” na cobertura jornalística. 

A autora do artigo que citamos, Nicole Smith Dahmen, professora de comunicação visual na Universidade do Oregon e ela própria uma das quatro pessoas que realizaram o inquérito referido, apresenta as seguintes três conclusões principais:

  1. – Apesar de existir investigação que revela uma relação entre a cobertura noticiosa e o efeito de “imitação”, os jornalistas mostraram-se bastante ambivalentes quanto a esssa relação.
  2. – A maioria dos jornalistas apoia a cobertura típica do causador, incluindo a identificação e a publicação de fotos dele, bem como das suas afirmações, vídeos ou manifestos.
  3. – Ao mesmo tempo, os jornalistas manifestaram grande apoio a reportagens que se focam sobre os sobreviventes e a resiliência da comunidade no seguimento de mass shootings. Também apoiam muito uma cobertura de longo termo e apontando possíveis soluções.

 

Noutra parte do seu artigo, cita reacções de grupos específicos entre os profissionais dos media, por exemplo os editores, os jornalistas mais velhos, os não-brancos, etc. Há um momento em que afirma: 

“É uma triste conclusão pensar que o produto do trabalho de uma pessoa pode contribuir para mais mass shootings. Mas, dado que os resultados da investigação sugerem o efeito de ‘imitação’, os jornalistas devem estar conscientes de que a percepção que têm do seu trabalho nem sempre se ajusta ao seu real impacto. Uma comparação útil, neste caso, pode ser a cobertura de suicídios.” (...)

 

 

O artigo de Nicole Dahmen, na íntegra, na International Journalists’ Network

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