Terça-feira, 23 de Outubro, 2018
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Ética jornalística em debate sobre a cobertura de tiroteios indiscriminados

A reportagem dos tiroteios que se têm tornado vulgares nos Estados Unidos, habitualmente designados pela expressão mass shootings, coloca problemas de ética jornalística. Um deles pode ser o efeito de insensibilização dos leitores ou telespectadores; outro, pior, o de imitação, pelo qual outros candidatos a agressores são tentados à conquista de fama instantânea na comunicação social. Um inquérito recente, feito junto de 1.300 jornalistas, procura avaliar o que pensam disto os próprios profissionais.

A primeira afirmação do artigo que apresenta este trabalho é que os tiroteios desta natureza, sem motivo aparente e com vítimas aleatórias, se tornaram lugar-comum nos EUA  -  tendo já ocorrido 173 neste ano de 2017, segundo uma estimativa citada. O mais recente foi o de 30 de Junho, em que 25 pessoas foram mortas num clube nocturno em Little Rock. Duas semanas antes, o Congressista Steve Scalise contava-se entre os cinco mortos num campo de baseball em Alexandria, e a sua visibilidade política provocou uma cobertura mais intensa deste caso concreto, reavivando o debate sobre a violência com armas de fogo e a questão do seu controlo nos Estados Unidos. 

Alguns jornalistas e estudiosos do fenómeno  - incluindo o ex-Presidente Barack Obama -  sugerem que a natureza já rotineira desta cobertura dos mass shootings tem contribuído para a “fadiga da compaixão”, uma espécie de insensibilização à crise. 

Outros sublinham a relação entre os atacantes “sedentos de fama”, que podem ser seduzidos a agir por efeito de imitação. Em resultado desta descoberta, algumas organizações (como a No Notoriety), agentes policiais ou de governo, e mesmo jornalistas, têm feito a escolha consciente de não nomear os causadores dos tiroteios. Mas é evidente que a decisão de “não nomear” o protagonista de um acto destes é “atípica” na cobertura jornalística. 

A autora do artigo que citamos, Nicole Smith Dahmen, professora de comunicação visual na Universidade do Oregon e ela própria uma das quatro pessoas que realizaram o inquérito referido, apresenta as seguintes três conclusões principais:

  1. – Apesar de existir investigação que revela uma relação entre a cobertura noticiosa e o efeito de “imitação”, os jornalistas mostraram-se bastante ambivalentes quanto a esssa relação.
  2. – A maioria dos jornalistas apoia a cobertura típica do causador, incluindo a identificação e a publicação de fotos dele, bem como das suas afirmações, vídeos ou manifestos.
  3. – Ao mesmo tempo, os jornalistas manifestaram grande apoio a reportagens que se focam sobre os sobreviventes e a resiliência da comunidade no seguimento de mass shootings. Também apoiam muito uma cobertura de longo termo e apontando possíveis soluções.

 

Noutra parte do seu artigo, cita reacções de grupos específicos entre os profissionais dos media, por exemplo os editores, os jornalistas mais velhos, os não-brancos, etc. Há um momento em que afirma: 

“É uma triste conclusão pensar que o produto do trabalho de uma pessoa pode contribuir para mais mass shootings. Mas, dado que os resultados da investigação sugerem o efeito de ‘imitação’, os jornalistas devem estar conscientes de que a percepção que têm do seu trabalho nem sempre se ajusta ao seu real impacto. Uma comparação útil, neste caso, pode ser a cobertura de suicídios.” (...)

 

 

O artigo de Nicole Dahmen, na íntegra, na International Journalists’ Network

Connosco
Jornalista e historiador de Macau vencem Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.
O semanário Plataforma Macau é publicado em Macau, em português e chinês. 

Na categoria Ensaio, o Júri deliberou, também por unanimidade, atribuir o Prémio ao trabalho de António Aresta, considerando tratar-se de “uma narrativa consequente sobre a visita histórica do grande poeta a Macau, com passagem por Cantão e Hong Kong”.

Universidades apoiam e investem no jornalismo de investigação Ver galeria

A sociedade necessita de um jornalismo de investigação que fica caro, e esta necessidade “chega num momento de grande tensão financeira para uma indústria maciçamente perturbada pelas novas tecnologias e alterações económicas”.

“Acreditamos que este tipo de jornalismo, em defesa do povo americano, é mais importante do que nunca na presente cacofonia de informação confusa, contraditória e enganadora, já para não falar de cepticismo  - ou por vezes rejeição absoluta -  dos factos.”

Esta reflexão é assinada por Christopher Callahan e Leonard Downie Jr., docentes na Universidade Estatal do Arizona, sobre a criação de dois centros de ensino de jornalismo de investigação, um na Universidade referida, outro na de Maryland. Tendo em conta a “proliferação de centros de reportagem de investigação independentes, sem objectivo de lucro, em grande parte financiados por [mecenato] filantrópico”, as universidades “estão prontas a assumir funções de liderança neste novo ecossistema de jornalismo de investigação”  - afirmam no seu texto.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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