Quinta-feira, 19 de Abril, 2018
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Ética jornalística em debate sobre a cobertura de tiroteios indiscriminados

A reportagem dos tiroteios que se têm tornado vulgares nos Estados Unidos, habitualmente designados pela expressão mass shootings, coloca problemas de ética jornalística. Um deles pode ser o efeito de insensibilização dos leitores ou telespectadores; outro, pior, o de imitação, pelo qual outros candidatos a agressores são tentados à conquista de fama instantânea na comunicação social. Um inquérito recente, feito junto de 1.300 jornalistas, procura avaliar o que pensam disto os próprios profissionais.

A primeira afirmação do artigo que apresenta este trabalho é que os tiroteios desta natureza, sem motivo aparente e com vítimas aleatórias, se tornaram lugar-comum nos EUA  -  tendo já ocorrido 173 neste ano de 2017, segundo uma estimativa citada. O mais recente foi o de 30 de Junho, em que 25 pessoas foram mortas num clube nocturno em Little Rock. Duas semanas antes, o Congressista Steve Scalise contava-se entre os cinco mortos num campo de baseball em Alexandria, e a sua visibilidade política provocou uma cobertura mais intensa deste caso concreto, reavivando o debate sobre a violência com armas de fogo e a questão do seu controlo nos Estados Unidos. 

Alguns jornalistas e estudiosos do fenómeno  - incluindo o ex-Presidente Barack Obama -  sugerem que a natureza já rotineira desta cobertura dos mass shootings tem contribuído para a “fadiga da compaixão”, uma espécie de insensibilização à crise. 

Outros sublinham a relação entre os atacantes “sedentos de fama”, que podem ser seduzidos a agir por efeito de imitação. Em resultado desta descoberta, algumas organizações (como a No Notoriety), agentes policiais ou de governo, e mesmo jornalistas, têm feito a escolha consciente de não nomear os causadores dos tiroteios. Mas é evidente que a decisão de “não nomear” o protagonista de um acto destes é “atípica” na cobertura jornalística. 

A autora do artigo que citamos, Nicole Smith Dahmen, professora de comunicação visual na Universidade do Oregon e ela própria uma das quatro pessoas que realizaram o inquérito referido, apresenta as seguintes três conclusões principais:

  1. – Apesar de existir investigação que revela uma relação entre a cobertura noticiosa e o efeito de “imitação”, os jornalistas mostraram-se bastante ambivalentes quanto a esssa relação.
  2. – A maioria dos jornalistas apoia a cobertura típica do causador, incluindo a identificação e a publicação de fotos dele, bem como das suas afirmações, vídeos ou manifestos.
  3. – Ao mesmo tempo, os jornalistas manifestaram grande apoio a reportagens que se focam sobre os sobreviventes e a resiliência da comunidade no seguimento de mass shootings. Também apoiam muito uma cobertura de longo termo e apontando possíveis soluções.

 

Noutra parte do seu artigo, cita reacções de grupos específicos entre os profissionais dos media, por exemplo os editores, os jornalistas mais velhos, os não-brancos, etc. Há um momento em que afirma: 

“É uma triste conclusão pensar que o produto do trabalho de uma pessoa pode contribuir para mais mass shootings. Mas, dado que os resultados da investigação sugerem o efeito de ‘imitação’, os jornalistas devem estar conscientes de que a percepção que têm do seu trabalho nem sempre se ajusta ao seu real impacto. Uma comparação útil, neste caso, pode ser a cobertura de suicídios.” (...)

 

 

O artigo de Nicole Dahmen, na íntegra, na International Journalists’ Network

Connosco
Quando os repórteres são os heróis que nos fazem falta Ver galeria

Parece excessivo declarar que os repórteres são os heróis do nosso tempo, como vem no título do texto que aqui citamos. Quem o diz não é um jornalista, mas um historiador. E explica porquê, e de que repórteres está a falar. Trata-se daqueles que assumem riscos e perdem a vida para investigar a verdade do que sucede à nossa volta  - e esse tipo de reportagem de investigação “é um pedacinho microscópico dessa coisa a que chamamos media”.

Os repórteres que “correm riscos pela verdade” fazem-no por todos nós, incluindo pelos soldados que vamos ou não enviar para a frente de batalha. O único modo de avaliarmos as guerras em que nos envolvemos é tendo repórteres “com a coragem e a capacidade de irem lá fazer reportagem”. Esta reflexão é do historiador norte-americano Timothy Snyder, que citamos da Global Investigative Journalism Network.

O jornalismo com mais “clics” pode não ser o mais lido Ver galeria

Pode acontecer que o melhor jornalismo nem seja o que é mais lido. Não gostamos de ouvir esta notícia, mas foi disto e de outras coisas parecidas que se falou no XXI Laboratorio de Periodismo da APM, o debate periódico sobre temas de actualidade que, na sua edição de Abril de 2017, teve por tema “O que lêem e o que não lêem os leitores”. O encontro decorreu na sede da Asociación de la Prensa de Madrid  - com a qual mantemos um acordo de parceria -  e foi moderado por Nemésio Rodríguez, vice-presidente da APM e actual presidente da FAPE – Federación de las Asociaciones de Periodistas de España.

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site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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