Quinta-feira, 19 de Abril, 2018
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A personalização literária tem prejudicado o rigor do jornalismo

O subjectivismo agudo que carcateriza a nossa época contaminou o jornalismo e desviou-o da sua missão, levou-o por caminhos de personalização literária mais do que de relato histórico rigoroso. E, precisamente, nunca como agora foi o profissionalismo tão necessário ao seu exercício. “Precisamos de alguém que nos explique como chegámos a este ponto e de que modo podemos solucioná-lo ou, pelo menos, atenuá-lo.” É esta a reflexão sobre “Velho e novo jornalismo”, assinada por José María Carrascal na revista espanhola Periodistas.

O autor remonta o início daquilo a que chama o “novo jornalismo” aos anos 60 do séc. XX e às “reportagens trepidantes” de Tom Wolfe, “com uma mistura de estilo fracturante e crítica social, a meio caminho entre a informação fria e a opinião subjacente, entre a crónica e a novela”.  

Mais tarde, com o livro Hooking Up, “a sua tese é que, perante obras que rompem com todas as normas estéticas e artísticas anteriores, até ao ponto de poder falar-se de ‘arte feia’, o público não sabe o que dizer nem opinar e os críticos apresentam-se, encantados, para as decifrar. Com o que se convertem em co-autores de quadros e esculturas, patamar a que nunca tinham chegado, a que se agarram com furor, pelo prestígio e pelo dinheiro que traz consigo”. 

Algo semelhante aconteceu com o jornalismo, segundo José María Carrascal. “Os famosos cinco pilares da reportagem clássica, who, what, where, when, why, [mais o how], que devia respeitar toda a informação que se prezasse de o ser, foram-se diluindo perante o avanço da técnica e do personalismo.” (...) 

“Com o que, ao jornalista, já só resta contá-lo à sua maneira, isto é, personalizá-lo, que é a característica mais destacada do novo jornalismo. Este ganha, assim, em brilho [ou resplendor], o que perde em informação, diluída em metáforas, paráfrases, citações e, sobretudo, subjectivismo, o mais oposto ao que vinha sendo o jornalismo desde o seu surgimento, como ramo menor da História  -  que é, segundo o seu mais excelso teórico, Ranke, ‘contar as coisas tal como aconteceram’, o jornalismo vindo a ser uma história menor: a de um só dia.” 

“O que não lhe retira importância, já que a História com maiúscula terá que ser escrita sobre a base das pequenas histórias diárias. Algo cada vez mais difícil se a sua tendência literária  - ficção, como chamam os anglo-saxões à novelística -  continua e, no fim, teremos relatos mais de ficção do que de autêntica história, pela altíssima percentagem pessoal que contêm.” (...) 

“Que atravessamos uma época de subjectivismo agudo ninguém pode duvidar, basta ver as selfies que se fazem a toda a hora e em todo o lugar, até ao ponto em que a nossa era pode ser conhecida no futuro como a do novo Narciso vendo-se a si mesmo no telemóvel.” (...) 

“E se tivermos em conta a formidável explosão de acontecimentos nos últimos tempos, a sua enorme complexidade, os muito diversos factores que neles convergem e os contraditórios interesses que os rodeiam, a maioria das vezes para os obscurecer mais do que para os aclarar, para tirar deles o maior proveito possível, damos conta de que nunca como agora o profissionalismo é necessário ao jornalismo.” (...) 

“Perante novas situações, intrincadas, como as da globalização, do terrorismo islâmico, da violência machista, da corrupção ou de uma democracia cada vez mais instável, precisamos de alguém que nos explique como chegámos a este ponto e de que modo podemos solucioná-lo, ou, pelo menos, atenuá-lo. Algo que só pode fazer um profissional da Informação, alguém com conhecimento suficiente de história, sociologia, economia e algumas outras disciplinas, para chegar ao miolo do assunto e tirar uma conclusão. Depois de, naturalmente, saber explicá-lo de maneira clara, simples, acessível a todos.” (...) 

A concluir, e reflectindo sobre a relação do jornalismo com o Poder, José María Carrascal busca uma imagem provocante, a do “bobo da corte”, que contava ao soberano “os erros cometidos, o sofrimento do povo e o desprestígio que tinha fora de fronteiras”. 

O que podia acabar mal para ele mas, pelo menos, o monarca estava ao corrente do que realmente acontecia  - daí que fosse, em princípio, protegido. 

“Na democracia acontece o mesmo, mas com outros protagonistas. O soberano hoje é o povo, embora a sua soberania esteja restrita a eleger, de tantos em tantos anos, representantes que se encarregam dos assuntos públicos. Os cortesãos são os políticos, que lhe contam como fazem tão bem, se estão no governo, ou que mal vão as coisas, se estão na oposição. E aí surge o novo bobo, os jornalistas, que contam, ou devem contar, ao povo soberano, o que realmente está a acontecer  -  se os deixarem e se forem capazes disso.” (...)

 

O texto que citamos vem na edição nº 43 da revista Periodistas, da FAPE – Federación de Asociaciones de Periodistas de España

Connosco
Quando os repórteres são os heróis que nos fazem falta Ver galeria

Parece excessivo declarar que os repórteres são os heróis do nosso tempo, como vem no título do texto que aqui citamos. Quem o diz não é um jornalista, mas um historiador. E explica porquê, e de que repórteres está a falar. Trata-se daqueles que assumem riscos e perdem a vida para investigar a verdade do que sucede à nossa volta  - e esse tipo de reportagem de investigação “é um pedacinho microscópico dessa coisa a que chamamos media”.

Os repórteres que “correm riscos pela verdade” fazem-no por todos nós, incluindo pelos soldados que vamos ou não enviar para a frente de batalha. O único modo de avaliarmos as guerras em que nos envolvemos é tendo repórteres “com a coragem e a capacidade de irem lá fazer reportagem”. Esta reflexão é do historiador norte-americano Timothy Snyder, que citamos da Global Investigative Journalism Network.

O jornalismo com mais “clics” pode não ser o mais lido Ver galeria

Pode acontecer que o melhor jornalismo nem seja o que é mais lido. Não gostamos de ouvir esta notícia, mas foi disto e de outras coisas parecidas que se falou no XXI Laboratorio de Periodismo da APM, o debate periódico sobre temas de actualidade que, na sua edição de Abril de 2017, teve por tema “O que lêem e o que não lêem os leitores”. O encontro decorreu na sede da Asociación de la Prensa de Madrid  - com a qual mantemos um acordo de parceria -  e foi moderado por Nemésio Rodríguez, vice-presidente da APM e actual presidente da FAPE – Federación de las Asociaciones de Periodistas de España.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
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No passado dia 14 de março, Maria Joana Raposo Marques Vidal foi falar ao Grémio Literário no ciclo que ali decorre sob o tema: "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. Na sua longa  intervenção  falou  do Ministério Público e de Justiça e ajudou os leigos na matéria - como...
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Social Media Week New York 2018
09:00 @ Sheraton Times Square, Nova Iorque
24
Abr
Social Media Strategies Summit Chicago 2018
22:00 @ Union League Club, Chicago
25
Abr
8º Congresso Nacional de "Periodismo Autónomo y Freelance: ‘La revolución audiovisual’"
09:00 @ Sala de Conferências da Faculdade de Ciências de Informação, Universidade de Madrid
28
Abr
Google Analytics para Jornalistas
09:00 @ Cenjor, Lisboa