Terça-feira, 11 de Dezembro, 2018
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A personalização literária tem prejudicado o rigor do jornalismo

O subjectivismo agudo que carcateriza a nossa época contaminou o jornalismo e desviou-o da sua missão, levou-o por caminhos de personalização literária mais do que de relato histórico rigoroso. E, precisamente, nunca como agora foi o profissionalismo tão necessário ao seu exercício. “Precisamos de alguém que nos explique como chegámos a este ponto e de que modo podemos solucioná-lo ou, pelo menos, atenuá-lo.” É esta a reflexão sobre “Velho e novo jornalismo”, assinada por José María Carrascal na revista espanhola Periodistas.

O autor remonta o início daquilo a que chama o “novo jornalismo” aos anos 60 do séc. XX e às “reportagens trepidantes” de Tom Wolfe, “com uma mistura de estilo fracturante e crítica social, a meio caminho entre a informação fria e a opinião subjacente, entre a crónica e a novela”.  

Mais tarde, com o livro Hooking Up, “a sua tese é que, perante obras que rompem com todas as normas estéticas e artísticas anteriores, até ao ponto de poder falar-se de ‘arte feia’, o público não sabe o que dizer nem opinar e os críticos apresentam-se, encantados, para as decifrar. Com o que se convertem em co-autores de quadros e esculturas, patamar a que nunca tinham chegado, a que se agarram com furor, pelo prestígio e pelo dinheiro que traz consigo”. 

Algo semelhante aconteceu com o jornalismo, segundo José María Carrascal. “Os famosos cinco pilares da reportagem clássica, who, what, where, when, why, [mais o how], que devia respeitar toda a informação que se prezasse de o ser, foram-se diluindo perante o avanço da técnica e do personalismo.” (...) 

“Com o que, ao jornalista, já só resta contá-lo à sua maneira, isto é, personalizá-lo, que é a característica mais destacada do novo jornalismo. Este ganha, assim, em brilho [ou resplendor], o que perde em informação, diluída em metáforas, paráfrases, citações e, sobretudo, subjectivismo, o mais oposto ao que vinha sendo o jornalismo desde o seu surgimento, como ramo menor da História  -  que é, segundo o seu mais excelso teórico, Ranke, ‘contar as coisas tal como aconteceram’, o jornalismo vindo a ser uma história menor: a de um só dia.” 

“O que não lhe retira importância, já que a História com maiúscula terá que ser escrita sobre a base das pequenas histórias diárias. Algo cada vez mais difícil se a sua tendência literária  - ficção, como chamam os anglo-saxões à novelística -  continua e, no fim, teremos relatos mais de ficção do que de autêntica história, pela altíssima percentagem pessoal que contêm.” (...) 

“Que atravessamos uma época de subjectivismo agudo ninguém pode duvidar, basta ver as selfies que se fazem a toda a hora e em todo o lugar, até ao ponto em que a nossa era pode ser conhecida no futuro como a do novo Narciso vendo-se a si mesmo no telemóvel.” (...) 

“E se tivermos em conta a formidável explosão de acontecimentos nos últimos tempos, a sua enorme complexidade, os muito diversos factores que neles convergem e os contraditórios interesses que os rodeiam, a maioria das vezes para os obscurecer mais do que para os aclarar, para tirar deles o maior proveito possível, damos conta de que nunca como agora o profissionalismo é necessário ao jornalismo.” (...) 

“Perante novas situações, intrincadas, como as da globalização, do terrorismo islâmico, da violência machista, da corrupção ou de uma democracia cada vez mais instável, precisamos de alguém que nos explique como chegámos a este ponto e de que modo podemos solucioná-lo, ou, pelo menos, atenuá-lo. Algo que só pode fazer um profissional da Informação, alguém com conhecimento suficiente de história, sociologia, economia e algumas outras disciplinas, para chegar ao miolo do assunto e tirar uma conclusão. Depois de, naturalmente, saber explicá-lo de maneira clara, simples, acessível a todos.” (...) 

A concluir, e reflectindo sobre a relação do jornalismo com o Poder, José María Carrascal busca uma imagem provocante, a do “bobo da corte”, que contava ao soberano “os erros cometidos, o sofrimento do povo e o desprestígio que tinha fora de fronteiras”. 

O que podia acabar mal para ele mas, pelo menos, o monarca estava ao corrente do que realmente acontecia  - daí que fosse, em princípio, protegido. 

“Na democracia acontece o mesmo, mas com outros protagonistas. O soberano hoje é o povo, embora a sua soberania esteja restrita a eleger, de tantos em tantos anos, representantes que se encarregam dos assuntos públicos. Os cortesãos são os políticos, que lhe contam como fazem tão bem, se estão no governo, ou que mal vão as coisas, se estão na oposição. E aí surge o novo bobo, os jornalistas, que contam, ou devem contar, ao povo soberano, o que realmente está a acontecer  -  se os deixarem e se forem capazes disso.” (...)

 

O texto que citamos vem na edição nº 43 da revista Periodistas, da FAPE – Federación de Asociaciones de Periodistas de España

Connosco
Estratégia mediática da China usa "barcos emprestados" para "autenticar" a propaganda... Ver galeria

Durante décadas, a estratégia de imagem da China foi defensiva, de resposta, e apontada sobretudo à sua audiência interna. O efeito mais visível era o desaparecimento de conteúdos: revistas estrangeiras com páginas arrancadas, ou as emissões da BBC que ficavam escuras quando tratavam de temas sensíveis, como o Tibete, Taiwan ou o massacre de Tienanmen.

Mas nos últimos anos a China desenvolveu uma estratégia mais sofisticada e assertiva, apontada às audiências internacionais. E Pequim está a fazê-lo com grande investimento financeiro  - que inclui cobertura jornalística patrocinada.

Um dos exemplos mais ostensivos é agora a contratação de jornalistas ocidentais para a China Global Television Network  - o ramo internacional da Televisão Central da China -  com estúdios em Chiswick, Londres. O objectivo deste esforço é, nas palavras do Presidente Xi Jinping, “contar bem a história da China”. E não faltam candidatos. A informação consta de uma reportagem extensa, em The Guardian.

Jornais perdem publicidade e a democracia qualidade Ver galeria

A receita proveniente da publicidade nos diários impressos está a desaparecer num movimento que parece inexorável. Acontece em todos os mercados, e nomeadamente no dos EUA, que pode servir de aviso aos outros: neste caso, a receita da publicidade de todos os diários foi de 13.330 milhões de dólares em 2016, de 9.760 neste ano de 2018, quase a acabar, e será de apenas 4.400 milhões em 2022, segundo a mais recente projecção da eMarketer.

Na Espanha, e segundo os dados da InfoAdex sobre os nove primeiros meses de 2018, regista-se uma queda generalizada de 6,1% no investimento na Imprensa escrita, depois de onze anos de descida sem fim. O balanço é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, que conclui: “A desinformação instala-se à vontade e é urgente fazer qualquer coisa. Não abandonemos os editores, ou a qualidade da democracia irá pelo mesmo ralo por onde se escoa a conta de resultados dos meios de comunicação.”

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...