Quarta-feira, 18 de Julho, 2018
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A personalização literária tem prejudicado o rigor do jornalismo

O subjectivismo agudo que carcateriza a nossa época contaminou o jornalismo e desviou-o da sua missão, levou-o por caminhos de personalização literária mais do que de relato histórico rigoroso. E, precisamente, nunca como agora foi o profissionalismo tão necessário ao seu exercício. “Precisamos de alguém que nos explique como chegámos a este ponto e de que modo podemos solucioná-lo ou, pelo menos, atenuá-lo.” É esta a reflexão sobre “Velho e novo jornalismo”, assinada por José María Carrascal na revista espanhola Periodistas.

O autor remonta o início daquilo a que chama o “novo jornalismo” aos anos 60 do séc. XX e às “reportagens trepidantes” de Tom Wolfe, “com uma mistura de estilo fracturante e crítica social, a meio caminho entre a informação fria e a opinião subjacente, entre a crónica e a novela”.  

Mais tarde, com o livro Hooking Up, “a sua tese é que, perante obras que rompem com todas as normas estéticas e artísticas anteriores, até ao ponto de poder falar-se de ‘arte feia’, o público não sabe o que dizer nem opinar e os críticos apresentam-se, encantados, para as decifrar. Com o que se convertem em co-autores de quadros e esculturas, patamar a que nunca tinham chegado, a que se agarram com furor, pelo prestígio e pelo dinheiro que traz consigo”. 

Algo semelhante aconteceu com o jornalismo, segundo José María Carrascal. “Os famosos cinco pilares da reportagem clássica, who, what, where, when, why, [mais o how], que devia respeitar toda a informação que se prezasse de o ser, foram-se diluindo perante o avanço da técnica e do personalismo.” (...) 

“Com o que, ao jornalista, já só resta contá-lo à sua maneira, isto é, personalizá-lo, que é a característica mais destacada do novo jornalismo. Este ganha, assim, em brilho [ou resplendor], o que perde em informação, diluída em metáforas, paráfrases, citações e, sobretudo, subjectivismo, o mais oposto ao que vinha sendo o jornalismo desde o seu surgimento, como ramo menor da História  -  que é, segundo o seu mais excelso teórico, Ranke, ‘contar as coisas tal como aconteceram’, o jornalismo vindo a ser uma história menor: a de um só dia.” 

“O que não lhe retira importância, já que a História com maiúscula terá que ser escrita sobre a base das pequenas histórias diárias. Algo cada vez mais difícil se a sua tendência literária  - ficção, como chamam os anglo-saxões à novelística -  continua e, no fim, teremos relatos mais de ficção do que de autêntica história, pela altíssima percentagem pessoal que contêm.” (...) 

“Que atravessamos uma época de subjectivismo agudo ninguém pode duvidar, basta ver as selfies que se fazem a toda a hora e em todo o lugar, até ao ponto em que a nossa era pode ser conhecida no futuro como a do novo Narciso vendo-se a si mesmo no telemóvel.” (...) 

“E se tivermos em conta a formidável explosão de acontecimentos nos últimos tempos, a sua enorme complexidade, os muito diversos factores que neles convergem e os contraditórios interesses que os rodeiam, a maioria das vezes para os obscurecer mais do que para os aclarar, para tirar deles o maior proveito possível, damos conta de que nunca como agora o profissionalismo é necessário ao jornalismo.” (...) 

“Perante novas situações, intrincadas, como as da globalização, do terrorismo islâmico, da violência machista, da corrupção ou de uma democracia cada vez mais instável, precisamos de alguém que nos explique como chegámos a este ponto e de que modo podemos solucioná-lo, ou, pelo menos, atenuá-lo. Algo que só pode fazer um profissional da Informação, alguém com conhecimento suficiente de história, sociologia, economia e algumas outras disciplinas, para chegar ao miolo do assunto e tirar uma conclusão. Depois de, naturalmente, saber explicá-lo de maneira clara, simples, acessível a todos.” (...) 

A concluir, e reflectindo sobre a relação do jornalismo com o Poder, José María Carrascal busca uma imagem provocante, a do “bobo da corte”, que contava ao soberano “os erros cometidos, o sofrimento do povo e o desprestígio que tinha fora de fronteiras”. 

O que podia acabar mal para ele mas, pelo menos, o monarca estava ao corrente do que realmente acontecia  - daí que fosse, em princípio, protegido. 

“Na democracia acontece o mesmo, mas com outros protagonistas. O soberano hoje é o povo, embora a sua soberania esteja restrita a eleger, de tantos em tantos anos, representantes que se encarregam dos assuntos públicos. Os cortesãos são os políticos, que lhe contam como fazem tão bem, se estão no governo, ou que mal vão as coisas, se estão na oposição. E aí surge o novo bobo, os jornalistas, que contam, ou devem contar, ao povo soberano, o que realmente está a acontecer  -  se os deixarem e se forem capazes disso.” (...)

 

O texto que citamos vem na edição nº 43 da revista Periodistas, da FAPE – Federación de Asociaciones de Periodistas de España

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