Quinta-feira, 21 de Setembro, 2017
Fórum

A personalização literária tem prejudicado o rigor do jornalismo

O subjectivismo agudo que carcateriza a nossa época contaminou o jornalismo e desviou-o da sua missão, levou-o por caminhos de personalização literária mais do que de relato histórico rigoroso. E, precisamente, nunca como agora foi o profissionalismo tão necessário ao seu exercício. “Precisamos de alguém que nos explique como chegámos a este ponto e de que modo podemos solucioná-lo ou, pelo menos, atenuá-lo.” É esta a reflexão sobre “Velho e novo jornalismo”, assinada por José María Carrascal na revista espanhola Periodistas.

O autor remonta o início daquilo a que chama o “novo jornalismo” aos anos 60 do séc. XX e às “reportagens trepidantes” de Tom Wolfe, “com uma mistura de estilo fracturante e crítica social, a meio caminho entre a informação fria e a opinião subjacente, entre a crónica e a novela”.  

Mais tarde, com o livro Hooking Up, “a sua tese é que, perante obras que rompem com todas as normas estéticas e artísticas anteriores, até ao ponto de poder falar-se de ‘arte feia’, o público não sabe o que dizer nem opinar e os críticos apresentam-se, encantados, para as decifrar. Com o que se convertem em co-autores de quadros e esculturas, patamar a que nunca tinham chegado, a que se agarram com furor, pelo prestígio e pelo dinheiro que traz consigo”. 

Algo semelhante aconteceu com o jornalismo, segundo José María Carrascal. “Os famosos cinco pilares da reportagem clássica, who, what, where, when, why, [mais o how], que devia respeitar toda a informação que se prezasse de o ser, foram-se diluindo perante o avanço da técnica e do personalismo.” (...) 

“Com o que, ao jornalista, já só resta contá-lo à sua maneira, isto é, personalizá-lo, que é a característica mais destacada do novo jornalismo. Este ganha, assim, em brilho [ou resplendor], o que perde em informação, diluída em metáforas, paráfrases, citações e, sobretudo, subjectivismo, o mais oposto ao que vinha sendo o jornalismo desde o seu surgimento, como ramo menor da História  -  que é, segundo o seu mais excelso teórico, Ranke, ‘contar as coisas tal como aconteceram’, o jornalismo vindo a ser uma história menor: a de um só dia.” 

“O que não lhe retira importância, já que a História com maiúscula terá que ser escrita sobre a base das pequenas histórias diárias. Algo cada vez mais difícil se a sua tendência literária  - ficção, como chamam os anglo-saxões à novelística -  continua e, no fim, teremos relatos mais de ficção do que de autêntica história, pela altíssima percentagem pessoal que contêm.” (...) 

“Que atravessamos uma época de subjectivismo agudo ninguém pode duvidar, basta ver as selfies que se fazem a toda a hora e em todo o lugar, até ao ponto em que a nossa era pode ser conhecida no futuro como a do novo Narciso vendo-se a si mesmo no telemóvel.” (...) 

“E se tivermos em conta a formidável explosão de acontecimentos nos últimos tempos, a sua enorme complexidade, os muito diversos factores que neles convergem e os contraditórios interesses que os rodeiam, a maioria das vezes para os obscurecer mais do que para os aclarar, para tirar deles o maior proveito possível, damos conta de que nunca como agora o profissionalismo é necessário ao jornalismo.” (...) 

“Perante novas situações, intrincadas, como as da globalização, do terrorismo islâmico, da violência machista, da corrupção ou de uma democracia cada vez mais instável, precisamos de alguém que nos explique como chegámos a este ponto e de que modo podemos solucioná-lo, ou, pelo menos, atenuá-lo. Algo que só pode fazer um profissional da Informação, alguém com conhecimento suficiente de história, sociologia, economia e algumas outras disciplinas, para chegar ao miolo do assunto e tirar uma conclusão. Depois de, naturalmente, saber explicá-lo de maneira clara, simples, acessível a todos.” (...) 

A concluir, e reflectindo sobre a relação do jornalismo com o Poder, José María Carrascal busca uma imagem provocante, a do “bobo da corte”, que contava ao soberano “os erros cometidos, o sofrimento do povo e o desprestígio que tinha fora de fronteiras”. 

O que podia acabar mal para ele mas, pelo menos, o monarca estava ao corrente do que realmente acontecia  - daí que fosse, em princípio, protegido. 

“Na democracia acontece o mesmo, mas com outros protagonistas. O soberano hoje é o povo, embora a sua soberania esteja restrita a eleger, de tantos em tantos anos, representantes que se encarregam dos assuntos públicos. Os cortesãos são os políticos, que lhe contam como fazem tão bem, se estão no governo, ou que mal vão as coisas, se estão na oposição. E aí surge o novo bobo, os jornalistas, que contam, ou devem contar, ao povo soberano, o que realmente está a acontecer  -  se os deixarem e se forem capazes disso.” (...)

 

O texto que citamos vem na edição nº 43 da revista Periodistas, da FAPE – Federación de Asociaciones de Periodistas de España

Connosco
A prisão solitária do “egosistema digital” como doença contagiosa do nosso tempo Ver galeria

Há uma geração zombie deambulando pelas ruas sem levantar os olhos dos seus ecrãs, teclando no Whatsapp ou consultando o Facebook. Até os restaurantes se tornaram mais silenciosos, porque chamamos o empregado tocando num botão e conversamos à distância pelo smartphone sem prestar atenção aos vizinhos de mesa que estão a fazer exactamente o mesmo. Não é uma mudança tecnológica, é uma revolução sociológica. E o vírus é contagioso, impregnou o espaço do cosmos. Todos fomos contagiados pela doença do nosso tempo, o egosistema digital.

O jornalismo em “tempos de cólera” e a interacção com o público Ver galeria

Chegámos a um novo “patamar de interacção entre jornais e público, potencializado pela Internet e pelas ferramentas de diálogo”, e é nesse espaço  que “um tipo específico de emoção e de sensação” é agora exposto com mais frequência: “há casos recentes e emblemáticos que ilustram tempos de cólera, intolerância e polarização social por todo o mundo”. A questão de fundo é a de saber que papel de controlo, ou de mediação, pode ainda o jornalismo exercer. É este o tema do “comentário da semana” de ObjEthos, Observatório da Ética Jornalística do Brasil.

O Clube

Está formado o Júri que vai apreciar os trabalhos concorrentes ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído pelo Clube Português de Imprensa (CPI) e pelo Jornal Tribuna de Macau (JTM),  com o apoio da Fundação Jorge Álvares.

O Júri será presidido por Dinis de Abreu, em representação do CPI, e integrado pelos jornalistas José Rocha Diniz, fundador e administrador do Jornal Tribuna de Macau, José Carlos de Vasconcelos, director do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, Carlos Magno, pela Fundação Jorge Álvares e por José António Silva Pires, também do CPI.


ver mais >
Opinião
Na semana passada aconteceu o que há muito se esperava – um dos maiores grupos de comunicação anunciou que vai encerrar ou vender a maior parte dos seus títulos de imprensa. A braços com um endividamente gigantesco, acaba por reconhecer que as receitas que obtém, quando existem, são insuficientes para inverter a situação criada ao longo de anos. O cenário actual complica tudo: é devastador folhear um jornal...
Falhada a emissão obrigacionista, sabia-se que algo teria de acontecer na Impresa, em função do elevado nível do seu endividamento. A entrevista de 12 páginas publicada na revista do Expresso com António Costa, sem nenhuma novidade que justificasse tamanho relevo, acompanhada de uma invulgar chamada de capa  a 5 colunas (além da própria capa integral da revista)  já deixava perceber um critério editorial pouco...
Peter Barbey, actual proprietário (desde 2015) do The Village Voice, anunciou em 22 de Agosto o fim da edição impressa do semanário nova-iorquino, após 62 anos de publicação, continuando a ser produzida a versão digital. A edição impressa – gratuita desde há 21 anos -  tinha actualmente uma tiragem de 120 mil exemplares, enquanto a versão digital, segundo a comScore (empresa de análise de...
Balsemão e o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
O grupo Impresa passa por algumas dificuldades, constando que irá vender, ou fechar, certas revistas. Mas essas dificuldades não devem levar-nos a esquecer que Francisco P. Balsemão é um destacado empresário da comunicação social. Chegou a primeiro-ministro, mas a sua paixão era e é o jornalismo. Por isso, enquanto chefe do grupo Impresa, soube compreender e até promover a independência editorial dos seus...
O Rumo da Europa
Luís Queirós
Na minha opinião, as declarações da Sra Merkel na Baviera - proferidas no rescaldo da cimeira do G7, em Taormina- podem ser o sinal de uma mudança de rumo para a Europa. No essencial, a Sra. Merkel sentenciou que "os europeus têm de cuidar de si próprios e resolver os seus problemas, e que a Europa tem de continuar a manter boas relações com  os Estados Unidos e com ao Reino Unido, mas também com outros países,...
Agenda
25
Set
4º Workshop de Pós-Graduação em Ciência da Informação
09:00 @ Faculdade de Letras da Universidade do Porto
25
Set
Atelier de Jornalismo Televisivo
09:00 @ Cenjor, Lisboa
02
Out
09
Out