Sábado, 20 de Outubro, 2018
Fórum

A personalização literária tem prejudicado o rigor do jornalismo

O subjectivismo agudo que carcateriza a nossa época contaminou o jornalismo e desviou-o da sua missão, levou-o por caminhos de personalização literária mais do que de relato histórico rigoroso. E, precisamente, nunca como agora foi o profissionalismo tão necessário ao seu exercício. “Precisamos de alguém que nos explique como chegámos a este ponto e de que modo podemos solucioná-lo ou, pelo menos, atenuá-lo.” É esta a reflexão sobre “Velho e novo jornalismo”, assinada por José María Carrascal na revista espanhola Periodistas.

O autor remonta o início daquilo a que chama o “novo jornalismo” aos anos 60 do séc. XX e às “reportagens trepidantes” de Tom Wolfe, “com uma mistura de estilo fracturante e crítica social, a meio caminho entre a informação fria e a opinião subjacente, entre a crónica e a novela”.  

Mais tarde, com o livro Hooking Up, “a sua tese é que, perante obras que rompem com todas as normas estéticas e artísticas anteriores, até ao ponto de poder falar-se de ‘arte feia’, o público não sabe o que dizer nem opinar e os críticos apresentam-se, encantados, para as decifrar. Com o que se convertem em co-autores de quadros e esculturas, patamar a que nunca tinham chegado, a que se agarram com furor, pelo prestígio e pelo dinheiro que traz consigo”. 

Algo semelhante aconteceu com o jornalismo, segundo José María Carrascal. “Os famosos cinco pilares da reportagem clássica, who, what, where, when, why, [mais o how], que devia respeitar toda a informação que se prezasse de o ser, foram-se diluindo perante o avanço da técnica e do personalismo.” (...) 

“Com o que, ao jornalista, já só resta contá-lo à sua maneira, isto é, personalizá-lo, que é a característica mais destacada do novo jornalismo. Este ganha, assim, em brilho [ou resplendor], o que perde em informação, diluída em metáforas, paráfrases, citações e, sobretudo, subjectivismo, o mais oposto ao que vinha sendo o jornalismo desde o seu surgimento, como ramo menor da História  -  que é, segundo o seu mais excelso teórico, Ranke, ‘contar as coisas tal como aconteceram’, o jornalismo vindo a ser uma história menor: a de um só dia.” 

“O que não lhe retira importância, já que a História com maiúscula terá que ser escrita sobre a base das pequenas histórias diárias. Algo cada vez mais difícil se a sua tendência literária  - ficção, como chamam os anglo-saxões à novelística -  continua e, no fim, teremos relatos mais de ficção do que de autêntica história, pela altíssima percentagem pessoal que contêm.” (...) 

“Que atravessamos uma época de subjectivismo agudo ninguém pode duvidar, basta ver as selfies que se fazem a toda a hora e em todo o lugar, até ao ponto em que a nossa era pode ser conhecida no futuro como a do novo Narciso vendo-se a si mesmo no telemóvel.” (...) 

“E se tivermos em conta a formidável explosão de acontecimentos nos últimos tempos, a sua enorme complexidade, os muito diversos factores que neles convergem e os contraditórios interesses que os rodeiam, a maioria das vezes para os obscurecer mais do que para os aclarar, para tirar deles o maior proveito possível, damos conta de que nunca como agora o profissionalismo é necessário ao jornalismo.” (...) 

“Perante novas situações, intrincadas, como as da globalização, do terrorismo islâmico, da violência machista, da corrupção ou de uma democracia cada vez mais instável, precisamos de alguém que nos explique como chegámos a este ponto e de que modo podemos solucioná-lo, ou, pelo menos, atenuá-lo. Algo que só pode fazer um profissional da Informação, alguém com conhecimento suficiente de história, sociologia, economia e algumas outras disciplinas, para chegar ao miolo do assunto e tirar uma conclusão. Depois de, naturalmente, saber explicá-lo de maneira clara, simples, acessível a todos.” (...) 

A concluir, e reflectindo sobre a relação do jornalismo com o Poder, José María Carrascal busca uma imagem provocante, a do “bobo da corte”, que contava ao soberano “os erros cometidos, o sofrimento do povo e o desprestígio que tinha fora de fronteiras”. 

O que podia acabar mal para ele mas, pelo menos, o monarca estava ao corrente do que realmente acontecia  - daí que fosse, em princípio, protegido. 

“Na democracia acontece o mesmo, mas com outros protagonistas. O soberano hoje é o povo, embora a sua soberania esteja restrita a eleger, de tantos em tantos anos, representantes que se encarregam dos assuntos públicos. Os cortesãos são os políticos, que lhe contam como fazem tão bem, se estão no governo, ou que mal vão as coisas, se estão na oposição. E aí surge o novo bobo, os jornalistas, que contam, ou devem contar, ao povo soberano, o que realmente está a acontecer  -  se os deixarem e se forem capazes disso.” (...)

 

O texto que citamos vem na edição nº 43 da revista Periodistas, da FAPE – Federación de Asociaciones de Periodistas de España

Connosco
Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação Ver galeria

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O Clube

Terminou o prazo de recepção dos trabalhos concorrentes ao  Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído há um ano por iniciativa do jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, com o patrocínio da Fundação Jorge Álvares e o apoio do JL – Jornal de Artes, Letras e Ideias.

Nesta segunda edição, o Prémio foi desdobrado em duas modalidades:  uma  aberta a textos originais, que passou a designar-se o Prémio Ensaio da Lusofonia; e outra que manteve  o título de Prémio de Jornalismo da Lusofonia, destinado a textos já publicados, em suporte papel ou digital.


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Opinião
Volta e meia defrontamo-nos com a expressão “cord-cutting”, em referência à alteração de comportamentos nos espectadores de televisão. Que quer isto dizer? Muito simplesmente a expressão indica a decisão de deixar de ter um serviço de televisão paga por cabo, para passar a ver TV somente através de streaming – seja na Netflix, na Amazon ou numa das outras plataformas que começam a...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
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