Sexta-feira, 24 de Novembro, 2017
Media

Carta Aberta da "Al-Jazeera" em defesa do seu jornalismo

A estação de TV “Al-Jazeera”, cujo encerramento é exigido por uma coligação de Estados árabes, responde a esta ameaça numa carta aberta em que conta a sua história de pouco mais de vinte anos, refuta as acusações de que tem sido alvo e afirma o seu empenhamento em continuar a fazer um jornalismo “rigoroso, equilibrado e imparcial”. O seu propósito, segundo se afirma no texto, é o de respeitar o direito das pessoas a serem informadas, como a serem escutadas, dando “voz aos que não têm voz”.

Quando a Al-Jazeera em língua árabe nasceu, em 1996, “a maior parte dos media na região eram estatais e frequentemente porta-vozes incontestados dos diversos dirigentes e governos”.

A carta aberta, que aqui citamos, afirma que a nova estação apresentou-se como “uma voz verdadeiramente independente, com a missão de escutar e relatar as histórias humanas que eram de outro modo ignoradas; de cobrir os acontecimentos com equilíbrio e integridade; e de chamar os poderes à responsabilidade”.

Dez anos depois, em 2006, juntou-se a ela o serviço em língua inglesa, com a mesma missão. Segundo o texto citado, a Al-Jazeera em língua árabe tornou-se o canal mais visto em todo o mundo árabe na sua história, tendo hoje mais espectadores “do que o total combinado dos nossos maiores concorrentes”. 

Por seu lado, o serviço em língua inglesa “é visto em mais de 130 países por todo o mundo, por dezenas de milhões de pessoas que respeitam o nosso jornalismo”. A estação reivindica o número de mais de 3.000 trabalhadores, “que são dos mais talentosos e diversos no mundo”, e delegações em mais de 70 lugares, incluindo a sede na cidade de Doha e centros de emissão em Londres e Washington, “com jornalistas cuja coragem e ética de trabalho são inabaláveis”. 

Sobre as críticas que lhe têm sido feitas, a carta aberta responde:

“Fomos acusados de parcialidade, de provocarmos a Primavera Árabe, de termos um programa e de favorecermos um lado contra o outro. Rejeitamos estas alegações, e as nossas emissões são testemunho da nossa integridade.” (...) 

“Fomos acusados de tendenciosismo, porque a Al-Jazeera em árabe foi o primeiro canal árabe a convidar políticos e comentadores de Israel. Mas o que fizémos foi garantir que escutávamos e interpelávamos todas as vozes relevantes na busca de um bom jornalismo.” 

“Fomos acusados de extremismo quando entrevistámos membros dos Taliban, mas a verdade é que estávamos a pôr as perguntas difíceis e a garantir que interpelávamos todos os lados da história.” (...) 

“Os membros da Al-Jazeera foram ameaçados, presos e mortos em consequência do cumprimento do seu dever como jornalistas. Os nossos colegas no Iraque, na Síria e noutros locais pagaram o preço derradeiro enquanto faziam o seu trabalho.” (...) 

“Também fizémos reportagem sobre temas críticos e talvez embaraçosos no Qatar, quando eles surgiram, incluindo o sofrimento dos trabalhadores nos estaleiros de construção e acusações de violação de direitos.” (...) 

A carta aberta termina afirmando que a Al-Jazeera continuará “a fazer o seu trabalho com integridade” e a ser “corajosa na busca da verdade”. 

 

O texto que citámos, na íntegra, na Al-Jazeera

Connosco
Jornalistas são mais operários da notícia do que estrelas do "showbiz"... Ver galeria

O jornalismo “é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta; jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz”. E reflexão é de Ronaldo Leges, que se apresenta como praticante do “jornalismo de bairro” e dirige uma crítica aos profissionais que passam essa fronteira para o lado do espectáculo, especialmente na televisão: “Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.” No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A morte anunciada da televisão foi manifestamente exagerada... Ver galeria

Já se fizeram muitos “diagnósticos” (e alguns “prognósticos”) à televisão. Um dos mais recentes é que estava moribunda. Mas este seu fim anunciado é ele próprio “um mito gasto”. O êxito actual das novas séries é um bom exemplo: seria paradoxal anunciar a morte da televisão “no preciso momento em que as suas produções conquistam uma legitimidade cultural que ela procurou durante meio século”. Vistas as coisas em perspectiva histórica, o “discurso de denúncia” contra a televisão já foi usado “contra o romance em folhetins, a BD, o cinema e a leitura (que, como nota o historiador Roger Chartier, perde o seu estatuto sedicioso sob a ameaça da televisão, para se tornar no final do séc. XX o refúgio da cultura)”. Uma reflexão que continua, a propósito do próximo lançamento, em Paris, do livro Sociologie de la télévision.

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site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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