Sábado, 20 de Outubro, 2018
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Ser mulher jornalista em países muçulmanos segundo uma iraniana

“Ser uma jornalista tem riscos, em sociedades islâmicas patriarcais como o Irão.” Quando foi presa, em 2014, juntamente com o marido, a iraniana Yeganeh Rezaian conta que havia nessa altura cinco dúzias de jornalistas atrás das grades, sendo dez mulheres. Da sua própria experiência, como da que conheceu de outras, e não só no Irão, recolheu os testemunhos que apresenta no trabalho “Como as mulheres jornalistas são silenciadas num mundo de homens: a espada de dois gumes de fazer reportagem em países muçulmanos”.

A autora conta que esteve detida 72 noites, 69 das quais em cela solitária, antes de sair em liberdade condicional, sob fiança. Não foi acusada nem levada a julgamento, e hoje pensa que estava a ser usada como pressão sobre o marido, Jason Rezaian, que fora chefe da delegação do Washington Post em Teerão e passou 18 meses na prisão, enquanto o Irão e as potências mundiais, incluindo os EUA, negociavam o histórico acordo nuclear. 

“Eu compreendi que, embora as mulheres jornalistas sejam um número pequeno entre todos os que se encontram presos, nós enfrentamos ameaças e desafios distintos, muitos dos quais podem ficar escondidos do mundo por meio de tácticas de pressão como aquelas que eu tive de suportar. Também compreendi que fazem parte de um objectivo mais vasto, de silenciar as mulheres e desorganizar os movimentos de base no sentido da igualdade de género.” (...) 

“As mulheres jornalistas enfrentam determinadas ameaças, tais como initimidação sexual, agressão ou assédio sexual, com muito maior frequência do que os seus colegas masculinos, o que torna necessária e imperiosa uma formação em segurança específica para o seu género, segundo o Comité para a Protecção dos Jornalistas e outras organizações. Não há recursos nem programas de formação suficientes nem mesmo para os membros regulares das maiores empresas internacionais de media, no sentido de preparar as mulheres para o confronto com a violência e outras ameaças. Para as freelancers, não há praticamente nada.” (...) 

No seu texto, Yeganeh Rezaian descreve casos frequentes  - um deles passado consigo -  em que uma jornalista cuja reportagem começa a tornar-se incómoda se torna alvo de chantagem via e-mail, com ameaças de divulgação de escândalos sexuais inventados, mas eficazes para degradação da sua imagem pública. 

Os homens que têm de entrevistar podem assumir atitudes de vários tipos: há os mais conservadores, que chegam a evitar o contacto visual, ou se recusam mesmo a falar com uma repórter, porque “aceitam a visão extrema segundo a qual não é permitido encontrar-se com uma mulher que não seja membro da sua família”. Mas outros “tratam-na como uma sedutora, interagindo com ela como se a sua única utilidade como mulher fosse para gratificação sexual; nunca o dizem em voz alta, mas o movimento dos seus olhos diz tudo.” (...) 

Curiosamente, há um ponto em que ser mulher pode beneficiar o seu trabalho como jornalista. Khadija Ismayilova, uma jornalista do Azerbeijão, contou-lhe que isso sucede porque muitas pessoas “subestimam a inteligência da mulher”: 

“Pelo facto de sermos mulheres, os nossos entrevistados consideram-nos umas tontas e explicam tudo com mais detalhe. Isto torna as nossas entrevistas mais completas. É mais fácil para uma mulher conseguir um autêntico soundbite”  - disse.

 

 

O trabalho de Yeganeh Rezaian, inicialmente publicado no site do Shorenstein Center, é aqui parcialmente citado da Global Investigative Journalism Network. A imagem presente neste site do GIJN é de Shifa Gardi, jornalista de uma estação de televisão curda do Iraque, que foi morta em reportagem, pela explosão de uma bomba.

Connosco
Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação Ver galeria

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O Clube

Terminou o prazo de recepção dos trabalhos concorrentes ao  Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído há um ano por iniciativa do jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, com o patrocínio da Fundação Jorge Álvares e o apoio do JL – Jornal de Artes, Letras e Ideias.

Nesta segunda edição, o Prémio foi desdobrado em duas modalidades:  uma  aberta a textos originais, que passou a designar-se o Prémio Ensaio da Lusofonia; e outra que manteve  o título de Prémio de Jornalismo da Lusofonia, destinado a textos já publicados, em suporte papel ou digital.


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Opinião
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