Terça-feira, 21 de Novembro, 2017
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Ser mulher jornalista em países muçulmanos segundo uma iraniana

“Ser uma jornalista tem riscos, em sociedades islâmicas patriarcais como o Irão.” Quando foi presa, em 2014, juntamente com o marido, a iraniana Yeganeh Rezaian conta que havia nessa altura cinco dúzias de jornalistas atrás das grades, sendo dez mulheres. Da sua própria experiência, como da que conheceu de outras, e não só no Irão, recolheu os testemunhos que apresenta no trabalho “Como as mulheres jornalistas são silenciadas num mundo de homens: a espada de dois gumes de fazer reportagem em países muçulmanos”.

A autora conta que esteve detida 72 noites, 69 das quais em cela solitária, antes de sair em liberdade condicional, sob fiança. Não foi acusada nem levada a julgamento, e hoje pensa que estava a ser usada como pressão sobre o marido, Jason Rezaian, que fora chefe da delegação do Washington Post em Teerão e passou 18 meses na prisão, enquanto o Irão e as potências mundiais, incluindo os EUA, negociavam o histórico acordo nuclear. 

“Eu compreendi que, embora as mulheres jornalistas sejam um número pequeno entre todos os que se encontram presos, nós enfrentamos ameaças e desafios distintos, muitos dos quais podem ficar escondidos do mundo por meio de tácticas de pressão como aquelas que eu tive de suportar. Também compreendi que fazem parte de um objectivo mais vasto, de silenciar as mulheres e desorganizar os movimentos de base no sentido da igualdade de género.” (...) 

“As mulheres jornalistas enfrentam determinadas ameaças, tais como initimidação sexual, agressão ou assédio sexual, com muito maior frequência do que os seus colegas masculinos, o que torna necessária e imperiosa uma formação em segurança específica para o seu género, segundo o Comité para a Protecção dos Jornalistas e outras organizações. Não há recursos nem programas de formação suficientes nem mesmo para os membros regulares das maiores empresas internacionais de media, no sentido de preparar as mulheres para o confronto com a violência e outras ameaças. Para as freelancers, não há praticamente nada.” (...) 

No seu texto, Yeganeh Rezaian descreve casos frequentes  - um deles passado consigo -  em que uma jornalista cuja reportagem começa a tornar-se incómoda se torna alvo de chantagem via e-mail, com ameaças de divulgação de escândalos sexuais inventados, mas eficazes para degradação da sua imagem pública. 

Os homens que têm de entrevistar podem assumir atitudes de vários tipos: há os mais conservadores, que chegam a evitar o contacto visual, ou se recusam mesmo a falar com uma repórter, porque “aceitam a visão extrema segundo a qual não é permitido encontrar-se com uma mulher que não seja membro da sua família”. Mas outros “tratam-na como uma sedutora, interagindo com ela como se a sua única utilidade como mulher fosse para gratificação sexual; nunca o dizem em voz alta, mas o movimento dos seus olhos diz tudo.” (...) 

Curiosamente, há um ponto em que ser mulher pode beneficiar o seu trabalho como jornalista. Khadija Ismayilova, uma jornalista do Azerbeijão, contou-lhe que isso sucede porque muitas pessoas “subestimam a inteligência da mulher”: 

“Pelo facto de sermos mulheres, os nossos entrevistados consideram-nos umas tontas e explicam tudo com mais detalhe. Isto torna as nossas entrevistas mais completas. É mais fácil para uma mulher conseguir um autêntico soundbite”  - disse.

 

 

O trabalho de Yeganeh Rezaian, inicialmente publicado no site do Shorenstein Center, é aqui parcialmente citado da Global Investigative Journalism Network. A imagem presente neste site do GIJN é de Shifa Gardi, jornalista de uma estação de televisão curda do Iraque, que foi morta em reportagem, pela explosão de uma bomba.

Connosco
Imprensa nas mãos de grupos financeiros "proletariza" jornalistas Ver galeria

“Um jornal, hoje, não pode viver sem se pôr de joelhos diante da Google”. Foi esta a síntese de Casimiro García Abadillo, director de El Independiente, na comemoração do centenário do jornal El Sol. Disse ainda que as quedas da tiragem e da receita publicitária, desde a chegada da Internet, trouxeram uma “debilidade financeira” que permitiu que os grandes jornais fossem apropriados pela banca e outros grupos empresariais. Outra consequência foi a perda de emprego para muitos profissionais e uma desvalorização salarial que “proletarizou [a profissão] até limites insuportáveis”. A reportagem é da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

Jornalismo de investigação em crise por falta de suporte financeiro Ver galeria

“Podíamos pensar que não devia haver discussão a respeito da importância do jornalismo de investigação. Mas o colapso da base financeira do jornalismo nestes últimos 15 anos causou muitas vítimas, e uma das principais foi o campo da investigação. (...) O jornalismo de investigação passou a ser visto, cada vez mais, como um desperdício de tempo, custoso e ineficiente.” Esta reflexão faz parte da síntese de apresentação do novo relatório produzido pelo Global Investigative Journalism Network, que desmente o preconceito e demonstra o verdadeiro impacto do jornalismo de investigação, bem como o seu contributo essencial para uma vida democrática saudável.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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