Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Media

Governo mexicano suspeito de espiar jornalistas "infectando" os seus telemóveis

Jornalistas mexicanos que se têm destacado por fazerem reportagens de investigação sobre temas sensíveis para o Poder acusam o governo de ter “infectado” os seus telemóveis com programas “piratas” que lêem os seus dados e geolocalização, podendo ainda servir-se da câmara e do microfone incorporados. O governo do México nega as acusações, mas várias organizações de defesa da liberdade de Imprensa apresentaram um relatório que descreve esta operação como vindo já desde 2015.

A jornalista Carmen Aristegui e dois outros membros da sua equipa de investigação recebiam, a partir de Janeiro de 2015, mensagens que se apresentavam como vindas dos seus bancos, da Embaixada dos Estados Unidos ou da operadora dos telemóveis, convidando-os a “clicar” em determinado endereço. 

Segundo artigo de Le Monde, que aqui citamos, isso bastava para introduzir um vírus “espião” que passava a ter conhecimento de todos os seus arquivos, incluindo chamadas e mensagens, tendo ainda acesso à geolocalização do utente e ao serviço do microfone e da câmara do aparelho. 

“Este espião é comercializado pela sociedade israelita NSO Group, que só o vende a agências governamentais para combater o terrorismo e o crime organizado. Mas, apoiado por cópias de contratos de licença, o relatório revela que a empresa conta entre os seus clientes os ministérios da Defesa e da Justiça, bem como os serviços secretos mexicanos.” 

Entre as vítimas desta operação contam-se outros jornalistas “incómodos”, como Carlos Loret de Mola, apresentador de um canal de televisão, que denunciou a execução de 22 presumidos delinquentes por forças policiais, em Maio de 2015, ou Mario Patron, da organização de defesa dos Direitos Humanos Centro Prodh, que apoia os familiares dos 43 estudantes desaparecidos em Setembro de 2014, depois de serem detidos. 

“Nós tornámo-nos os inimigos do Estado”, declarou Juan Pardinas, director do Instituto Mexicano para a Competitividade, que foi espiado quando elaborava um projecto de lei contra a corrupção política. 

“Deputados da oposição exigem um inquérito, bem como as organizações Amnistia Internacional e Human Rights Watch. As vítimas apresentaram queixa, pedindo investigadores independentes, num país em que 99% dos delitos contra a Imprensa permanecem na impunidade.”

 

Mais informação no texto de Le Monde e em Global Investigative Journalism Network

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


ver mais >
Opinião
Sobre a liberdade de expressão em Portugal
Francisco Sarsfield Cabral
O caso da participação num programa matinal da TVI de um racista, já condenado e tendo cumprido pena de prisão, Mário Machado, suscitou polémica. Ainda bem, porque as questões em causa são importantes. Mas, como é costume, o debate rapidamente derivou para um confronto entre a esquerda indignada por se ter dado tempo de antena a um criminoso fascista e a direita defendendo a liberdade de expressão e a dualidade de...
O panorama dos media
Manuel Falcão
Se olharmos para o top dos programas mais vistos na televisão generalista em 2018 vemos um claro domínio das transmissões desportivas, seguidas a grande distância pelos reality shows e, ainda mais para trás, pelas telenovelas. No entanto as transmissões televisivas produzem apenas picos de audiência e contribuem relativamente pouco para as médias e para planos continuados. O dilema das televisões generalistas está na...
Informar ou depender…
Dinis de Abreu
O título deste texto corresponde a um livro publicado nos anos 70 por Francisco Balsemão, numa altura em que já se ‘contavam espingardas’ para pôr termo ao Estado Novo, como veio a acontecer com o derrube de Marcello Caetano, em 25 de Abril de 74.  A obra foi polémica à época e justamente considerada um ‘grito de alma’, assinada por quem começara a sua vida profissional num jornal controlado pela família...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...