Terça-feira, 11 de Dezembro, 2018
Fórum

Mudanças tecnológicas recomendam uma "Constituição digital"

Estamos a entrar numa nova vaga de concentração de riqueza, “desta vez impulsionada por uma mudança tecnológica que está a acelerar muitíssimo”. Por contraste com a imagem benévola que habitualmente atribuímos ao progresso, “a engenharia genética, a Inteligência Artificial, os aperfeiçoamentos biológicos e a expansão da mente humana poderiam criar desigualdades que mal podemos imaginar.” É este o sentido de um texto recente de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, que fala, citando outro autor, da necessidade de “um novo marco regulatório, uma ‘Constituição digital’.”

O seu ponto de partida é a constatação de que “a desiguldade na repartição mundial da riqueza acelerou nos últimos anos, especialmente nos EUA e no Reino Unido, sendo um factor que contribuíu para grandes mudanças políticas e populismos, mas estamos apenas no princípio de uma tendência mais profunda e radical”. 

Miguel Ormaetxea refere-se depois ao livro “The Great Leveler”, do historiador Walter Scheidel, segundo o qual, nos últimos 12.000 anos da história humana, “o ‘grande nivelador’ da tendência para a concentração de riqueza e a consequente desigualdade têm sido acontecimentos violentos, principalmente guerras e desastres naturais”. 

O Antigo Egipto e o Império Romano foram exemplos máximos de concentração de poder. “Entre o ano 2.000 a.C. e 100 d.C.  – segundo Scheidel -  a fortuna dos romanos ricos aumentou cerca de cem vezes. Alguns aristocratas possuíam milhares de escravos.” 

“As duas guerras mundiais do séc. XX produziram um efeito de nivelação maciça. Desgraçadamente, podemos comprovar que o impulso no sentido do nivelamento não acontece por causas pacíficas.” 

Miguel Ormaetxea cita depois o economista francês Thomas Piketty, que explica, em “O capital no séc. XXI”, “como nas últimas décadas a concentração de riqueza tende a acelerar. A desigualdade tem aumentado também com o desaparecimento do comunismo. Na Rússia e na China, e também na Índia, a concentração de riqueza vai nessa direcção.” 

O último autor citado é o presidente da empresa espanhola Telefónica, José María Álvarez-Pallete, que chama a atenção para o crescimento da riqueza e desigualdade resultantes da mudança tecnológica: “Como vamos distribuir essa riqueza e como vamos canalizar o progresso derivado da mudança tecnológica? Tudo isto exige um novo marco regulatório, uma ‘Constituição digital’.” 

Como diz o autor, em antetítulo, “é imprescindível um grande pacto para a redistribuição da grande riqueza emergente, ou vamos enfrentar grandes convulsões políticas”.

 

 

O artigo citado, em Media-tics, e a apresentação do livro de Scheidel, em The Guardian

Connosco
Estratégia mediática da China usa "barcos emprestados" para "autenticar" a propaganda... Ver galeria

Durante décadas, a estratégia de imagem da China foi defensiva, de resposta, e apontada sobretudo à sua audiência interna. O efeito mais visível era o desaparecimento de conteúdos: revistas estrangeiras com páginas arrancadas, ou as emissões da BBC que ficavam escuras quando tratavam de temas sensíveis, como o Tibete, Taiwan ou o massacre de Tienanmen.

Mas nos últimos anos a China desenvolveu uma estratégia mais sofisticada e assertiva, apontada às audiências internacionais. E Pequim está a fazê-lo com grande investimento financeiro  - que inclui cobertura jornalística patrocinada.

Um dos exemplos mais ostensivos é agora a contratação de jornalistas ocidentais para a China Global Television Network  - o ramo internacional da Televisão Central da China -  com estúdios em Chiswick, Londres. O objectivo deste esforço é, nas palavras do Presidente Xi Jinping, “contar bem a história da China”. E não faltam candidatos. A informação consta de uma reportagem extensa, em The Guardian.

Jornais perdem publicidade e a democracia qualidade Ver galeria

A receita proveniente da publicidade nos diários impressos está a desaparecer num movimento que parece inexorável. Acontece em todos os mercados, e nomeadamente no dos EUA, que pode servir de aviso aos outros: neste caso, a receita da publicidade de todos os diários foi de 13.330 milhões de dólares em 2016, de 9.760 neste ano de 2018, quase a acabar, e será de apenas 4.400 milhões em 2022, segundo a mais recente projecção da eMarketer.

Na Espanha, e segundo os dados da InfoAdex sobre os nove primeiros meses de 2018, regista-se uma queda generalizada de 6,1% no investimento na Imprensa escrita, depois de onze anos de descida sem fim. O balanço é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, que conclui: “A desinformação instala-se à vontade e é urgente fazer qualquer coisa. Não abandonemos os editores, ou a qualidade da democracia irá pelo mesmo ralo por onde se escoa a conta de resultados dos meios de comunicação.”

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...