Sábado, 20 de Outubro, 2018
Fórum

Mudanças tecnológicas recomendam uma "Constituição digital"

Estamos a entrar numa nova vaga de concentração de riqueza, “desta vez impulsionada por uma mudança tecnológica que está a acelerar muitíssimo”. Por contraste com a imagem benévola que habitualmente atribuímos ao progresso, “a engenharia genética, a Inteligência Artificial, os aperfeiçoamentos biológicos e a expansão da mente humana poderiam criar desigualdades que mal podemos imaginar.” É este o sentido de um texto recente de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, que fala, citando outro autor, da necessidade de “um novo marco regulatório, uma ‘Constituição digital’.”

O seu ponto de partida é a constatação de que “a desiguldade na repartição mundial da riqueza acelerou nos últimos anos, especialmente nos EUA e no Reino Unido, sendo um factor que contribuíu para grandes mudanças políticas e populismos, mas estamos apenas no princípio de uma tendência mais profunda e radical”. 

Miguel Ormaetxea refere-se depois ao livro “The Great Leveler”, do historiador Walter Scheidel, segundo o qual, nos últimos 12.000 anos da história humana, “o ‘grande nivelador’ da tendência para a concentração de riqueza e a consequente desigualdade têm sido acontecimentos violentos, principalmente guerras e desastres naturais”. 

O Antigo Egipto e o Império Romano foram exemplos máximos de concentração de poder. “Entre o ano 2.000 a.C. e 100 d.C.  – segundo Scheidel -  a fortuna dos romanos ricos aumentou cerca de cem vezes. Alguns aristocratas possuíam milhares de escravos.” 

“As duas guerras mundiais do séc. XX produziram um efeito de nivelação maciça. Desgraçadamente, podemos comprovar que o impulso no sentido do nivelamento não acontece por causas pacíficas.” 

Miguel Ormaetxea cita depois o economista francês Thomas Piketty, que explica, em “O capital no séc. XXI”, “como nas últimas décadas a concentração de riqueza tende a acelerar. A desigualdade tem aumentado também com o desaparecimento do comunismo. Na Rússia e na China, e também na Índia, a concentração de riqueza vai nessa direcção.” 

O último autor citado é o presidente da empresa espanhola Telefónica, José María Álvarez-Pallete, que chama a atenção para o crescimento da riqueza e desigualdade resultantes da mudança tecnológica: “Como vamos distribuir essa riqueza e como vamos canalizar o progresso derivado da mudança tecnológica? Tudo isto exige um novo marco regulatório, uma ‘Constituição digital’.” 

Como diz o autor, em antetítulo, “é imprescindível um grande pacto para a redistribuição da grande riqueza emergente, ou vamos enfrentar grandes convulsões políticas”.

 

 

O artigo citado, em Media-tics, e a apresentação do livro de Scheidel, em The Guardian

Connosco
Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação Ver galeria

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O Clube

Terminou o prazo de recepção dos trabalhos concorrentes ao  Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído há um ano por iniciativa do jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, com o patrocínio da Fundação Jorge Álvares e o apoio do JL – Jornal de Artes, Letras e Ideias.

Nesta segunda edição, o Prémio foi desdobrado em duas modalidades:  uma  aberta a textos originais, que passou a designar-se o Prémio Ensaio da Lusofonia; e outra que manteve  o título de Prémio de Jornalismo da Lusofonia, destinado a textos já publicados, em suporte papel ou digital.


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Opinião
Volta e meia defrontamo-nos com a expressão “cord-cutting”, em referência à alteração de comportamentos nos espectadores de televisão. Que quer isto dizer? Muito simplesmente a expressão indica a decisão de deixar de ter um serviço de televisão paga por cabo, para passar a ver TV somente através de streaming – seja na Netflix, na Amazon ou numa das outras plataformas que começam a...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
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Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
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