Sexta-feira, 23 de Fevereiro, 2018
Fórum

O dever ético e jornalístico face ao interesse público

As questões da ética profissional  - neste caso da jornalística -  são mais simples nos documentos do que na vida real. “Medir consequências e observar a máxima utilidade de certa decisão para o maior número de pessoas são variáveis que flexibilizam o dever-ser dos códigos  – a privacidade de um indivíduo, por exemplo, por vezes é solapada em nome do interesse público para que o jornalista obtenha certa informação.” É este o caminho de reflexão do mais recente “Comentário da Semana” de ObjEthos, o Observatório da Ética Jornalística do Brasil.

O autor do texto citado, Dairan Paul, mestrando do POSJOR da Universidade Federal de Santa Catarina, parte da noção corrente de “ética jornalística” como uma “lista de deveres” que molda uma ética própria do jornalista e o diferencia de outros cidadãos: 

“Não no sentido de que ele é o guardião da moral e dos bons costumes e, portanto, ‘mais’ ético do que uma advogada, um padeiro ou um morador de rua. Trata-se, simplesmente, de constatar que ao profissional jornalista é exigido e esperado o comprometimento com determinados valores morais para o exercício do jornalismo – busca pela verdade e respeito às fontes, por exemplo, são dois dos princípios mais comuns.” 

Depois de uma passagem por alguns dos “clássicos” no debate sobre a ética, como Aristóteles e Kant, bem como dos primeiros códigos de ética especificamente jornalística, o autor detém-se sobre a abordagem do “ubuntuísmo”, “uma corrente africana baseada na perspectiva colectiva do bem comum”. 

“A filosofia do ubuntu tem origem na máxima da língua Zulu umuntu ngumuntu ngabantu, cujo significado pode ser traduzido para algo como ‘uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas’. O pesquisador Pieter Fourie classifica o ‘ubuntuísmo’ como um ‘modo de ser’, um ‘código de ética’ profundamente enraizado na cultura africana. A ideia básica é que o indivíduo se define como alguém em referência à sua comunidade.” 

O caso concreto citado é recolhido de um estudo de Herman Wasserman e De Beer, que analisaram a cobertura sobre HIV e SIDA na África do Sul a partir das perspectivas utilitaristas e comunitárias. O episódio que descrevem tem a ver com a revelação da verdadeira causa da morte de Parks Mankahlana, porta-voz do então presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, em 2000. 


"Ambos foram responsáveis por diversas declarações negativas sobre a disseminação da SIDA no país, ainda que a região tivesse o maior número de pessoas convivendo com o vírus do HIV no continente africano. Mbeki e Mankahlana frequentemente negligenciaram a questão, citando que acidentes em estradas causavam mais mortes, por exemplo."

 

“Quando Mankahlana faleceu em Outubro de 2000, sua esposa alegou tratar-se de um infarto causado por uma anemia aguda. No entanto, os media, à época, especularam que a morte fora resultado do vírus HIV, o que teria sido confirmado, posteriormente, por uma fonte interna ao canal e.tv. A revelação foi feita a despeito dos familiares de Mankahlana, que evitaram comentar maiores detalhes do caso e pediram respeito e privacidade.” 

“Wasserman e De Beer desenham diversos cenários possíveis para responder ao dilema sobre revelar ou não a causa da morte de Mankahlana. (...)  Contudo, o ponto central da análise, a partir de uma perspectiva comunitária da ética, infere que essa decisão não deveria ser tomada apenas internamente, dentro das redacções  – os jornalistas deveriam consultar directamente as fontes afectadas pela revelação e os membros da comunidade, seja ela a negra ou a formada por pessoas que portam o vírus HIV. Essa perspectiva não é tomada no sentido de subordinar o jornalismo às suas fontes, mas de abrir novos espaços para o diálogo entre uma ética que é costumeiramente fechada a discussões restritas aos profissionais, o que exclui o seu próprio público.” (...)

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A importância do conceito de ubuntu nas culturas africanas é bem explicada por Desmond Tutu no capítulo “Nuremberg or national amnesia?”, do seu livro No Future without Forgiveness. Desmond Tutu foi nomeado pelo então Presidente Nelson Mandela para dirigir a Comissão Verdade e Reconciliação, que propunha aos culpados de crimes graves no regime do apartheid a concessão de uma amnistia a troco da verdade  -  reconhecendo os crimes cometidos e, quando possível, identificando os locais onde os corpos tinham sido escondidos, para serem entregues às respectivas famílias.

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O artigo original de Dairan Paul, em ObjEthos

Connosco
Joana Marques Vidal em Março no novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

Magistrada do Ministério Público de carreira desde 1979, Joana Marques Vidal é a próxima oradora-convidada, a 14 de Março,   no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o CNC - Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Nomeada Procuradora- Geral da República, em Outubro de 2012  pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva, Joana Marques Vidal foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal em 180 anos de magistratura do Ministério Público. O seu mandato, que ficará certamente na história, termina em Outubro, sendo ainda uma incógnita se será ou não reconduzida.   

Com uma personalidade reservada, e intervenções públicas muito espaçadas,  a sua presença neste ciclo representará decerto um importante contributo para o debate em curso sobre a Justiça.

  

 

 

Utilização de "drones" por jornalistas com "regime específico" Ver galeria

A Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgou o parecer que lhe fora pedido pelo secretário de Estado das Infraestruturas sobre o novo regime jurídico para a utilização de aeronaves de controlo remoto (drones), recomendando uma reformulação do projecto de decreto-lei já elaborado. No âmbito da sua competência específica, esta Comissão adverte que o novo regime não pode limitar-se a acautelar a segurança e a responsabilidade civil, “deixando de fora” a tutela da privacidade. É também recomendada a criação de um “regime específico” para a captação por jornalistas.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
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O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em...
O novo livro do jornalista americano Howard Kurtz, “Media Madness: Donald Trump, the Press, and the War Over the Truth”, lançado pela editora Regnery em 29 de Janeiro - por coincidência intencional ou não, na véspera do primeiro discurso “State of the Union” de  Trump perante o Congresso, marcado para o dia seguinte - é um marco oportuno e de leitura imprescindível para quem acompanhe, por interesse profissional ou...
“The Post”, o filme de Spielberg sobre a divulgação, em 1971, de documentos confidenciais do Pentágono sobre a guerra do Vietname levou-me a recordar que, nessa altura, como jovem jornalista do “Diário Popular”, sugeri que o jornal publicasse parte dessas revelações. A sugestão foi aceite e, por isso, traduzi e talvez tenha resumido (não me lembro bem) alguns dos artigos que o “Washington Post”...
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