Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
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O dever ético e jornalístico face ao interesse público

As questões da ética profissional  - neste caso da jornalística -  são mais simples nos documentos do que na vida real. “Medir consequências e observar a máxima utilidade de certa decisão para o maior número de pessoas são variáveis que flexibilizam o dever-ser dos códigos  – a privacidade de um indivíduo, por exemplo, por vezes é solapada em nome do interesse público para que o jornalista obtenha certa informação.” É este o caminho de reflexão do mais recente “Comentário da Semana” de ObjEthos, o Observatório da Ética Jornalística do Brasil.

O autor do texto citado, Dairan Paul, mestrando do POSJOR da Universidade Federal de Santa Catarina, parte da noção corrente de “ética jornalística” como uma “lista de deveres” que molda uma ética própria do jornalista e o diferencia de outros cidadãos: 

“Não no sentido de que ele é o guardião da moral e dos bons costumes e, portanto, ‘mais’ ético do que uma advogada, um padeiro ou um morador de rua. Trata-se, simplesmente, de constatar que ao profissional jornalista é exigido e esperado o comprometimento com determinados valores morais para o exercício do jornalismo – busca pela verdade e respeito às fontes, por exemplo, são dois dos princípios mais comuns.” 

Depois de uma passagem por alguns dos “clássicos” no debate sobre a ética, como Aristóteles e Kant, bem como dos primeiros códigos de ética especificamente jornalística, o autor detém-se sobre a abordagem do “ubuntuísmo”, “uma corrente africana baseada na perspectiva colectiva do bem comum”. 

“A filosofia do ubuntu tem origem na máxima da língua Zulu umuntu ngumuntu ngabantu, cujo significado pode ser traduzido para algo como ‘uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas’. O pesquisador Pieter Fourie classifica o ‘ubuntuísmo’ como um ‘modo de ser’, um ‘código de ética’ profundamente enraizado na cultura africana. A ideia básica é que o indivíduo se define como alguém em referência à sua comunidade.” 

O caso concreto citado é recolhido de um estudo de Herman Wasserman e De Beer, que analisaram a cobertura sobre HIV e SIDA na África do Sul a partir das perspectivas utilitaristas e comunitárias. O episódio que descrevem tem a ver com a revelação da verdadeira causa da morte de Parks Mankahlana, porta-voz do então presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, em 2000. 


"Ambos foram responsáveis por diversas declarações negativas sobre a disseminação da SIDA no país, ainda que a região tivesse o maior número de pessoas convivendo com o vírus do HIV no continente africano. Mbeki e Mankahlana frequentemente negligenciaram a questão, citando que acidentes em estradas causavam mais mortes, por exemplo."

 

“Quando Mankahlana faleceu em Outubro de 2000, sua esposa alegou tratar-se de um infarto causado por uma anemia aguda. No entanto, os media, à época, especularam que a morte fora resultado do vírus HIV, o que teria sido confirmado, posteriormente, por uma fonte interna ao canal e.tv. A revelação foi feita a despeito dos familiares de Mankahlana, que evitaram comentar maiores detalhes do caso e pediram respeito e privacidade.” 

“Wasserman e De Beer desenham diversos cenários possíveis para responder ao dilema sobre revelar ou não a causa da morte de Mankahlana. (...)  Contudo, o ponto central da análise, a partir de uma perspectiva comunitária da ética, infere que essa decisão não deveria ser tomada apenas internamente, dentro das redacções  – os jornalistas deveriam consultar directamente as fontes afectadas pela revelação e os membros da comunidade, seja ela a negra ou a formada por pessoas que portam o vírus HIV. Essa perspectiva não é tomada no sentido de subordinar o jornalismo às suas fontes, mas de abrir novos espaços para o diálogo entre uma ética que é costumeiramente fechada a discussões restritas aos profissionais, o que exclui o seu próprio público.” (...)

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A importância do conceito de ubuntu nas culturas africanas é bem explicada por Desmond Tutu no capítulo “Nuremberg or national amnesia?”, do seu livro No Future without Forgiveness. Desmond Tutu foi nomeado pelo então Presidente Nelson Mandela para dirigir a Comissão Verdade e Reconciliação, que propunha aos culpados de crimes graves no regime do apartheid a concessão de uma amnistia a troco da verdade  -  reconhecendo os crimes cometidos e, quando possível, identificando os locais onde os corpos tinham sido escondidos, para serem entregues às respectivas famílias.

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O artigo original de Dairan Paul, em ObjEthos

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
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