Sábado, 17 de Novembro, 2018
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O dever ético e jornalístico face ao interesse público

As questões da ética profissional  - neste caso da jornalística -  são mais simples nos documentos do que na vida real. “Medir consequências e observar a máxima utilidade de certa decisão para o maior número de pessoas são variáveis que flexibilizam o dever-ser dos códigos  – a privacidade de um indivíduo, por exemplo, por vezes é solapada em nome do interesse público para que o jornalista obtenha certa informação.” É este o caminho de reflexão do mais recente “Comentário da Semana” de ObjEthos, o Observatório da Ética Jornalística do Brasil.

O autor do texto citado, Dairan Paul, mestrando do POSJOR da Universidade Federal de Santa Catarina, parte da noção corrente de “ética jornalística” como uma “lista de deveres” que molda uma ética própria do jornalista e o diferencia de outros cidadãos: 

“Não no sentido de que ele é o guardião da moral e dos bons costumes e, portanto, ‘mais’ ético do que uma advogada, um padeiro ou um morador de rua. Trata-se, simplesmente, de constatar que ao profissional jornalista é exigido e esperado o comprometimento com determinados valores morais para o exercício do jornalismo – busca pela verdade e respeito às fontes, por exemplo, são dois dos princípios mais comuns.” 

Depois de uma passagem por alguns dos “clássicos” no debate sobre a ética, como Aristóteles e Kant, bem como dos primeiros códigos de ética especificamente jornalística, o autor detém-se sobre a abordagem do “ubuntuísmo”, “uma corrente africana baseada na perspectiva colectiva do bem comum”. 

“A filosofia do ubuntu tem origem na máxima da língua Zulu umuntu ngumuntu ngabantu, cujo significado pode ser traduzido para algo como ‘uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas’. O pesquisador Pieter Fourie classifica o ‘ubuntuísmo’ como um ‘modo de ser’, um ‘código de ética’ profundamente enraizado na cultura africana. A ideia básica é que o indivíduo se define como alguém em referência à sua comunidade.” 

O caso concreto citado é recolhido de um estudo de Herman Wasserman e De Beer, que analisaram a cobertura sobre HIV e SIDA na África do Sul a partir das perspectivas utilitaristas e comunitárias. O episódio que descrevem tem a ver com a revelação da verdadeira causa da morte de Parks Mankahlana, porta-voz do então presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, em 2000. 


"Ambos foram responsáveis por diversas declarações negativas sobre a disseminação da SIDA no país, ainda que a região tivesse o maior número de pessoas convivendo com o vírus do HIV no continente africano. Mbeki e Mankahlana frequentemente negligenciaram a questão, citando que acidentes em estradas causavam mais mortes, por exemplo."

 

“Quando Mankahlana faleceu em Outubro de 2000, sua esposa alegou tratar-se de um infarto causado por uma anemia aguda. No entanto, os media, à época, especularam que a morte fora resultado do vírus HIV, o que teria sido confirmado, posteriormente, por uma fonte interna ao canal e.tv. A revelação foi feita a despeito dos familiares de Mankahlana, que evitaram comentar maiores detalhes do caso e pediram respeito e privacidade.” 

“Wasserman e De Beer desenham diversos cenários possíveis para responder ao dilema sobre revelar ou não a causa da morte de Mankahlana. (...)  Contudo, o ponto central da análise, a partir de uma perspectiva comunitária da ética, infere que essa decisão não deveria ser tomada apenas internamente, dentro das redacções  – os jornalistas deveriam consultar directamente as fontes afectadas pela revelação e os membros da comunidade, seja ela a negra ou a formada por pessoas que portam o vírus HIV. Essa perspectiva não é tomada no sentido de subordinar o jornalismo às suas fontes, mas de abrir novos espaços para o diálogo entre uma ética que é costumeiramente fechada a discussões restritas aos profissionais, o que exclui o seu próprio público.” (...)

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A importância do conceito de ubuntu nas culturas africanas é bem explicada por Desmond Tutu no capítulo “Nuremberg or national amnesia?”, do seu livro No Future without Forgiveness. Desmond Tutu foi nomeado pelo então Presidente Nelson Mandela para dirigir a Comissão Verdade e Reconciliação, que propunha aos culpados de crimes graves no regime do apartheid a concessão de uma amnistia a troco da verdade  -  reconhecendo os crimes cometidos e, quando possível, identificando os locais onde os corpos tinham sido escondidos, para serem entregues às respectivas famílias.

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O artigo original de Dairan Paul, em ObjEthos

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A historiadora britânica Bettany Hughes, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hughes como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

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Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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