Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
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O dever ético e jornalístico face ao interesse público

As questões da ética profissional  - neste caso da jornalística -  são mais simples nos documentos do que na vida real. “Medir consequências e observar a máxima utilidade de certa decisão para o maior número de pessoas são variáveis que flexibilizam o dever-ser dos códigos  – a privacidade de um indivíduo, por exemplo, por vezes é solapada em nome do interesse público para que o jornalista obtenha certa informação.” É este o caminho de reflexão do mais recente “Comentário da Semana” de ObjEthos, o Observatório da Ética Jornalística do Brasil.

O autor do texto citado, Dairan Paul, mestrando do POSJOR da Universidade Federal de Santa Catarina, parte da noção corrente de “ética jornalística” como uma “lista de deveres” que molda uma ética própria do jornalista e o diferencia de outros cidadãos: 

“Não no sentido de que ele é o guardião da moral e dos bons costumes e, portanto, ‘mais’ ético do que uma advogada, um padeiro ou um morador de rua. Trata-se, simplesmente, de constatar que ao profissional jornalista é exigido e esperado o comprometimento com determinados valores morais para o exercício do jornalismo – busca pela verdade e respeito às fontes, por exemplo, são dois dos princípios mais comuns.” 

Depois de uma passagem por alguns dos “clássicos” no debate sobre a ética, como Aristóteles e Kant, bem como dos primeiros códigos de ética especificamente jornalística, o autor detém-se sobre a abordagem do “ubuntuísmo”, “uma corrente africana baseada na perspectiva colectiva do bem comum”. 

“A filosofia do ubuntu tem origem na máxima da língua Zulu umuntu ngumuntu ngabantu, cujo significado pode ser traduzido para algo como ‘uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas’. O pesquisador Pieter Fourie classifica o ‘ubuntuísmo’ como um ‘modo de ser’, um ‘código de ética’ profundamente enraizado na cultura africana. A ideia básica é que o indivíduo se define como alguém em referência à sua comunidade.” 

O caso concreto citado é recolhido de um estudo de Herman Wasserman e De Beer, que analisaram a cobertura sobre HIV e SIDA na África do Sul a partir das perspectivas utilitaristas e comunitárias. O episódio que descrevem tem a ver com a revelação da verdadeira causa da morte de Parks Mankahlana, porta-voz do então presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, em 2000. 


"Ambos foram responsáveis por diversas declarações negativas sobre a disseminação da SIDA no país, ainda que a região tivesse o maior número de pessoas convivendo com o vírus do HIV no continente africano. Mbeki e Mankahlana frequentemente negligenciaram a questão, citando que acidentes em estradas causavam mais mortes, por exemplo."

 

“Quando Mankahlana faleceu em Outubro de 2000, sua esposa alegou tratar-se de um infarto causado por uma anemia aguda. No entanto, os media, à época, especularam que a morte fora resultado do vírus HIV, o que teria sido confirmado, posteriormente, por uma fonte interna ao canal e.tv. A revelação foi feita a despeito dos familiares de Mankahlana, que evitaram comentar maiores detalhes do caso e pediram respeito e privacidade.” 

“Wasserman e De Beer desenham diversos cenários possíveis para responder ao dilema sobre revelar ou não a causa da morte de Mankahlana. (...)  Contudo, o ponto central da análise, a partir de uma perspectiva comunitária da ética, infere que essa decisão não deveria ser tomada apenas internamente, dentro das redacções  – os jornalistas deveriam consultar directamente as fontes afectadas pela revelação e os membros da comunidade, seja ela a negra ou a formada por pessoas que portam o vírus HIV. Essa perspectiva não é tomada no sentido de subordinar o jornalismo às suas fontes, mas de abrir novos espaços para o diálogo entre uma ética que é costumeiramente fechada a discussões restritas aos profissionais, o que exclui o seu próprio público.” (...)

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A importância do conceito de ubuntu nas culturas africanas é bem explicada por Desmond Tutu no capítulo “Nuremberg or national amnesia?”, do seu livro No Future without Forgiveness. Desmond Tutu foi nomeado pelo então Presidente Nelson Mandela para dirigir a Comissão Verdade e Reconciliação, que propunha aos culpados de crimes graves no regime do apartheid a concessão de uma amnistia a troco da verdade  -  reconhecendo os crimes cometidos e, quando possível, identificando os locais onde os corpos tinham sido escondidos, para serem entregues às respectivas famílias.

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O artigo original de Dairan Paul, em ObjEthos

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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