Quinta-feira, 19 de Abril, 2018
Media

Quando um jornalismo em mudança faz mudar também o seu ensino

Houve tanta mudança e tanta inovação no jornalismo, nestes últimos anos, que a própria investigação académica sobre o ensino do mesmo acabou por ser submetida a um ritmo a que as ciências sociais não estavam habituadas. As coisas estão muito diferentes daquilo que eram. O que não mudou muito é o tempo de conceber, escrever, rever, editar e imprimir um livro que dê conta do que se passa. É esta a reflexão inicial dos dois autores de Remaking the News, um ensaio que “procura avaliar estas duas décadas de ensino do jornalismo e imaginar os novos caminhos que se abrem à sua frente”.

Ambos professores em escolas de Comunicação e Jornalismo, nos Estados Unidos, C.W. Anderson e Pablo Boczkowski resumem em três pontos principais as lições que aprenderam nestes quatro anos de produção conjunta de Remaking the News  (o primeiro já tinha publicado, em 2013, Rebuilding the News: Metropolitan Journalism in the Digital Age). 

A primeira é que os media têm estado a experimentar modos alternativos de apresentar a informação e contar uma história. Em consequência disto, também os docentes de jornalismo sentem esse impulso e, neste caso, eles optaram pelo formato do ensaio para o livro que agora publicaram. “Descobrimos que ele promovia a criatividade intelectual e a alegria de modos que não vemos habitualmente no processo de escrever o género dominante, que é o artigo de jornal.” 

Usando uma imagem do desporto, não há nada como correr na floresta, mas, quando o tempo está muito frio, mantém-se a forma no ginásio. A disciplina clássica do artigo de jornal é como a passadeira rolante do corredor de ginásio  - faz falta, mas não tem a mesma graça. 

O problema é que as instituições académicas exercem tanta pressão sobre a capacidade produtiva dos docentes que eles acabam a escrever como quem corre dentro da roda de plástico de um hamster, como disse o jornalista Dean Starkman, autor de The Watchdog that didn’t bark (“O cão de guarda que não ladrou”  - referindo-se ao papel vigilante do jornalismo). 

A segunda é que a diversidade e mesmo o conflito podem ser fontes de força e inovação, tanto para os profissionais dos media como para os investigadores. O artigo cita o conceito de multiperspectivism, desenvolvido por Herbert Gans, chegando à ideia de que “os jornalistas fariam bem em incorporar uma orientação no sentido de alargar o conjunto de tópicos e de vozes representadas nas notícias; por consequência, isto também significa acolher pontos de vista em competição entre si, dentro do relato da notícia, de uma forma mais inclusiva do que antagonista”.

A terceira é que, finalmente, não podemos ficar prisioneiros da nostalgia. Muito do ensino do jornalismo tem continuado a ser feito em função de noções como a da definição da agenda, ou a dos dois degraus da comunicação (as pessoas são influenciadas pelos opinion-makers, que, por sua vez, são influenciados pelos mass-media). A verdade é que se tornou muito mais difícil à Imprensa fixar a agenda, nos dias que correm, e que a ascenção das redes sociais acrescentou camadas de complexidade àquele esquema simples dos dois degraus. 

Já não adianta ficarmos “a suspirar pelos gloriosos dias do Watergate, quando a Imprensa podia supostamente fixar a atenção do público sobre aquilo que era importante, e o Facebook e o Twitter ainda não estavam a poluir a esfera pública com um tsunami de fake news”. 

A concluir, os autores afirmam:

“Acima de tudo, [o sentimento destas grandes transformações] recorda-nos de que continuamos no lugar do condutor, e que talvez não possamos ter o luxo de confiar muito nas rotinas e instituições que nos serviram tão bem durante a segunda metade do séc. XX. Um sentido renovado de intervenção pode ser, em última instância, a beleza de escrevermos sobre a nossa era digital.” 



O artigo original, na íntegra, em NiemanLab

Connosco
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Os repórteres que “correm riscos pela verdade” fazem-no por todos nós, incluindo pelos soldados que vamos ou não enviar para a frente de batalha. O único modo de avaliarmos as guerras em que nos envolvemos é tendo repórteres “com a coragem e a capacidade de irem lá fazer reportagem”. Esta reflexão é do historiador norte-americano Timothy Snyder, que citamos da Global Investigative Journalism Network.

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Pode acontecer que o melhor jornalismo nem seja o que é mais lido. Não gostamos de ouvir esta notícia, mas foi disto e de outras coisas parecidas que se falou no XXI Laboratorio de Periodismo da APM, o debate periódico sobre temas de actualidade que, na sua edição de Abril de 2017, teve por tema “O que lêem e o que não lêem os leitores”. O encontro decorreu na sede da Asociación de la Prensa de Madrid  - com a qual mantemos um acordo de parceria -  e foi moderado por Nemésio Rodríguez, vice-presidente da APM e actual presidente da FAPE – Federación de las Asociaciones de Periodistas de España.

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site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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24
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