Sábado, 25 de Maio, 2019
Media

Quando um jornalismo em mudança faz mudar também o seu ensino

Houve tanta mudança e tanta inovação no jornalismo, nestes últimos anos, que a própria investigação académica sobre o ensino do mesmo acabou por ser submetida a um ritmo a que as ciências sociais não estavam habituadas. As coisas estão muito diferentes daquilo que eram. O que não mudou muito é o tempo de conceber, escrever, rever, editar e imprimir um livro que dê conta do que se passa. É esta a reflexão inicial dos dois autores de Remaking the News, um ensaio que “procura avaliar estas duas décadas de ensino do jornalismo e imaginar os novos caminhos que se abrem à sua frente”.

Ambos professores em escolas de Comunicação e Jornalismo, nos Estados Unidos, C.W. Anderson e Pablo Boczkowski resumem em três pontos principais as lições que aprenderam nestes quatro anos de produção conjunta de Remaking the News  (o primeiro já tinha publicado, em 2013, Rebuilding the News: Metropolitan Journalism in the Digital Age). 

A primeira é que os media têm estado a experimentar modos alternativos de apresentar a informação e contar uma história. Em consequência disto, também os docentes de jornalismo sentem esse impulso e, neste caso, eles optaram pelo formato do ensaio para o livro que agora publicaram. “Descobrimos que ele promovia a criatividade intelectual e a alegria de modos que não vemos habitualmente no processo de escrever o género dominante, que é o artigo de jornal.” 

Usando uma imagem do desporto, não há nada como correr na floresta, mas, quando o tempo está muito frio, mantém-se a forma no ginásio. A disciplina clássica do artigo de jornal é como a passadeira rolante do corredor de ginásio  - faz falta, mas não tem a mesma graça. 

O problema é que as instituições académicas exercem tanta pressão sobre a capacidade produtiva dos docentes que eles acabam a escrever como quem corre dentro da roda de plástico de um hamster, como disse o jornalista Dean Starkman, autor de The Watchdog that didn’t bark (“O cão de guarda que não ladrou”  - referindo-se ao papel vigilante do jornalismo). 

A segunda é que a diversidade e mesmo o conflito podem ser fontes de força e inovação, tanto para os profissionais dos media como para os investigadores. O artigo cita o conceito de multiperspectivism, desenvolvido por Herbert Gans, chegando à ideia de que “os jornalistas fariam bem em incorporar uma orientação no sentido de alargar o conjunto de tópicos e de vozes representadas nas notícias; por consequência, isto também significa acolher pontos de vista em competição entre si, dentro do relato da notícia, de uma forma mais inclusiva do que antagonista”.

A terceira é que, finalmente, não podemos ficar prisioneiros da nostalgia. Muito do ensino do jornalismo tem continuado a ser feito em função de noções como a da definição da agenda, ou a dos dois degraus da comunicação (as pessoas são influenciadas pelos opinion-makers, que, por sua vez, são influenciados pelos mass-media). A verdade é que se tornou muito mais difícil à Imprensa fixar a agenda, nos dias que correm, e que a ascenção das redes sociais acrescentou camadas de complexidade àquele esquema simples dos dois degraus. 

Já não adianta ficarmos “a suspirar pelos gloriosos dias do Watergate, quando a Imprensa podia supostamente fixar a atenção do público sobre aquilo que era importante, e o Facebook e o Twitter ainda não estavam a poluir a esfera pública com um tsunami de fake news”. 

A concluir, os autores afirmam:

“Acima de tudo, [o sentimento destas grandes transformações] recorda-nos de que continuamos no lugar do condutor, e que talvez não possamos ter o luxo de confiar muito nas rotinas e instituições que nos serviram tão bem durante a segunda metade do séc. XX. Um sentido renovado de intervenção pode ser, em última instância, a beleza de escrevermos sobre a nossa era digital.” 



O artigo original, na íntegra, em NiemanLab

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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