Quarta-feira, 18 de Julho, 2018
Media

Quando um jornalismo em mudança faz mudar também o seu ensino

Houve tanta mudança e tanta inovação no jornalismo, nestes últimos anos, que a própria investigação académica sobre o ensino do mesmo acabou por ser submetida a um ritmo a que as ciências sociais não estavam habituadas. As coisas estão muito diferentes daquilo que eram. O que não mudou muito é o tempo de conceber, escrever, rever, editar e imprimir um livro que dê conta do que se passa. É esta a reflexão inicial dos dois autores de Remaking the News, um ensaio que “procura avaliar estas duas décadas de ensino do jornalismo e imaginar os novos caminhos que se abrem à sua frente”.

Ambos professores em escolas de Comunicação e Jornalismo, nos Estados Unidos, C.W. Anderson e Pablo Boczkowski resumem em três pontos principais as lições que aprenderam nestes quatro anos de produção conjunta de Remaking the News  (o primeiro já tinha publicado, em 2013, Rebuilding the News: Metropolitan Journalism in the Digital Age). 

A primeira é que os media têm estado a experimentar modos alternativos de apresentar a informação e contar uma história. Em consequência disto, também os docentes de jornalismo sentem esse impulso e, neste caso, eles optaram pelo formato do ensaio para o livro que agora publicaram. “Descobrimos que ele promovia a criatividade intelectual e a alegria de modos que não vemos habitualmente no processo de escrever o género dominante, que é o artigo de jornal.” 

Usando uma imagem do desporto, não há nada como correr na floresta, mas, quando o tempo está muito frio, mantém-se a forma no ginásio. A disciplina clássica do artigo de jornal é como a passadeira rolante do corredor de ginásio  - faz falta, mas não tem a mesma graça. 

O problema é que as instituições académicas exercem tanta pressão sobre a capacidade produtiva dos docentes que eles acabam a escrever como quem corre dentro da roda de plástico de um hamster, como disse o jornalista Dean Starkman, autor de The Watchdog that didn’t bark (“O cão de guarda que não ladrou”  - referindo-se ao papel vigilante do jornalismo). 

A segunda é que a diversidade e mesmo o conflito podem ser fontes de força e inovação, tanto para os profissionais dos media como para os investigadores. O artigo cita o conceito de multiperspectivism, desenvolvido por Herbert Gans, chegando à ideia de que “os jornalistas fariam bem em incorporar uma orientação no sentido de alargar o conjunto de tópicos e de vozes representadas nas notícias; por consequência, isto também significa acolher pontos de vista em competição entre si, dentro do relato da notícia, de uma forma mais inclusiva do que antagonista”.

A terceira é que, finalmente, não podemos ficar prisioneiros da nostalgia. Muito do ensino do jornalismo tem continuado a ser feito em função de noções como a da definição da agenda, ou a dos dois degraus da comunicação (as pessoas são influenciadas pelos opinion-makers, que, por sua vez, são influenciados pelos mass-media). A verdade é que se tornou muito mais difícil à Imprensa fixar a agenda, nos dias que correm, e que a ascenção das redes sociais acrescentou camadas de complexidade àquele esquema simples dos dois degraus. 

Já não adianta ficarmos “a suspirar pelos gloriosos dias do Watergate, quando a Imprensa podia supostamente fixar a atenção do público sobre aquilo que era importante, e o Facebook e o Twitter ainda não estavam a poluir a esfera pública com um tsunami de fake news”. 

A concluir, os autores afirmam:

“Acima de tudo, [o sentimento destas grandes transformações] recorda-nos de que continuamos no lugar do condutor, e que talvez não possamos ter o luxo de confiar muito nas rotinas e instituições que nos serviram tão bem durante a segunda metade do séc. XX. Um sentido renovado de intervenção pode ser, em última instância, a beleza de escrevermos sobre a nossa era digital.” 



O artigo original, na íntegra, em NiemanLab

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