Sexta-feira, 22 de Março, 2019
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Os embaraços do jornalismo na transição digital e a "dívida técnica"

O progresso tecnológico e científico entrou numa fase de tal modo “trepidante de avanço exponencial” que os próprios meios de comunicação, tanto os tradicionais como os digitais, se deixam frequentemente ficar para trás, mantendo procedimentos herdados da fase anterior. Trata-se de uma “dívida técnica” que tende a acumular-se e, em última instância, embaraça a transição digital do próprio jornalismo. Esta reflexão é de Miguel Ormaetxea, especializado nas novas tecnologias e editor de Media-tics.

O autor começa por afirmar que não se trata apenas de “falta de sensibilidade dos directores em relação à tecnologia”, citando o blog de Enrique Dans, onde foi colher o conceito de “dívida técnica”.

Segundo Miguel Ormaetxea, não há muitos jornalistas que “entendam e divulguem as novidades do progresso tecnológico, e que vão além da exposição dos gadgets de tal progresso, os aparelhos, as inovações e as suas características”. 

Há neste terreno “temas profundos e complexos”, que não estarão ao alcance de todos, mas explicá-los “é essencial para entender o mundo que nos rodeia, que se tornou um cavalo selvagem difícil de montar; as derivas do terrorismo e do populismo têm muito a ver com este pânico do progresso, bem como do desconhecimento dos lugares aonde ele nos pode levar”. (...) 

O referido artigo de Enrique Dans, expondo as consequências de manter os nossos sistemas em “dívida técnica”, é esclarecedor sobre aquilo de que se trata. Não é só a resistência à actualização dos softwares e à aquisição do material que os suporte, bem como a incorrecta combinação de sistemas e versões diferentes, mas também o argumento de poupanças que se podem pagar muito caro mais tarde. 

Enrique Dans explica deste modo o recente crash dos sistemas da British Airways, “no contexto de uma polémica gestão do espanhol Alex Cruz como CEO da IAG, que engloba também companhias como Iberia, Vueling ou Air Lingus, caracterizada por agressivas reduções de custos e pela subcontratação progressiva dos sistemas da companhia, uma política bastante comum na indústria do transporte aéreo”. 

Voltando a citar Miguel Ormaetxea:

“A tecnologia está a chegar ao ponto em que as suas conquistas começam cada vez mais a parecer magia, e muitos responsáveis pelos media acumulam com frequência uma dívida técnica, intelectual e cultural, para com estas realidades. Por isso podemos ver como importantes meios de comunicação não conseguem dar o necessário relevo a estes temas. Nem encontram um lugar onde situar estas informações (na Economia ou na Cultura?).” (...) 


O artigo de Miguel Ormaetxea, em Media-tics

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O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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