Quinta-feira, 17 de Janeiro, 2019
Media

Francisco Balsemão e a reabilitação dos Media contra “a lixeira da Internet”

Num discurso sobre “O que é, hoje, lutar pela liberdade de expressão”, Francisco Pinto Balsemão afirmou que é, em primeiro lugar, lutar contra a censura, que continua “em mais de metade do globo”, e em segundo contra a desinformação, “que prospera e se multiplica na lixeira da Internet”. Sublinhou, neste ponto, a importância de reforçar a legislação sobre propriedade intelectual, lutando também “contra o abuso de posição dominante dos gigantes da Internet”. E advertiu que, “na democracia do nosso tempo, o poder político parece mais empenhado em dar prioridade à segurança do que em proteger a liberdade”.

O fundador do Expresso e “chairman” do grupo Impresa recebeu a medalha de ouro do Instituto Politécnico de Lisboa (IPL), numa cerimónia comemorativa dos 31 anos da instituição. Nas palavras do presidente do IPL, Elmano Margato, a distinção homenageia “uma figura ímpar e incontornável”, reconhecendo o “muito que Francisco Pinto Balsemão contribuiu, como cidadão, como jornalista e como empresário, para o desenvolvimento do país”. 

Como recorda a revista Visão, “Francisco Pinto Balsemão foi um dos signatários de uma carta aberta de 33 grupos europeus de media, recentemente enviada a Bruxelas, sobre os riscos das novas iniciativas legislativas na área digital”  - tema que vem desenvolvido noutro local deste site. O perigo exposto por esses grandes meios de referência é o de se reforçar a “posição dominante” de gigantes como o Google ou o Facebook, que “usam conteúdos e não pagam, ficam com 80% da publicidade digital, pagam poucos impostos em países como Portugal e dão guarida a falsas notícias e a opiniões sobre elas construídas”  - citando, novamente, Francisco Balsemão. 

Sobre o modo displicente como estas questões são tratadas, o orador deu o exemplo das recentes eleições presidenciais em França, onde se chegou “ao extremo de recorrer aos gigantes da Internet, que são os principais responsáveis pela disseminação das mentiras e das meias verdades, para tentar travar os efeitos daquilo que eles próprios, alegando a neutralidade dos seus algoritmos, contribuíram para gerar”. 

E quanto ao uso das redes sociais, que cada vez mais pessoas assumem como fonte primária de informação, Francisco Balsemão defende que “os jornalistas (e os produtores de conteúdos profissionais de qualidade, em geral) se reposicionem”: 

“No caso do jornalismo, temos cada vez mais de nos dedicar ao como e ao porquê de cada notícia, visto que, mal ou bem, as redes sociais já se encarregam do quando, do onde e do quem” – afirmou. 

Francisco Pinto Balsemão aludiu ainda à “ampla influência” do poder político na área dos media, por exemplo nas nomeações para os órgãos reguladores ou no “financiamento e funcionamento da RTP”. O co-fundador do PSD, que liderou o Governo entre 1981 e 1983, completou que a intervenção dos governos pode reflectir-se também ao “enviar ou reenviar” inspecções das Finanças ou do Trabalho às empresas jornalísticas; ao “patrocinar operações de venda de determinados meios a determinadas empresas, como quase aconteceu com a venda da TVI à PT”; ou ao “perturbar o mercado, como ocorreu com o nado-morto Canal 5, como ia sucedendo com a privatização da RTP e, embora com menores consequências, sucedeu recentemente com a inclusão da RTP3 e da RTP Memória na TDT”. 

Noutro ponto da sua intervenção, Francisco Balsemão disse ainda:

“Para que esse quadro fique completo, deverá assinalar-se a existência de empresas de media que não estão preocupadas em ganhar dinheiro e, assim, garantir a sua independência, mas apenas em influenciar o poder político para, por essa via, garantirem o êxito noutros negócios.” (...)

 
Recorde-se que Francisco Balsemão foi um dos fundadores do Clube Português de Imprensa, que lhe atribuíu, oportunamente, o Prémio Carreira.

 

Mais informação no Jornal de Negócios, a Visão e o Expresso

 

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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