Quinta-feira, 22 de Agosto, 2019
Media

Francisco Balsemão e a reabilitação dos Media contra “a lixeira da Internet”

Num discurso sobre “O que é, hoje, lutar pela liberdade de expressão”, Francisco Pinto Balsemão afirmou que é, em primeiro lugar, lutar contra a censura, que continua “em mais de metade do globo”, e em segundo contra a desinformação, “que prospera e se multiplica na lixeira da Internet”. Sublinhou, neste ponto, a importância de reforçar a legislação sobre propriedade intelectual, lutando também “contra o abuso de posição dominante dos gigantes da Internet”. E advertiu que, “na democracia do nosso tempo, o poder político parece mais empenhado em dar prioridade à segurança do que em proteger a liberdade”.

O fundador do Expresso e “chairman” do grupo Impresa recebeu a medalha de ouro do Instituto Politécnico de Lisboa (IPL), numa cerimónia comemorativa dos 31 anos da instituição. Nas palavras do presidente do IPL, Elmano Margato, a distinção homenageia “uma figura ímpar e incontornável”, reconhecendo o “muito que Francisco Pinto Balsemão contribuiu, como cidadão, como jornalista e como empresário, para o desenvolvimento do país”. 

Como recorda a revista Visão, “Francisco Pinto Balsemão foi um dos signatários de uma carta aberta de 33 grupos europeus de media, recentemente enviada a Bruxelas, sobre os riscos das novas iniciativas legislativas na área digital”  - tema que vem desenvolvido noutro local deste site. O perigo exposto por esses grandes meios de referência é o de se reforçar a “posição dominante” de gigantes como o Google ou o Facebook, que “usam conteúdos e não pagam, ficam com 80% da publicidade digital, pagam poucos impostos em países como Portugal e dão guarida a falsas notícias e a opiniões sobre elas construídas”  - citando, novamente, Francisco Balsemão. 

Sobre o modo displicente como estas questões são tratadas, o orador deu o exemplo das recentes eleições presidenciais em França, onde se chegou “ao extremo de recorrer aos gigantes da Internet, que são os principais responsáveis pela disseminação das mentiras e das meias verdades, para tentar travar os efeitos daquilo que eles próprios, alegando a neutralidade dos seus algoritmos, contribuíram para gerar”. 

E quanto ao uso das redes sociais, que cada vez mais pessoas assumem como fonte primária de informação, Francisco Balsemão defende que “os jornalistas (e os produtores de conteúdos profissionais de qualidade, em geral) se reposicionem”: 

“No caso do jornalismo, temos cada vez mais de nos dedicar ao como e ao porquê de cada notícia, visto que, mal ou bem, as redes sociais já se encarregam do quando, do onde e do quem” – afirmou. 

Francisco Pinto Balsemão aludiu ainda à “ampla influência” do poder político na área dos media, por exemplo nas nomeações para os órgãos reguladores ou no “financiamento e funcionamento da RTP”. O co-fundador do PSD, que liderou o Governo entre 1981 e 1983, completou que a intervenção dos governos pode reflectir-se também ao “enviar ou reenviar” inspecções das Finanças ou do Trabalho às empresas jornalísticas; ao “patrocinar operações de venda de determinados meios a determinadas empresas, como quase aconteceu com a venda da TVI à PT”; ou ao “perturbar o mercado, como ocorreu com o nado-morto Canal 5, como ia sucedendo com a privatização da RTP e, embora com menores consequências, sucedeu recentemente com a inclusão da RTP3 e da RTP Memória na TDT”. 

Noutro ponto da sua intervenção, Francisco Balsemão disse ainda:

“Para que esse quadro fique completo, deverá assinalar-se a existência de empresas de media que não estão preocupadas em ganhar dinheiro e, assim, garantir a sua independência, mas apenas em influenciar o poder político para, por essa via, garantirem o êxito noutros negócios.” (...)

 
Recorde-se que Francisco Balsemão foi um dos fundadores do Clube Português de Imprensa, que lhe atribuíu, oportunamente, o Prémio Carreira.

 

Mais informação no Jornal de Negócios, a Visão e o Expresso

 

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História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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