Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Para jornalista espanhol veterano publicam-se notícias sem qualquer relevância

Depois de uma carreira de mais de meio século, quase toda passada no El País, o jornalista espanhol Juan Cruz faz um balanço preocupante: “Creio que nos desviámos dos condicionamentos fundamentais do jornalismo. Estamos no tempo da mentira, e a confusão é total. As pessoas, agora, sentem que ninguém as defende da mentira. É um problema grave, que defrontamos desajeitadamente.”

Juan Cruz recebeu o Prémio APM de Honor pelo mérito de toda uma vida profissional e pela sua “defesa intransigente do jornalismo, que tem exercido com rigor, paixão e entusiasmo”. A entrevista que citamos foi feita pela própria Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria. 

Da sua experiência de mais de quatro décadas no El País, onde continua a ser director-adjunto, recorda a importância do “Livro de Estilo” uma novidade na época, que “nos exigia que não disséssemos coisas que não sabíamos”; e do Provedor do Leitor, que podia dizer-nos que “não estavam presentes todos os elementos de uma notícia”. 

A respeito das derivas recentes, da chamada “pós-verdade” e das fake news, Juan Cruz sublinha a “dependência absoluta da verdade no jornalismo” e a importância tanto da credibilidade como da autêntica relevância das notícias: 

“Actualmente, publicamos notícias que só são notícias porque nós o dizemos, não têm qualquer relevância, não mudam a conduta dos cidadãos. São puras tretas.” (...) 

Juan Cruz critica a tendência, sobretudo na televisão mais popular, para fornecer como noticiário uma quantidade de eventos e “acontecimentos” ligeiros ou chocantes. 

“Creio que os media, e entre eles os jornais de referência, têm que procurar diminuir a atracção pela atracção. Destacar qualquer coisa que não tem importância, mas que atrai. Ler é uma responsabilidade civil, é o mais importante que o homem inventou. Embora ler só por ler possa criar monstros. Não temos que ler tudo, há coisas que lemos e nos prejudicam. Por isso, nos jornais, temos a obrigação de conduzir a leitura.” (...)

 

 

A entrevista na íntegra, na Asociación de la Prensa de Madrid

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O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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