Sexta-feira, 15 de Dezembro, 2017
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Os "deslizes do jornalismo" como tema de debate no Brasil

Três jornalistas brasileiros estiveram juntos numa entrevista sobre “os deslizes do jornalismo”  - quando ele erra, quando se precipita, quando publica sem tomar o tempo de investigar. As consequências estão à vista e dividem a classe profissional, a classe política e o público, naturalmente. Conclusão provisória em situações destas, dada por Paula Cesarino, provedora do leitor de A Folha de S. Paulo: “A Imprensa tem que ter mais desconfiança. É saudável a desconfiança do que a Procuradoria fala e do que a defesa fala.”

Muitos problemas resultam dessa pressa em publicar, da natureza parcial das primeiras impressões. Como diz Paula Cesarino: 

“Você tem o desafio da concorrência. Será que você precisa colocar imediatamente e mais rápido que os outros? Sem ter lido, sem ter o mínimo de reflexão, de calma? O que é melhor para o leitor? É ter uma informação mais rápida, mas menos precisa? Ou você ter um pouco mais de tempo para poder dar uma informação de maior qualidade?”

 

Por palavras diferentes, os três jornalistas neste debate acabam por estar de acordo em que todos os intervenientes no processo relatado  - da transcrição de uma frase gravada de Michel Temer, sem o contexto e o resto do discurso, agravada pela prontidão da interpretação que circulou -  não ficaram na posse de uma verdade incontestável.

 

São eles, além da já referida Paula Cesarino, o repórter da Agência Pública, Lucas Ferraz, que faz a entrevista, e o editor do Nexo Jornal, João Paulo Charleaux. A sua conversa, divulgada primeiramente pela Agência Pública, é reproduzida no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

 

A segunda questão vem da origem das fugas de informação que são lançadas para as primeiras páginas, e que saem da “parte acusatória”, a Procuradoria-Geral da República, ou da “delação premiada”, a qual, “pelo que vai se descobrindo, premeia o exagero, aparentemente”. 

João Paulo Charleaux declara que trabalhou neste assunto “e ficou forte para mim a cronologia”. Descreve em pormenor o que ia aparecendo nas primeiras horas do escândalo, a seguir à revelação de O Globo

“A fonte era, até então, uma só. Só depois é que aparece o áudio que, efectivamente, não fala na palavra mesada, na palavra dinheiro, propina… É um diálogo muito menos assertivo, o que fez com que a Folha de S.Paulo dissesse que era um diálogo inconclusivo. A pergunta que a gente se fazia era: de onde veio essa constatação inicial tão forte de que se tratava de um relato de dinheiro? Era uma interpretação de quem? Só então veio o documento da PGR, onde no início se diz que aos 11 minutos e não sei quantos segundos existe um diálogo entre Joesley e o presidente Michel Temer… e aí o procurador preenche as lacunas e afirma que esse trecho do diálogo diz respeito ao pagamento mensal de dinheiro pro Cunha etc. e tal.” (...) 

Sendo embora uma selecção dos “principais trechos”, o discurso do debate, agora proporcionado pelo Observatório da Imprensa, é uma reflexão entre profissionais sobre as fraquezas do seu ofício, uma admissão de erros cometidos e uma reafirmação dos princípios deontológicos a que é sempre necessário voltar: não publicar antes de estar seguro dos factos, ouvir todas as partes envolvidas e assumir prontamente a correcção dos erros publicados.

 

O texto da entrevista, que inclui um vídeo da Agência Pública sobre a mesma e o tema que está na sua origem

 

Connosco
Novo presidente da ERC abstém-se de comentar “dossier” Altice - TVI Ver galeria

Tomou posse, na Assembleia da República, o novo Conselho Regulador da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, tendo como presidente o juiz-conselheiro Sebastião Póvoas. Instado pelos jornalistas a pronunciar-se sobre a questão sensível da compra da Media Capital pela Altice, o magistrado afirmou: “Eu não conheço os dossiers, tomei agora posse; são dossiers complexos e eu venho de uma área em que só nos pronunciamos depois de ler, consultar, ouvir e estudar, e é assim que vou fazer.” O parecer que competia à ERC tornar público, sobre esta matéria, não chegou a ser dado por falta de acordo entre os três membros que estavam em funções até agora.

O "jornalismo - espectáculo" que condena inocentes na praça pública Ver galeria

A investigação de suspeitos de qualquer conduta ilícita ou criminal é realizada pelas autoridades judiciais, que procuram provas para instrução de processo. Tendo conhecimento dessas condutas, também os meios de comunicação fazem a necessária investigação, para apuramento dos factos e posterior publicação. Uns e outros vão cruzar-se no mesmo terreno  - contidos, de ambos os lados, pelo cumprimento da lei e pela deontologia profissional. Mas o pior pode acontecer quando agentes da autoridade e repórteres se juntam para fazer “jornalismo do espectáculo”. A jornalista Nereide Beirão parte do ocorrido em 1994, com o caso que ficou conhecido como Escola Base, em São Paulo. Descreve o que sucedeu e acrescenta o exemplo de mais alguns casos da mesma natureza. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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