Sexta-feira, 22 de Março, 2019
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Os "deslizes do jornalismo" como tema de debate no Brasil

Três jornalistas brasileiros estiveram juntos numa entrevista sobre “os deslizes do jornalismo”  - quando ele erra, quando se precipita, quando publica sem tomar o tempo de investigar. As consequências estão à vista e dividem a classe profissional, a classe política e o público, naturalmente. Conclusão provisória em situações destas, dada por Paula Cesarino, provedora do leitor de A Folha de S. Paulo: “A Imprensa tem que ter mais desconfiança. É saudável a desconfiança do que a Procuradoria fala e do que a defesa fala.”

Muitos problemas resultam dessa pressa em publicar, da natureza parcial das primeiras impressões. Como diz Paula Cesarino: 

“Você tem o desafio da concorrência. Será que você precisa colocar imediatamente e mais rápido que os outros? Sem ter lido, sem ter o mínimo de reflexão, de calma? O que é melhor para o leitor? É ter uma informação mais rápida, mas menos precisa? Ou você ter um pouco mais de tempo para poder dar uma informação de maior qualidade?”

 

Por palavras diferentes, os três jornalistas neste debate acabam por estar de acordo em que todos os intervenientes no processo relatado  - da transcrição de uma frase gravada de Michel Temer, sem o contexto e o resto do discurso, agravada pela prontidão da interpretação que circulou -  não ficaram na posse de uma verdade incontestável.

 

São eles, além da já referida Paula Cesarino, o repórter da Agência Pública, Lucas Ferraz, que faz a entrevista, e o editor do Nexo Jornal, João Paulo Charleaux. A sua conversa, divulgada primeiramente pela Agência Pública, é reproduzida no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

 

A segunda questão vem da origem das fugas de informação que são lançadas para as primeiras páginas, e que saem da “parte acusatória”, a Procuradoria-Geral da República, ou da “delação premiada”, a qual, “pelo que vai se descobrindo, premeia o exagero, aparentemente”. 

João Paulo Charleaux declara que trabalhou neste assunto “e ficou forte para mim a cronologia”. Descreve em pormenor o que ia aparecendo nas primeiras horas do escândalo, a seguir à revelação de O Globo

“A fonte era, até então, uma só. Só depois é que aparece o áudio que, efectivamente, não fala na palavra mesada, na palavra dinheiro, propina… É um diálogo muito menos assertivo, o que fez com que a Folha de S.Paulo dissesse que era um diálogo inconclusivo. A pergunta que a gente se fazia era: de onde veio essa constatação inicial tão forte de que se tratava de um relato de dinheiro? Era uma interpretação de quem? Só então veio o documento da PGR, onde no início se diz que aos 11 minutos e não sei quantos segundos existe um diálogo entre Joesley e o presidente Michel Temer… e aí o procurador preenche as lacunas e afirma que esse trecho do diálogo diz respeito ao pagamento mensal de dinheiro pro Cunha etc. e tal.” (...) 

Sendo embora uma selecção dos “principais trechos”, o discurso do debate, agora proporcionado pelo Observatório da Imprensa, é uma reflexão entre profissionais sobre as fraquezas do seu ofício, uma admissão de erros cometidos e uma reafirmação dos princípios deontológicos a que é sempre necessário voltar: não publicar antes de estar seguro dos factos, ouvir todas as partes envolvidas e assumir prontamente a correcção dos erros publicados.

 

O texto da entrevista, que inclui um vídeo da Agência Pública sobre a mesma e o tema que está na sua origem

 

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O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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