Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
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Os "deslizes do jornalismo" como tema de debate no Brasil

Três jornalistas brasileiros estiveram juntos numa entrevista sobre “os deslizes do jornalismo”  - quando ele erra, quando se precipita, quando publica sem tomar o tempo de investigar. As consequências estão à vista e dividem a classe profissional, a classe política e o público, naturalmente. Conclusão provisória em situações destas, dada por Paula Cesarino, provedora do leitor de A Folha de S. Paulo: “A Imprensa tem que ter mais desconfiança. É saudável a desconfiança do que a Procuradoria fala e do que a defesa fala.”

Muitos problemas resultam dessa pressa em publicar, da natureza parcial das primeiras impressões. Como diz Paula Cesarino: 

“Você tem o desafio da concorrência. Será que você precisa colocar imediatamente e mais rápido que os outros? Sem ter lido, sem ter o mínimo de reflexão, de calma? O que é melhor para o leitor? É ter uma informação mais rápida, mas menos precisa? Ou você ter um pouco mais de tempo para poder dar uma informação de maior qualidade?”

 

Por palavras diferentes, os três jornalistas neste debate acabam por estar de acordo em que todos os intervenientes no processo relatado  - da transcrição de uma frase gravada de Michel Temer, sem o contexto e o resto do discurso, agravada pela prontidão da interpretação que circulou -  não ficaram na posse de uma verdade incontestável.

 

São eles, além da já referida Paula Cesarino, o repórter da Agência Pública, Lucas Ferraz, que faz a entrevista, e o editor do Nexo Jornal, João Paulo Charleaux. A sua conversa, divulgada primeiramente pela Agência Pública, é reproduzida no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

 

A segunda questão vem da origem das fugas de informação que são lançadas para as primeiras páginas, e que saem da “parte acusatória”, a Procuradoria-Geral da República, ou da “delação premiada”, a qual, “pelo que vai se descobrindo, premeia o exagero, aparentemente”. 

João Paulo Charleaux declara que trabalhou neste assunto “e ficou forte para mim a cronologia”. Descreve em pormenor o que ia aparecendo nas primeiras horas do escândalo, a seguir à revelação de O Globo

“A fonte era, até então, uma só. Só depois é que aparece o áudio que, efectivamente, não fala na palavra mesada, na palavra dinheiro, propina… É um diálogo muito menos assertivo, o que fez com que a Folha de S.Paulo dissesse que era um diálogo inconclusivo. A pergunta que a gente se fazia era: de onde veio essa constatação inicial tão forte de que se tratava de um relato de dinheiro? Era uma interpretação de quem? Só então veio o documento da PGR, onde no início se diz que aos 11 minutos e não sei quantos segundos existe um diálogo entre Joesley e o presidente Michel Temer… e aí o procurador preenche as lacunas e afirma que esse trecho do diálogo diz respeito ao pagamento mensal de dinheiro pro Cunha etc. e tal.” (...) 

Sendo embora uma selecção dos “principais trechos”, o discurso do debate, agora proporcionado pelo Observatório da Imprensa, é uma reflexão entre profissionais sobre as fraquezas do seu ofício, uma admissão de erros cometidos e uma reafirmação dos princípios deontológicos a que é sempre necessário voltar: não publicar antes de estar seguro dos factos, ouvir todas as partes envolvidas e assumir prontamente a correcção dos erros publicados.

 

O texto da entrevista, que inclui um vídeo da Agência Pública sobre a mesma e o tema que está na sua origem

 

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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