Quarta-feira, 16 de Agosto, 2017
Fórum

O dilema de proteger as fontes jornalísticas na era digital

“Os jornalistas têm de lutar com mais dificuldades do que nunca para protegerem as suas fontes, e estas ficam cada vez mais relutantes em falar. Este ambiente torna a reportagem mais lenta e menos frutuosa.” Esta conclusão é da Human Rights Watch, mas há mais organizações a estudar o fenómeno, chegando a resultados semelhantes. O Pew Research Center também fez a sua investigação sobre “percepções de vulnerabilidade e alterações de comportamento” entre os jornalistas de investigação, e a UNESCO publicou um relatório sobre “Protecção das Fontes na Era Digital”.

A chegada da informática foi, no entanto, saudada como uma espécie de movimento de libertação. Gerard Ryle, director do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (conhecido pela sigla ICIJ, e famoso pelo tratamento dos Panama Papers), disse que a era digital seria uma “Idade de Ouro para o Jornalismo”: 

“A tecnologia torna possível que a informação seja divulgada a uma vasta escala, que não poderia ter sido imaginada. Para mim, como jornalista, estes tempos são de euforia [boom times, no original], porque podemos colher informação incrivelmente detalhada e notícias que não era possível obter antes.” 

O outro lado deste desenvolvimento é que ele teve consequências para “o jornalismo depois de Snowden”.

Daoud Kuttab, fundador da Arabic Media Internet Network, sintetiza os dois aspectos da questão:

“Por um lado, eu acho que acelerou e alargou a quantidade de dados que ficam acessíveis a toda a gente, e tornou muito fácil transferir informação e documentos. Mas, ao mesmo tempo, os governos são também capazes de invadir a nossa privacidade muito mais facilmente, e colher informação.”

Martin Baron, famoso pelo seu papel na equipa Spotlight, do Boston Globe, e hoje director do Washington Post, explica como estas preocupações alteraram o comportamento dos profissionais, durante a cobertura do material de Snowden: 

“Eu não esperava que tivéssemos de chegar a comunicar uns com os outros de forma cifrada e, no entanto, foi isso mesmo que sucedeu. Em muitas ocasiões, quando nos reuníamos toda a gente desligava os telemóveis, ou nem sequer os levava consigo.” 

Alan Rusbridger, que foi editor principal do The Guardian, põe em causa que o jornalismo de investigação baseado em fontes confidenciais ainda seja possível na era digital  - a menos que os jornalistas regressem ao básico: 

“Eu sei que o jornalismo de investigação já acontecia antes da invenção do telefone, e acho que estamos a voltar literalmente a essa idade, quando a única coisa segura que havia era o contacto face a face, envelopes cinzentos, encontros em parques, esse tipo de coisas.”

 

O artigo na íntegra, no site da GIJN, e o relatório da UNESCO aqui referido

Connosco
Modos de combater a vigilância electrónica sobre jornalistas e as suas fontes Ver galeria

Jornalistas que tenham de trabalhar em ambientes autoritários tendem a ser alvo de vigilância electrónica. Muitos acabam por se adaptar e aceitá-la como um risco indesejado, mas inevitável na sua profissão. Ou podem tentar combatê-la. “Afinal de contas, ela ameaça a sua segurança, bem como das suas fontes, e constitui um ataque à liberdade de Imprensa e de expressão.” A reflexão é do jornalista mexicano Jorge Luis Sierra, perito em segurança digital, que adianta alguns conselhos práticos para casos destes. 

A avalancha da Internet atropelou a nossa capacidade de lidar com tantos dados Ver galeria

A grande revolução nas rotinas e normas do jornalismo foi-nos imposta, não pelo computador, mas pela Internet, quando “a avalancha informativa e as redes sociais virtuais atropelaram a capacidade das redacções processarem informações; (...) o volume cresceu em tal magnitude que se tornaram incapazes de lidar com tantos dados, factos e eventos”.

A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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Opinião
Ser Jornalista
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