Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
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O dilema de proteger as fontes jornalísticas na era digital

“Os jornalistas têm de lutar com mais dificuldades do que nunca para protegerem as suas fontes, e estas ficam cada vez mais relutantes em falar. Este ambiente torna a reportagem mais lenta e menos frutuosa.” Esta conclusão é da Human Rights Watch, mas há mais organizações a estudar o fenómeno, chegando a resultados semelhantes. O Pew Research Center também fez a sua investigação sobre “percepções de vulnerabilidade e alterações de comportamento” entre os jornalistas de investigação, e a UNESCO publicou um relatório sobre “Protecção das Fontes na Era Digital”.

A chegada da informática foi, no entanto, saudada como uma espécie de movimento de libertação. Gerard Ryle, director do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (conhecido pela sigla ICIJ, e famoso pelo tratamento dos Panama Papers), disse que a era digital seria uma “Idade de Ouro para o Jornalismo”: 

“A tecnologia torna possível que a informação seja divulgada a uma vasta escala, que não poderia ter sido imaginada. Para mim, como jornalista, estes tempos são de euforia [boom times, no original], porque podemos colher informação incrivelmente detalhada e notícias que não era possível obter antes.” 

O outro lado deste desenvolvimento é que ele teve consequências para “o jornalismo depois de Snowden”.

Daoud Kuttab, fundador da Arabic Media Internet Network, sintetiza os dois aspectos da questão:

“Por um lado, eu acho que acelerou e alargou a quantidade de dados que ficam acessíveis a toda a gente, e tornou muito fácil transferir informação e documentos. Mas, ao mesmo tempo, os governos são também capazes de invadir a nossa privacidade muito mais facilmente, e colher informação.”

Martin Baron, famoso pelo seu papel na equipa Spotlight, do Boston Globe, e hoje director do Washington Post, explica como estas preocupações alteraram o comportamento dos profissionais, durante a cobertura do material de Snowden: 

“Eu não esperava que tivéssemos de chegar a comunicar uns com os outros de forma cifrada e, no entanto, foi isso mesmo que sucedeu. Em muitas ocasiões, quando nos reuníamos toda a gente desligava os telemóveis, ou nem sequer os levava consigo.” 

Alan Rusbridger, que foi editor principal do The Guardian, põe em causa que o jornalismo de investigação baseado em fontes confidenciais ainda seja possível na era digital  - a menos que os jornalistas regressem ao básico: 

“Eu sei que o jornalismo de investigação já acontecia antes da invenção do telefone, e acho que estamos a voltar literalmente a essa idade, quando a única coisa segura que havia era o contacto face a face, envelopes cinzentos, encontros em parques, esse tipo de coisas.”

 

O artigo na íntegra, no site da GIJN, e o relatório da UNESCO aqui referido

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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Francisco Sarsfield Cabral
O caso da participação num programa matinal da TVI de um racista, já condenado e tendo cumprido pena de prisão, Mário Machado, suscitou polémica. Ainda bem, porque as questões em causa são importantes. Mas, como é costume, o debate rapidamente derivou para um confronto entre a esquerda indignada por se ter dado tempo de antena a um criminoso fascista e a direita defendendo a liberdade de expressão e a dualidade de...
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