Quinta-feira, 18 de Julho, 2019
Estudo

Os algoritmos tomaram poder a mais. Poderemos metê-los na ordem?

Os algoritmos estão por todo o lado na nossa vida de todos os dias, e exercem muito poder na sociedade. “Eles arrumam por ordem de prioridade, classificam, ligam e filtram informação, e estão sempre a tomar decisões por nós, automaticamente.” Uma questão que nos interessa: estes algoritmos serão imparciais? Podemos chamá-los à responsabilidade? Há uma área, no jornalismo de investigação, que está a pensar nisso. Podemos “picar” os algoritmos e tentar perceber como eles “respondem”. Esta reflexão é de Nicholas Diakopoulos, assistente na Universidade de Maryland, um investigador interessado na responsabilização dos algoritmos.

As polémicas em volta deste assunto são recentes e têm a ver com eleições e referendos. Já foi demonstrado que, “beliscando os algoritmos na fonte do fluxo noticioso do Facebook, é possível influenciar o sentido dos votantes nas eleições americanas”. Já agora, “se Mark Zuckerberg quiser algum dia concorrer à Presidência, teoricamente teria uma ferramenta com um poder enorme à sua disposição”... 

Sobre a questão da justiça e imparcialidade dos algoritmos, o autor do artigo que citamos conta dois episódios de possível discriminação racial  -  um deles é a “análise de risco” calculada para outorgar a saída condicional de um preso, ou os tempos de espera da Uber em Washington, num bairro maioritariamente branco ou não. 

“Há uma quantidade de jornalismo de investigação que ainda pode ser feito neste campo. De modo geral, tentando ‘picar’ os algoritmos para ver como respondem  - fazendo a relação entre consequência e causa [output & input, no original] -  podemos tentar perceber de que modo eles funcionam. Jornalistas de investigação podem entrar neste jogo, recolher e analisar os dados e determinar se os resultados são justos ou discriminatórios. Ou talvez eles conduzam a outras consequências negativas ou indesejáveis  -  censura, atropelo da lei, violações de privacidade ou previsões falsas.” (...) 

“Mas talvez seja mais importante e necessário interrogarmo-nos sobre quais são as nossas expectativas. O que é que consideramos serem algoritmos ‘justos’? Pessoas diferentes vão ter leituras diferentes sobre isso, mas talvez não devamos deixar que continuem a ser os algoritmos a decidir por nós.” 

No final da sua reflexão, Nicholas Diakopoulos deixa aos jornalistas interessados nesta matéria a sugestão de um site com boas “dicas”, só para começar:  algorithmtips.org


O artigo original, reproduzido na Global Investigative Journalism Network

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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Set