Quinta-feira, 18 de Julho, 2019
Media

A Turquia tornou-se o "maior cárcere de jornalistas do mundo"

O divórcio litigioso entre o povo turco e o seu governo começou há quatro anos, em Maio de 2013, quando grupos de ambientalistas ocuparam o Parque Taksim Gezi, manifestando-se contra o arranque das árvores para dar lugar à reconstrução de um quartel. “Três anos mais tarde, e depois de violentas repressões, Ankara tomou a desforra. Já não há vozes que se levantem contra o Sultão da Europa.”  É esta a reflexão de Beatriz Yubero, jornalista espanhola que, em Agosto de 2016, foi deportada da Turquia, onde fazia um doutoramento.

“Esta é a nova Turquia, o projecto ‘neo-otomanista’ do presidente Erdogan que, graças ao fracassado golpe de Estado de 15 de Julho  - que deixou 290 mortos e mais de 78 mil detidos -  tomou um impulso inesperado”  -  escreve Beatriz Yubero num texto publicado em Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

“Este levantamento foi uma grande prenda que Deus nos deu”  - disse então Erdogan. O movimento Hizmet, dirigido por Fetullah Güllen, foi prontamente acusado de ser o verdadeiro promotor do golpe. A autora deste comentário recorda que, em Dezembro de 2013, Güllen desvendou “o maior caso de corrupção do AKP”, o partido de Erdogan. 

“No entanto, a Turquia tem hoje muito mais inimigos do que os gulenistas. As purgas políticas afectaram directamente os seculares laicos, os curdos, os académicos e, nesta última etapa, especialmente os jornalistas.” (...) 

Beatriz Yubero descreve os vários passos desta repressão, que passa pela promoção de meios afectos à política oficial (havuz medyasi), ataque directo ou intimidação dos restantes, e desemboca na situação presente: 

“Ankara fechou nos últimos quatro meses um total de 195 meios de comunicação e prendeu quase 150 jornalistas nacionais, a quem o Governo acusou de terrorismo e difusão de propaganda terrorista. Os centros desportivos transformaram-se em pavilhões de terror onde se amordaça a Imprensa livre. Segundo a Plataforma para o Jornalismo Independente, 3.000 profissionais do sector da comunicação foram despedidos deste a intentona golpista. Exceptuando alguns meios na Internet  - como Diken, Gazete Duvar e T24 -  depois da rusga sobre o diário ‘kemalista’ Cumhuriyet, podemos afirmar que praticamente já não existe qualquer voz de oposição entre os media na Turquia.” 

E, citando o Comité para a Protecção dos Jornalistas, Beatriz Yubero descreve a Turquia de hoje como “o maior cárcere de jornalistas do mundo”.

 

O artigo na íntegra, em Cuadernos de Periodistas, e o site do think tank a que pertence a autora, Baab al Shams

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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