Quarta-feira, 16 de Agosto, 2017
Media

Quando o jornalismo de investigação se investiga a si mesmo

“Pode bem acontecer que uma reportagem seja verdadeira, mas esteja errada”  -  afirmou Robert Gebellof, do New York Times, na Conferência Europeia de Jornalismo de Investigação realizada em Mechelen, na Bélgica. “Podemos fazer as contas certas, mas pôr o contexto errado, não reconhecer as incertezas ou não descrever correctamente as conclusões.” Ouvir este diagnóstico da parte de um reconhecido especialista em análise de dados pode parecer surpreendente, ou mesmo desencorajador, para qualquer profissional interessado em melhorar a qualidade do seu trabalho jornalístico. 

“No jornalismo de dados, não podemos contentar-nos com a ‘meia-verdade”  - disse ainda Gebeloff. E, ao contrário do que fazem sites de fact-checking como o Politifact, que criaram “escalas” de veracidade que vão do falso ao verdadeiro passando por tudo o que fica no meio, o jornalismo de dados tem de ser sempre verdadeiro. 

O que propõe, no fundo, é uma disciplina de exactidão intransigente no tratamento dos números, para resistir à tentação comum de retirar deles conclusões apressadas. Por outras palavras, mesmo os números nos podem enganar, se não soubermos lê-los. 

Na sua palestra, Robert Gebeloff procurou explicar o que é “estatisticamente significativo” no exame dos dados que nos são fornecidos sobre uma determinada questão, e de que modo podemos chegar a conclusões erradas, julgando-nos seguros pela sua evidência. 

Também pode acontecer que o tratamento de dados com muita contribuição estatística seja útil para explorar “relações complexas” mas, ao mesmo tempo, torne a história mais difícil de explicar aos leitores. Ele próprio conta que já deixou de escrever uma reportagem porque “nunca conseguiria explicar os métodos” ao seu público. E isso é indispensável. 

A palestra de Robert Gebeloff termina com um lista de seis pontos de verificação de factos, proposta aos profissionais que queiram fazer autêntico jornalismo de investigação, verdadeiro e correcto.

 

 

Mais informação na síntese da jornalista Winny de Yong, aqui citada da Global Investigative Journalism Network

Connosco
Modos de combater a vigilância electrónica sobre jornalistas e as suas fontes Ver galeria

Jornalistas que tenham de trabalhar em ambientes autoritários tendem a ser alvo de vigilância electrónica. Muitos acabam por se adaptar e aceitá-la como um risco indesejado, mas inevitável na sua profissão. Ou podem tentar combatê-la. “Afinal de contas, ela ameaça a sua segurança, bem como das suas fontes, e constitui um ataque à liberdade de Imprensa e de expressão.” A reflexão é do jornalista mexicano Jorge Luis Sierra, perito em segurança digital, que adianta alguns conselhos práticos para casos destes. 

A avalancha da Internet atropelou a nossa capacidade de lidar com tantos dados Ver galeria

A grande revolução nas rotinas e normas do jornalismo foi-nos imposta, não pelo computador, mas pela Internet, quando “a avalancha informativa e as redes sociais virtuais atropelaram a capacidade das redacções processarem informações; (...) o volume cresceu em tal magnitude que se tornaram incapazes de lidar com tantos dados, factos e eventos”.

A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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Opinião
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