Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Mulheres jornalistas espanholas contam a sua história em cenário de guerra

Muitas das reportagens de guerra que hoje lemos, ou cujas imagens nos impressionam, realizadas nos campos de batalha mais perigosos do mundo, são feitas por mulheres jornalistas. O seu número está em crescimento e só não há mais, como conta a freelance Ana Alba, que cobriu as guerras da Sérvia, Iraque, Montenegro, Kosovo e as duas Intifadas, porque agora “pedem-se crónicas grátis, ou quase, a jovens, para não ter de mandar pessoas com experiência e poupar nos seguros de vida”.

Estas palavras são de outra jornalista espanhola, Ana del Paso, que apresentou uma tese de doutoramento, na Universidade Complutense de Madrid, intitulada “Rol de las periodistas españolas enviadas a conflictos armados”, sobre os depoimentos de 32 repórteres que viveram esta experiência.

Uma das primeiras coisas que nos explica é que, se todos conhecemos as imagens e a fama de Robert Kapa, título profissional de um fotógrafo húngaro chamado Endre Ernö, co-fundador da Agência Magnum, que cobriu a guerra civil espanhola e a II Guerra Mundial, poucos sabem que a sua companheira, Gerda Taro, trabalhava com ele, e Robert Kapa era o seu pseudónimo comum, pelo que nem sempre é certo identificar a autoria exacta de determinadas imagens.  

Na sua tese, Ana del Paso descreve a outra guerra que tinham de vencer, junto dos seus meios de comunicação, para serem enviadas a locais de conflito armado. Carmen Sarmiento, da TVE, não conseguiu ser correspondente na guerra do Vietname, mas só nos anos 80 na guerra civil de El Salvador, época em que Rosa María Calaf, também da TVE, pôde trabalhar no Líbano. 

Como conta a autora desta tese, que aqui citamos de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid  - com a qual mantemos um acordo de parceria: 

Naiara Galarraga, subdirectora do Internacional de El País, afirma que sempre se sentiu “estranha ao conceito de correspondente de guerra”, declarando-se antes “firme partidária de que o jornalista se especialize, ou cubra uma zona do mundo, e que se ocupe de tudo o que lhe diz respeito, seja ou não um conflito armado”: 

“Creio que a cobertura resulta mais rica desta forma, melhor do que com enviados especiais que vão de conflito em conflito”. (...) 

Marie Colvin, jornalista de The Guardian, assassinada pelo Daesh em Fevereiro de 2012, na localidade síria de Homs, dizia: 

“Fazer jornalismo de guerra continua a ser basicamente o mesmo, alguém tem que lá ir e ver o que está a acontecer. Não se pode conseguir a informação sem ir aos lugares onde as pessoas estão a ser atingidas e onde disparam contra ti.” Sublinhava que o importante era uma pessoa tornar-se “apaixonada e envolvida por aquilo em que acredita, e fazê-lo o mais completa e hostamente que seja capaz, e sempre sem medo.” 

Sobre jornalistas desta têmpera, Ana del Paso conclui: 

“São, como os seus companheiros masculinos, contadoras de histórias em cenários hostis, àqueles aonde ninguém que ir, porque estão mais perto do inferno do que da terra. São mulheres em guerra para dar voz aos que não a têm, mas cujos nomes constam sempre nas listas de baixas dos conflitos armados. Elas não são alheias a estas vítimas e pensam que, por meio do jornalismo, se pode construir um mundo melhor.”

 

 

O texto de Ana del Paso, na íntegra, em Cuadernos de Periodistas, da APM

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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