Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Plataformas digitais provocam indefinição e geram uma crise de credibilidade nos Media

É verdade que a transição tecnológica do impresso para o digital trouxe problemas novos ao jornalismo tradicional, mas a questão de fundo é “cultural e estrutural”. Também é verdade que o sustento dos media baseado na publicidade perdeu, só nos EUA, cerca de 70% durante a última década, e por esse lado é certo que “todo o poder está sendo transferido para as plataformas  - e para as que o podem fazer em grande escala”. Estas reflexões são de Joshua Benton, director do NiemanLab, em entrevista ao Observatório da Imprensa do Brasil  - com o qual mantemos um acordo de parceria.

É uma longa entrevista, com respostas bem informadas a perguntas pertinentes. Descreve, sobretudo, a experiência recente do jornalismo nos Estados Unidos  -  mas foi lá que se desenvolveu, até às dimensões que hoje lhe conhecemos, a indústria digital e as grandes plataformas de distribuição. 

Uma das primeiras perguntas do entrevistador, o jornalista Francisco Rolfsen Belda, é sobre uma afirmação recente do entrevistado, quando escreveu que “o noticiário local está sendo esmagado pelas plataformas gigantes controladas por umas poucas empresas de tecnologia de Silicon Valley” e que “as coisas podem piorar nos próximos anos”. Responde Joshua Benton: 

“No espaço que ela [a publicidade impressa] ocupava veio uma plataforma como o Facebook, uma plataforma como o Twitter, um motor de busca como o Google. O que eles fazem é remontar as partes. O Google sabe exactamente aquilo que você procura. O Facebook sabe exactamente o que os seus amigos estão compartilhando. O Twitter permite que você seleccione exactamente aquilo que lhe interessa. O resultado disso é que essas plataformas, que colectam informações de uma porção de lugares diferentes e as reúnem num pacote, ganham um poder imenso.” (...) 

“Actualmente, muitos desses anunciantes só querem fazer negócio directamente com os websites muito grandes. Em consequência disso, se não tiver 10 milhões de visitas únicas por mês, nos EUA, um grande número de anunciantes nem se preocupará em falar consigo. Você está fora da escala. (...) Se for um editor local numa cidade de 50 mil pessoas, será basicamente impossível atingir essa escala. Não há um número suficiente de pessoas interessadas em suas notícias locais. Acho que isso as deixa numa posição muito inquietante, pois o forte vínculo que tinham com muitos dos seus leitores foi quebrado.” (...) 

Joshua Benton explica também que “essa transição de poder para uma plataforma é o elemento mais importante dos telefones móveis”. (...) 

“Por um lado, as redes irão ficar cada vez mais rápidas. Também os telefones ficarão mais rápidos, bem como os motores de javascript. De certa forma, você poderia imaginar que a tecnologia está se encarregando de resolver parte do problema. Porém, ao mesmo tempo, planos de dados significam que as pessoas dão valor ao que vai para o seu telefone de maneira diferente daquela que dão ao que vai para o seu laptop ou o desktop. A velocidade é mais importante numa conexão lenta. A quantidade de dados é mais importante numa conexão móvel. Acho que se pode analisar o bloqueio de anúncios por essa lente. De certa forma, é uma reacção razoável a toda a porcaria que você não queria em seu telefone.” (...) 

Sobre o sustento dos jornais

“Se você for um editor inteligente nos dias de hoje, e se está tentando descobrir como ganhar dinheiro online, provavelmente estará procurando outras maneiras, e não a publicidade. O New York Times tem um milhão de pessoas que pagam por uma assinatura digital. Muitos outros jornais também tentaram, com menos sucesso. Entretanto, do ponto de vista ideal, você iria preferir que sua receita online não fosse 100% de publicidade, pois o mercado da publicidade é cíclico. A direcção em que ele vai, de uma maneira geral, não tem sido favorável aos pequenos editores.” (...)

“Leva tempo para que as novas formas de comunicação evoluam. Hoje, nós temos 20 anos de World Wide Web. Temos ainda menos tempo de apps em telefones. Temos 10 anos de Podcast. Seja como você dividir essas áreas, a coisa ainda é nova. Acho que ainda estamos negociando quais são as formas certas, e quais os veículos que os leitores estão tentando descobrir em que devem confiar e nos que não devem, a quais deles querem pagar dinheiro e a quais não querem.” (...) 

Sobre esta última questão, da credibilidade dos media

“A ideia de criar credibilidade nos media, agora é quase impossível, porque não há uma definição rigorosa do que os media são. Media digital pode ser qualquer pessoa. Pode ser o seu amigo compartilhando uma ideia idiota no Facebook, ou pode ser uma investigação vencedora de um prêmio Pulitzer. Nesse caso… você não está preocupado com os media. Está preocupado com a sua marca, porque é isso que você controla. (...) 

“Qualquer pessoa pode ter uma conta no Twitter. Qualquer pessoa pode ter um blog. Qualquer pessoa pode postar qualquer coisa no Facebook. Qualquer pessoa pode publicar. Na medida em que isso é verdade, media deixa de ser uma referência determinante para credibilidade, porque se torna o equivalente a perguntar: ‘Você confia nas palavras que saem da boca das pessoas?’

Eu confio nas palavras que saem da boca de uma porção de pessoas, mas não confio em todas as pessoas, porque isso seria uma coisa idiota.” (...)

 

"Quando as pessoas pensam nos media nos dias de hoje, podem estar pensando no New York Times ou na CNN, mas também podem estar pensando num blog terrivelmente racista que visitaram, assim como podem num meio muito tendencioso, em termos políticos, ou podem estar pensando no boletim eletrónico que aquele tio maluco acabou de lhes encaminhar." (...)



A entrevista na íntegra, no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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