null, 17 de Dezembro, 2017
Media

Plataformas digitais provocam indefinição e geram uma crise de credibilidade nos Media

É verdade que a transição tecnológica do impresso para o digital trouxe problemas novos ao jornalismo tradicional, mas a questão de fundo é “cultural e estrutural”. Também é verdade que o sustento dos media baseado na publicidade perdeu, só nos EUA, cerca de 70% durante a última década, e por esse lado é certo que “todo o poder está sendo transferido para as plataformas  - e para as que o podem fazer em grande escala”. Estas reflexões são de Joshua Benton, director do NiemanLab, em entrevista ao Observatório da Imprensa do Brasil  - com o qual mantemos um acordo de parceria.

É uma longa entrevista, com respostas bem informadas a perguntas pertinentes. Descreve, sobretudo, a experiência recente do jornalismo nos Estados Unidos  -  mas foi lá que se desenvolveu, até às dimensões que hoje lhe conhecemos, a indústria digital e as grandes plataformas de distribuição. 

Uma das primeiras perguntas do entrevistador, o jornalista Francisco Rolfsen Belda, é sobre uma afirmação recente do entrevistado, quando escreveu que “o noticiário local está sendo esmagado pelas plataformas gigantes controladas por umas poucas empresas de tecnologia de Silicon Valley” e que “as coisas podem piorar nos próximos anos”. Responde Joshua Benton: 

“No espaço que ela [a publicidade impressa] ocupava veio uma plataforma como o Facebook, uma plataforma como o Twitter, um motor de busca como o Google. O que eles fazem é remontar as partes. O Google sabe exactamente aquilo que você procura. O Facebook sabe exactamente o que os seus amigos estão compartilhando. O Twitter permite que você seleccione exactamente aquilo que lhe interessa. O resultado disso é que essas plataformas, que colectam informações de uma porção de lugares diferentes e as reúnem num pacote, ganham um poder imenso.” (...) 

“Actualmente, muitos desses anunciantes só querem fazer negócio directamente com os websites muito grandes. Em consequência disso, se não tiver 10 milhões de visitas únicas por mês, nos EUA, um grande número de anunciantes nem se preocupará em falar consigo. Você está fora da escala. (...) Se for um editor local numa cidade de 50 mil pessoas, será basicamente impossível atingir essa escala. Não há um número suficiente de pessoas interessadas em suas notícias locais. Acho que isso as deixa numa posição muito inquietante, pois o forte vínculo que tinham com muitos dos seus leitores foi quebrado.” (...) 

Joshua Benton explica também que “essa transição de poder para uma plataforma é o elemento mais importante dos telefones móveis”. (...) 

“Por um lado, as redes irão ficar cada vez mais rápidas. Também os telefones ficarão mais rápidos, bem como os motores de javascript. De certa forma, você poderia imaginar que a tecnologia está se encarregando de resolver parte do problema. Porém, ao mesmo tempo, planos de dados significam que as pessoas dão valor ao que vai para o seu telefone de maneira diferente daquela que dão ao que vai para o seu laptop ou o desktop. A velocidade é mais importante numa conexão lenta. A quantidade de dados é mais importante numa conexão móvel. Acho que se pode analisar o bloqueio de anúncios por essa lente. De certa forma, é uma reacção razoável a toda a porcaria que você não queria em seu telefone.” (...) 

Sobre o sustento dos jornais

“Se você for um editor inteligente nos dias de hoje, e se está tentando descobrir como ganhar dinheiro online, provavelmente estará procurando outras maneiras, e não a publicidade. O New York Times tem um milhão de pessoas que pagam por uma assinatura digital. Muitos outros jornais também tentaram, com menos sucesso. Entretanto, do ponto de vista ideal, você iria preferir que sua receita online não fosse 100% de publicidade, pois o mercado da publicidade é cíclico. A direcção em que ele vai, de uma maneira geral, não tem sido favorável aos pequenos editores.” (...)

“Leva tempo para que as novas formas de comunicação evoluam. Hoje, nós temos 20 anos de World Wide Web. Temos ainda menos tempo de apps em telefones. Temos 10 anos de Podcast. Seja como você dividir essas áreas, a coisa ainda é nova. Acho que ainda estamos negociando quais são as formas certas, e quais os veículos que os leitores estão tentando descobrir em que devem confiar e nos que não devem, a quais deles querem pagar dinheiro e a quais não querem.” (...) 

Sobre esta última questão, da credibilidade dos media

“A ideia de criar credibilidade nos media, agora é quase impossível, porque não há uma definição rigorosa do que os media são. Media digital pode ser qualquer pessoa. Pode ser o seu amigo compartilhando uma ideia idiota no Facebook, ou pode ser uma investigação vencedora de um prêmio Pulitzer. Nesse caso… você não está preocupado com os media. Está preocupado com a sua marca, porque é isso que você controla. (...) 

“Qualquer pessoa pode ter uma conta no Twitter. Qualquer pessoa pode ter um blog. Qualquer pessoa pode postar qualquer coisa no Facebook. Qualquer pessoa pode publicar. Na medida em que isso é verdade, media deixa de ser uma referência determinante para credibilidade, porque se torna o equivalente a perguntar: ‘Você confia nas palavras que saem da boca das pessoas?’

Eu confio nas palavras que saem da boca de uma porção de pessoas, mas não confio em todas as pessoas, porque isso seria uma coisa idiota.” (...)

 

"Quando as pessoas pensam nos media nos dias de hoje, podem estar pensando no New York Times ou na CNN, mas também podem estar pensando num blog terrivelmente racista que visitaram, assim como podem num meio muito tendencioso, em termos políticos, ou podem estar pensando no boletim eletrónico que aquele tio maluco acabou de lhes encaminhar." (...)



A entrevista na íntegra, no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
Novo presidente da ERC abstém-se de comentar “dossier” Altice - TVI Ver galeria

Tomou posse, na Assembleia da República, o novo Conselho Regulador da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, tendo como presidente o juiz-conselheiro Sebastião Póvoas. Instado pelos jornalistas a pronunciar-se sobre a questão sensível da compra da Media Capital pela Altice, o magistrado afirmou: “Eu não conheço os dossiers, tomei agora posse; são dossiers complexos e eu venho de uma área em que só nos pronunciamos depois de ler, consultar, ouvir e estudar, e é assim que vou fazer.” O parecer que competia à ERC tornar público, sobre esta matéria, não chegou a ser dado por falta de acordo entre os três membros que estavam em funções até agora.

Sobre a “decadência das redacções”, a dúvida de ser jornalista Ver galeria

“A decadência das redações e a diminuição do número de alunos cursando jornalismo apontam na direção da extinção da profissão de repórter?” A pergunta é do jornalista brasileiro Carlos Wagner, que compara a situação que encontrou há 40 anos, quando começou a sua carreira de repórter de investigação, com aquela que hoje enfrentam os novos candidatos. Para a geração dos seus pais (a mãe opunha-se a que ele seguisse este caminho), “os jornalistas tinham fama de bêbados, boémios, comunistas e de ‘língua de lavadeira’.” Mas “a preocupação dos pais da geração de repórteres que entra na faculdade no próximo ano é se ainda existirá a profissão quando o filho acabar o curso”. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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