Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Fórum

A "cruz vermelha" usada no Facebook para filtrar conteúdos indesejáveis

O problema da moderação de conteúdos, tornado mais urgente depois da proliferação de “notícias falsas” e outras agressões de toda a natureza, levou o Facebook a desenvolver as suas equipas de controlo prévio à edição. Foi anunciado que vai haver mais três mil moderadores só para a revisão dos vídeos “ao vivo”, colocados pelos utentes. Com as dimensões que tem o tráfego mundial da plataforma, muitos se interrogam sobre como funciona este esforço. O jornal britânico The Guardian obteve documentos internos que permitem ter uma ideia do que se passa, e Emily Bell faz a reflexão possível neste momento.

O volume de tráfego é de tal ordem que impõe aos “moderadores” uma urgência de decisão quase insuportável. Há tanto material a chegar constantemente, com violência explícita, apelo ao ódio, terrorismo, pornografia (incluindo revenge porn, a exibição de imagens que podem ter sido realizadas por consenso, mas que são utilizadas mais tarde como vingança ou para efeitos de extorsão), que os operadores da moderação de conteúdos reconhecem que têm de tomar decisões “em dez segundos”... 

O problema que vem com este é o da justeza da decisão: o que é que pode passar? Na prática, a empresa está a formular os seus próprios códigos de conduta sobre o que é adequado mostrar ou não, para instrução dos funcionários responsáveis por essa missão. 

Emily Bell cita alguns exemplos concretos de posts com expressões de violência e descreve um dos procedimentos usados na triagem  - uma cruz vermelha para assinalar o que deve ser apagado, e a marca de check, a verde, para o que é aceitável -  que, de passagem, lhe parece infeliz. 

Outro problema resulta de uma coisa que é boa à partida, na cultura de Silicon Valley, mas que acaba por ser mal usada. “As raízes da moderação, no Facebook, assentam nas instituições policiais e legais, e por esse motivo estão muito influenciadas pelo ideal americano da liberdade de expressão tal como é definida na Primeira Emenda. Em consequência disto, o Facebook, talvez ainda mais do que as empresas noticiosas, está ligado aos princípios de liberdade de expressão.” 

David Levesly, que foi curador de conteúdos no Facebook e que é agora o editor de redes sociais num jornal britânico, explica que o facto de o Facebook querer ser ao mesmo tempo “a impressora, o livro que é impresso, a biblioteca onde os livros são colocados e as casas das pessoas que vão à biblioteca”, cria um problema que já não é só de escala, mas de governação. 

“Eu não penso que o Facebook possa arbitrar sozinho” – diz Levesley. “Nem quero ver as empresas a desenvolverem corpos de legislação para elas e só para elas.” 

A conclusão de Emily Bell é que, num terreno de tanta importância para o interesse público, o desenvolvimento destas regras “será mais efectivo se for feito através de informação e debate público”: 

“Assim como o Facebook descobriu que era difícil manter a ideia de que não tem responsabilidades editoriais regulares, será igualmente difícil convencer o público de que os seus padrões e prática de moderação não serão melhores se forem desenvolvidos às claras.”

  

Mais informação no artigo original, na Columbia Journalism Review, que tem os links para as revelações publicadas em The Guardian

 

 

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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