Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Fórum

A "cruz vermelha" usada no Facebook para filtrar conteúdos indesejáveis

O problema da moderação de conteúdos, tornado mais urgente depois da proliferação de “notícias falsas” e outras agressões de toda a natureza, levou o Facebook a desenvolver as suas equipas de controlo prévio à edição. Foi anunciado que vai haver mais três mil moderadores só para a revisão dos vídeos “ao vivo”, colocados pelos utentes. Com as dimensões que tem o tráfego mundial da plataforma, muitos se interrogam sobre como funciona este esforço. O jornal britânico The Guardian obteve documentos internos que permitem ter uma ideia do que se passa, e Emily Bell faz a reflexão possível neste momento.

O volume de tráfego é de tal ordem que impõe aos “moderadores” uma urgência de decisão quase insuportável. Há tanto material a chegar constantemente, com violência explícita, apelo ao ódio, terrorismo, pornografia (incluindo revenge porn, a exibição de imagens que podem ter sido realizadas por consenso, mas que são utilizadas mais tarde como vingança ou para efeitos de extorsão), que os operadores da moderação de conteúdos reconhecem que têm de tomar decisões “em dez segundos”... 

O problema que vem com este é o da justeza da decisão: o que é que pode passar? Na prática, a empresa está a formular os seus próprios códigos de conduta sobre o que é adequado mostrar ou não, para instrução dos funcionários responsáveis por essa missão. 

Emily Bell cita alguns exemplos concretos de posts com expressões de violência e descreve um dos procedimentos usados na triagem  - uma cruz vermelha para assinalar o que deve ser apagado, e a marca de check, a verde, para o que é aceitável -  que, de passagem, lhe parece infeliz. 

Outro problema resulta de uma coisa que é boa à partida, na cultura de Silicon Valley, mas que acaba por ser mal usada. “As raízes da moderação, no Facebook, assentam nas instituições policiais e legais, e por esse motivo estão muito influenciadas pelo ideal americano da liberdade de expressão tal como é definida na Primeira Emenda. Em consequência disto, o Facebook, talvez ainda mais do que as empresas noticiosas, está ligado aos princípios de liberdade de expressão.” 

David Levesly, que foi curador de conteúdos no Facebook e que é agora o editor de redes sociais num jornal britânico, explica que o facto de o Facebook querer ser ao mesmo tempo “a impressora, o livro que é impresso, a biblioteca onde os livros são colocados e as casas das pessoas que vão à biblioteca”, cria um problema que já não é só de escala, mas de governação. 

“Eu não penso que o Facebook possa arbitrar sozinho” – diz Levesley. “Nem quero ver as empresas a desenvolverem corpos de legislação para elas e só para elas.” 

A conclusão de Emily Bell é que, num terreno de tanta importância para o interesse público, o desenvolvimento destas regras “será mais efectivo se for feito através de informação e debate público”: 

“Assim como o Facebook descobriu que era difícil manter a ideia de que não tem responsabilidades editoriais regulares, será igualmente difícil convencer o público de que os seus padrões e prática de moderação não serão melhores se forem desenvolvidos às claras.”

  

Mais informação no artigo original, na Columbia Journalism Review, que tem os links para as revelações publicadas em The Guardian

 

 

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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