Quinta-feira, 21 de Março, 2019
Fórum

A "cruz vermelha" usada no Facebook para filtrar conteúdos indesejáveis

O problema da moderação de conteúdos, tornado mais urgente depois da proliferação de “notícias falsas” e outras agressões de toda a natureza, levou o Facebook a desenvolver as suas equipas de controlo prévio à edição. Foi anunciado que vai haver mais três mil moderadores só para a revisão dos vídeos “ao vivo”, colocados pelos utentes. Com as dimensões que tem o tráfego mundial da plataforma, muitos se interrogam sobre como funciona este esforço. O jornal britânico The Guardian obteve documentos internos que permitem ter uma ideia do que se passa, e Emily Bell faz a reflexão possível neste momento.

O volume de tráfego é de tal ordem que impõe aos “moderadores” uma urgência de decisão quase insuportável. Há tanto material a chegar constantemente, com violência explícita, apelo ao ódio, terrorismo, pornografia (incluindo revenge porn, a exibição de imagens que podem ter sido realizadas por consenso, mas que são utilizadas mais tarde como vingança ou para efeitos de extorsão), que os operadores da moderação de conteúdos reconhecem que têm de tomar decisões “em dez segundos”... 

O problema que vem com este é o da justeza da decisão: o que é que pode passar? Na prática, a empresa está a formular os seus próprios códigos de conduta sobre o que é adequado mostrar ou não, para instrução dos funcionários responsáveis por essa missão. 

Emily Bell cita alguns exemplos concretos de posts com expressões de violência e descreve um dos procedimentos usados na triagem  - uma cruz vermelha para assinalar o que deve ser apagado, e a marca de check, a verde, para o que é aceitável -  que, de passagem, lhe parece infeliz. 

Outro problema resulta de uma coisa que é boa à partida, na cultura de Silicon Valley, mas que acaba por ser mal usada. “As raízes da moderação, no Facebook, assentam nas instituições policiais e legais, e por esse motivo estão muito influenciadas pelo ideal americano da liberdade de expressão tal como é definida na Primeira Emenda. Em consequência disto, o Facebook, talvez ainda mais do que as empresas noticiosas, está ligado aos princípios de liberdade de expressão.” 

David Levesly, que foi curador de conteúdos no Facebook e que é agora o editor de redes sociais num jornal britânico, explica que o facto de o Facebook querer ser ao mesmo tempo “a impressora, o livro que é impresso, a biblioteca onde os livros são colocados e as casas das pessoas que vão à biblioteca”, cria um problema que já não é só de escala, mas de governação. 

“Eu não penso que o Facebook possa arbitrar sozinho” – diz Levesley. “Nem quero ver as empresas a desenvolverem corpos de legislação para elas e só para elas.” 

A conclusão de Emily Bell é que, num terreno de tanta importância para o interesse público, o desenvolvimento destas regras “será mais efectivo se for feito através de informação e debate público”: 

“Assim como o Facebook descobriu que era difícil manter a ideia de que não tem responsabilidades editoriais regulares, será igualmente difícil convencer o público de que os seus padrões e prática de moderação não serão melhores se forem desenvolvidos às claras.”

  

Mais informação no artigo original, na Columbia Journalism Review, que tem os links para as revelações publicadas em The Guardian

 

 

Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

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Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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