Sexta-feira, 15 de Dezembro, 2017
Media

“Fazem falta jornais sérios” para o fundador da “WikiTribune”

A proliferação deliberada de notícias falsas ganhou em velocidade e alcance com o advento da Internet, mas o mais grave é que os provocadores truculentos (trolls) que sempre existem neste espaço também mudaram de natureza  - hoje estão nos mais altos níveis dos Estados, de onde procuram “controlar os outros e ganhar influência sobre eles pela mentira”. O sector dos media atravessa um período mau, mas também, “numa época como a nossa, as pessoas dão-se conta de que fazem falta jornais sérios”. É esta a reflexão de Jimmy Wales, que lançou a plataforma WikiTribune para combater os “factos alternativos”.

Foi precisamente esta expressão, criada por uma das assessoras de Imprensa da Casa Branca a propósito do número de pessoas que estavam na posse do Presidente Donald Trump, que se tornou “decisiva” para Jimmy Wales, e o levou ao projecto que tem neste momento entre mãos. E é destas questões, da situação actual dos media e da necessidade de um jornalismo de investigação viável, que fala numa longa entrevista ao diário alemão Die Welt, que aqui citamos do El País.

Sobre Donald Trump:

“Não há a menor dúvida de que Trump é o típico troll. Tenho mesmo chegado a pensar que diz coisas em que nem ele mesmo acredita. E di-las com a única intenção de provocar as pessoas. É esta a definição original do troll: uma pessoa que entra num espaço e publica opiniões provocadoras para a maioria.” (...) 

Sobre como combater a informação falsa

“O nosso trabalho só em parte consistirá em desmascarar as notícias falsas. Também queremos publicar artigos sobre temas políticos, económicos ou do mundo da tecnologia que sejam produto da nossa própria investigação. O meu objectivo é criar algo novo, reunir jornalistas profissionais em torno do mesmo estilo de comunidade que tornou grande a Wikipedia e financiá-lo por meio do microfinanciamento colectivo.” 

Sobre a questão da transparência:

“A primeira coisa que proponho é que a nossa forma de fazer jornalismo seja o mais transparente possível. (...) Por exemplo, na WikiTribune vamos publicar o áudio das entrevistas e a transcrição em bruto, e não apenas o resumo editado.” (...) 

Segue-se, neste ponto, uma troca de reparos, entre o jornalista do Die Welt e Jimmy Wales, sobre os casos em que esta transparência pode criar situações delicadas, por exemplo a respeito da protecção das fontes. Mas o entrevistado dá outro exemplo, dos artigos baseados em informação de “organismos oficiais” sem mencionar os nomes, em que ele “gostaria de saber quem disse o quê, e por que motivo o que ouviu depois contradiz as suas declarações”. 

A segunda parte da entrevista demora-se sobre as questões de sustentabilidade de uma Imprensa responsável e, neste caso, do próprio projecto da WikiTribune. Para além do microfinanciamento, Jimmy Wales declara a sua preferência pelo envolvimento dos assinantes, o apelo a contribuições voluntárias, como aparece nas páginas de The Guardian, ou por uma paywall de tipo “suave”. 

Sobre este assunto, contou a história de um jornal digital de qualidade em que, no mesmo dia, uma boa reportagem de investigação tivera impacto sobre o público, mas um outro texto ao lado, com título apelativo, mas de conteúdo superficial, tornou-se, como se diz hoje, “viral”, e “trouxe tanto dinheiro, pela publicidade que gerou, como a reportagem de investigação, mas com a diferença de que, por esta, não pagaram quase nada”. 

“Dito de modo claro: ganham dinheiro a publicar ‘tonterias’, como faz toda a gente. É um problema que os meios de comunicação  sérios, que constituem invariavelmente o fundamento de uma democracia, se detenham cada vez mais neste ambiente. Um ambiente que surgiu quando as pessoas começaram a habituar-se a não terem de pagar nada por acederem a conteúdos na Internet.” 

A última pergunta foi por que motivo converteu a Wikipedia numa fundação, em vez de a ter comercializado e passar a fazer parte dos megamilionários da informação. Respondeu Jimmy Wales: 

“Aqui em Londres, há muitos bancos que juntam toneladas de dinheiro, muito mais do que verei em toda a minha vida. A mim parece aborrecido. (...)  A minha vida é fantástica, tenho possibilidades incríveis, posso transmitir ideias. Isso é um privilégio enorme. Nunca o trocaria por uma vida monótona de multimilionário. (...)  O que eu faço é muito mais emocionante.”

 

A entrevista na íntegra, no El País, de onde colhemos a imagem utilizada

Connosco
Novo presidente da ERC abstém-se de comentar “dossier” Altice - TVI Ver galeria

Tomou posse, na Assembleia da República, o novo Conselho Regulador da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, tendo como presidente o juiz-conselheiro Sebastião Póvoas. Instado pelos jornalistas a pronunciar-se sobre a questão sensível da compra da Media Capital pela Altice, o magistrado afirmou: “Eu não conheço os dossiers, tomei agora posse; são dossiers complexos e eu venho de uma área em que só nos pronunciamos depois de ler, consultar, ouvir e estudar, e é assim que vou fazer.” O parecer que competia à ERC tornar público, sobre esta matéria, não chegou a ser dado por falta de acordo entre os três membros que estavam em funções até agora.

O "jornalismo - espectáculo" que condena inocentes na praça pública Ver galeria

A investigação de suspeitos de qualquer conduta ilícita ou criminal é realizada pelas autoridades judiciais, que procuram provas para instrução de processo. Tendo conhecimento dessas condutas, também os meios de comunicação fazem a necessária investigação, para apuramento dos factos e posterior publicação. Uns e outros vão cruzar-se no mesmo terreno  - contidos, de ambos os lados, pelo cumprimento da lei e pela deontologia profissional. Mas o pior pode acontecer quando agentes da autoridade e repórteres se juntam para fazer “jornalismo do espectáculo”. A jornalista Nereide Beirão parte do ocorrido em 1994, com o caso que ficou conhecido como Escola Base, em São Paulo. Descreve o que sucedeu e acrescenta o exemplo de mais alguns casos da mesma natureza. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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