Quinta-feira, 19 de Outubro, 2017
Media

“Fazem falta jornais sérios” para o fundador da “WikiTribune”

A proliferação deliberada de notícias falsas ganhou em velocidade e alcance com o advento da Internet, mas o mais grave é que os provocadores truculentos (trolls) que sempre existem neste espaço também mudaram de natureza  - hoje estão nos mais altos níveis dos Estados, de onde procuram “controlar os outros e ganhar influência sobre eles pela mentira”. O sector dos media atravessa um período mau, mas também, “numa época como a nossa, as pessoas dão-se conta de que fazem falta jornais sérios”. É esta a reflexão de Jimmy Wales, que lançou a plataforma WikiTribune para combater os “factos alternativos”.

Foi precisamente esta expressão, criada por uma das assessoras de Imprensa da Casa Branca a propósito do número de pessoas que estavam na posse do Presidente Donald Trump, que se tornou “decisiva” para Jimmy Wales, e o levou ao projecto que tem neste momento entre mãos. E é destas questões, da situação actual dos media e da necessidade de um jornalismo de investigação viável, que fala numa longa entrevista ao diário alemão Die Welt, que aqui citamos do El País.

Sobre Donald Trump:

“Não há a menor dúvida de que Trump é o típico troll. Tenho mesmo chegado a pensar que diz coisas em que nem ele mesmo acredita. E di-las com a única intenção de provocar as pessoas. É esta a definição original do troll: uma pessoa que entra num espaço e publica opiniões provocadoras para a maioria.” (...) 

Sobre como combater a informação falsa

“O nosso trabalho só em parte consistirá em desmascarar as notícias falsas. Também queremos publicar artigos sobre temas políticos, económicos ou do mundo da tecnologia que sejam produto da nossa própria investigação. O meu objectivo é criar algo novo, reunir jornalistas profissionais em torno do mesmo estilo de comunidade que tornou grande a Wikipedia e financiá-lo por meio do microfinanciamento colectivo.” 

Sobre a questão da transparência:

“A primeira coisa que proponho é que a nossa forma de fazer jornalismo seja o mais transparente possível. (...) Por exemplo, na WikiTribune vamos publicar o áudio das entrevistas e a transcrição em bruto, e não apenas o resumo editado.” (...) 

Segue-se, neste ponto, uma troca de reparos, entre o jornalista do Die Welt e Jimmy Wales, sobre os casos em que esta transparência pode criar situações delicadas, por exemplo a respeito da protecção das fontes. Mas o entrevistado dá outro exemplo, dos artigos baseados em informação de “organismos oficiais” sem mencionar os nomes, em que ele “gostaria de saber quem disse o quê, e por que motivo o que ouviu depois contradiz as suas declarações”. 

A segunda parte da entrevista demora-se sobre as questões de sustentabilidade de uma Imprensa responsável e, neste caso, do próprio projecto da WikiTribune. Para além do microfinanciamento, Jimmy Wales declara a sua preferência pelo envolvimento dos assinantes, o apelo a contribuições voluntárias, como aparece nas páginas de The Guardian, ou por uma paywall de tipo “suave”. 

Sobre este assunto, contou a história de um jornal digital de qualidade em que, no mesmo dia, uma boa reportagem de investigação tivera impacto sobre o público, mas um outro texto ao lado, com título apelativo, mas de conteúdo superficial, tornou-se, como se diz hoje, “viral”, e “trouxe tanto dinheiro, pela publicidade que gerou, como a reportagem de investigação, mas com a diferença de que, por esta, não pagaram quase nada”. 

“Dito de modo claro: ganham dinheiro a publicar ‘tonterias’, como faz toda a gente. É um problema que os meios de comunicação  sérios, que constituem invariavelmente o fundamento de uma democracia, se detenham cada vez mais neste ambiente. Um ambiente que surgiu quando as pessoas começaram a habituar-se a não terem de pagar nada por acederem a conteúdos na Internet.” 

A última pergunta foi por que motivo converteu a Wikipedia numa fundação, em vez de a ter comercializado e passar a fazer parte dos megamilionários da informação. Respondeu Jimmy Wales: 

“Aqui em Londres, há muitos bancos que juntam toneladas de dinheiro, muito mais do que verei em toda a minha vida. A mim parece aborrecido. (...)  A minha vida é fantástica, tenho possibilidades incríveis, posso transmitir ideias. Isso é um privilégio enorme. Nunca o trocaria por uma vida monótona de multimilionário. (...)  O que eu faço é muito mais emocionante.”

 

A entrevista na íntegra, no El País, de onde colhemos a imagem utilizada

Connosco
Relatório assinala em Espanha quebra do consumo de TV por assinatura Ver galeria

O consumo doméstico de televisão por assinatura em Espanha, no ano de 2016, foi de 14,5 euros por mês, por habitação, o que significa quase 21% do seu gasto total em tecnologias de informação e comunicação. Esta quantia é 6,5% inferior à de 2015, que se situava numa média de 15,4%. Os dados são do relatório La sociedad en red 2016, elaborado pelo Observatorio Nacional de las Tecnologías de la Sociedad de la Información (ONTSI).

As imagens e as palavras depois da tragédia Ver galeria

A tragédia causada pelos incêndios no centro e norte do País, neste domingo 15 de Outubro, já considerado “o pior dia do ano” em número de ocorrências (mais de 500), simultâneas ou consecutivas, é retratado nas primeiras páginas dos jornais de 17. Quase todos destacam os números das vítimas, somando as de agora às de Pedrógão. Os dois jornais que usam a mesma foto, de três mulheres junto de uma casa destruída, abraçando-se ao lado de uma menina, são também os que procuram as palavras fortes para caracterizar o ocorrido: “Imperdoável” (Correio da Manhã); “Cem mortes sem desculpa” (Jornal de Notícias). 

O Clube

Está formado o Júri que vai apreciar os trabalhos concorrentes ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído pelo Clube Português de Imprensa (CPI) e pelo Jornal Tribuna de Macau (JTM),  com o apoio da Fundação Jorge Álvares.

O Júri será presidido por Dinis de Abreu, em representação do CPI, e integrado pelos jornalistas José Rocha Diniz, fundador e administrador do Jornal Tribuna de Macau, José Carlos de Vasconcelos, director do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, Carlos Magno, pela Fundação Jorge Álvares e por José António Silva Pires, também do CPI.


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