Terça-feira, 22 de Agosto, 2017
Media

“Fazem falta jornais sérios” para o fundador da “WikiTribune”

A proliferação deliberada de notícias falsas ganhou em velocidade e alcance com o advento da Internet, mas o mais grave é que os provocadores truculentos (trolls) que sempre existem neste espaço também mudaram de natureza  - hoje estão nos mais altos níveis dos Estados, de onde procuram “controlar os outros e ganhar influência sobre eles pela mentira”. O sector dos media atravessa um período mau, mas também, “numa época como a nossa, as pessoas dão-se conta de que fazem falta jornais sérios”. É esta a reflexão de Jimmy Wales, que lançou a plataforma WikiTribune para combater os “factos alternativos”.

Foi precisamente esta expressão, criada por uma das assessoras de Imprensa da Casa Branca a propósito do número de pessoas que estavam na posse do Presidente Donald Trump, que se tornou “decisiva” para Jimmy Wales, e o levou ao projecto que tem neste momento entre mãos. E é destas questões, da situação actual dos media e da necessidade de um jornalismo de investigação viável, que fala numa longa entrevista ao diário alemão Die Welt, que aqui citamos do El País.

Sobre Donald Trump:

“Não há a menor dúvida de que Trump é o típico troll. Tenho mesmo chegado a pensar que diz coisas em que nem ele mesmo acredita. E di-las com a única intenção de provocar as pessoas. É esta a definição original do troll: uma pessoa que entra num espaço e publica opiniões provocadoras para a maioria.” (...) 

Sobre como combater a informação falsa

“O nosso trabalho só em parte consistirá em desmascarar as notícias falsas. Também queremos publicar artigos sobre temas políticos, económicos ou do mundo da tecnologia que sejam produto da nossa própria investigação. O meu objectivo é criar algo novo, reunir jornalistas profissionais em torno do mesmo estilo de comunidade que tornou grande a Wikipedia e financiá-lo por meio do microfinanciamento colectivo.” 

Sobre a questão da transparência:

“A primeira coisa que proponho é que a nossa forma de fazer jornalismo seja o mais transparente possível. (...) Por exemplo, na WikiTribune vamos publicar o áudio das entrevistas e a transcrição em bruto, e não apenas o resumo editado.” (...) 

Segue-se, neste ponto, uma troca de reparos, entre o jornalista do Die Welt e Jimmy Wales, sobre os casos em que esta transparência pode criar situações delicadas, por exemplo a respeito da protecção das fontes. Mas o entrevistado dá outro exemplo, dos artigos baseados em informação de “organismos oficiais” sem mencionar os nomes, em que ele “gostaria de saber quem disse o quê, e por que motivo o que ouviu depois contradiz as suas declarações”. 

A segunda parte da entrevista demora-se sobre as questões de sustentabilidade de uma Imprensa responsável e, neste caso, do próprio projecto da WikiTribune. Para além do microfinanciamento, Jimmy Wales declara a sua preferência pelo envolvimento dos assinantes, o apelo a contribuições voluntárias, como aparece nas páginas de The Guardian, ou por uma paywall de tipo “suave”. 

Sobre este assunto, contou a história de um jornal digital de qualidade em que, no mesmo dia, uma boa reportagem de investigação tivera impacto sobre o público, mas um outro texto ao lado, com título apelativo, mas de conteúdo superficial, tornou-se, como se diz hoje, “viral”, e “trouxe tanto dinheiro, pela publicidade que gerou, como a reportagem de investigação, mas com a diferença de que, por esta, não pagaram quase nada”. 

“Dito de modo claro: ganham dinheiro a publicar ‘tonterias’, como faz toda a gente. É um problema que os meios de comunicação  sérios, que constituem invariavelmente o fundamento de uma democracia, se detenham cada vez mais neste ambiente. Um ambiente que surgiu quando as pessoas começaram a habituar-se a não terem de pagar nada por acederem a conteúdos na Internet.” 

A última pergunta foi por que motivo converteu a Wikipedia numa fundação, em vez de a ter comercializado e passar a fazer parte dos megamilionários da informação. Respondeu Jimmy Wales: 

“Aqui em Londres, há muitos bancos que juntam toneladas de dinheiro, muito mais do que verei em toda a minha vida. A mim parece aborrecido. (...)  A minha vida é fantástica, tenho possibilidades incríveis, posso transmitir ideias. Isso é um privilégio enorme. Nunca o trocaria por uma vida monótona de multimilionário. (...)  O que eu faço é muito mais emocionante.”

 

A entrevista na íntegra, no El País, de onde colhemos a imagem utilizada

Connosco
Como a prometida liberdade em “rede social” nos trouxe à ditadura das notícias falsas Ver galeria

A história de como a Internet, depois de ter prometido dar voz e libertação a todos os marginalizados, desembocou na presente ditadura das fake news em “rede social”, é uma longa teia de ilusões aceitáveis e de equívocos pouco inocentes. O jornalista Marcelo Rech, presidente do Fórum Mundial de Editores, desfia esta narrativa num artigo extenso, mas de leitura indispensável. É melhor percebermos como chegámos até aqui. E, se pudermos, mantendo a atitude que ele escolheu como título  -  “Uma chance para o optimismo”.

Este artigo é o terceiro da série sobre o tema “Da pós-verdade ao risco da pós-imprensa”, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Dois anos de notícias falsas, com duas plataformas chamadas à responsabilidade Ver galeria

A chamada “era de ouro das notícias falsas” não tem mais de dois anos, e está hoje bem documentada, pelo que vale a pena rever a sua história. É este o tema de um artigo do jornalista Nelson de Sá, da Folha de S. Paulo, que descreve o que se passou com o “duopólio” Google-Facebook  -  a sua inicial desvalorização do problema, as tentativas de auto-justificação, as primeiras medidas de controlo e o reconhecimento de que a estrutura de financiamento das grandes plataformas está edificada para premiar o que é “viral”, não o que é verdadeiro.

O Clube


O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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