Sexta-feira, 22 de Setembro, 2017
Opinião

Uma história do Pedro e do lobo

por João Garcia

Fim de semana alucinante, sábado épico, jornada inédita. Muito se tem chamado a este 13 de maio, dia de Fátima, do Santo Padre, do anjo Vitória e do arcanjo Sobral. As notícias, as reportagens, os diretos. O frenesim tem sido imenso. Aliás já começou há uns dias. Amanhã, depois do nascer do sol, era bom que houvesse alguma reflexão sobre o que se passou. Será que tanta agitação na Comunicação Social ajuda a torná-la imprescindível ou banaliza-a e tira-lhe valor?


Diz-nos a experiência dos últimos tempos que não eram precisos tanto eventos para garantir tamanha animação. Viu-se com o Benfica-Porto, e confirmou-se com o Sporting-Benfica, que um só jogo é bastante para alimentar horas de emissão, páginas de jornais e da internet. Para termos um sábado com os televisores aos gritos e as equipas de online reforçadas era suficiente o possível desfecho antecipado do campeonato. Ou o centenário das aparições. Ou a presença do Papa. Até o festival da canção. Não era preciso tanta coisa no mesmo dia.

Foi um desperdício de acontecimentos. Cada um deles renderia, só por si, um arraial. Motivos de falatório e razões para diretos não faltariam. Que maravilha, haver tantos eventos com horários não coincidentes e que permitem uma combinação perfeita.

Após fim de semana tão favorável, será que segunda-feira, nas bolsas, as empresas de comunicação estarão com as cotações em alta? E as vendas e audiências vão recuperar? Ou estará tudo na mesma? Ou vão continuar em queda?

Repare-se como passámos a manhã de sexta suspensos na dúvida sobre onde aterraria o avião que trazia o Papa Francisco: se em Monte Real, se em Figo Maduro. Primeiro seria em Leiria, depois em Lisboa, depois retomou o programa inicial, que o mau tempo dissipara-se.

Esta informação, que mais não seria do que um pormenor, tornou-se ela própria notícia de primeira importância a alimentar expectativas. Com a avalancha da informação, com a necessidade e espaço para se contar tudo, qualquer nota de pé de página ganha estatuto de notícia. O que, há poucos anos, era noticiado num parágrafo secundário, apenas dado para mostrar que se estava atento a tudo o que se passava, e que a informação era dada na totalidade, é hoje título difundido com grandes letras e muitos decibéis.

Isto não desvaloriza a informação? A história do Pedro e do lobo vem a despropósito?

Pode dizer-se que televisões, rádios e jornais divulgam o que as pessoas querem saber. É parcialmente verdade. Se não houvesse quem quisesse ver, ouvir ou ler onde pousaria o Papa, não haveria quem se obstinasse a atualizar o destino ao minuto. Mas também é verdade que cabe aos órgãos de comunicação social divulgarem as informações de acordo com a sua importância relativa. Não é sério querer passar a ética para o lado do consumidor.

Como atua a Comunicação Social determina a importância que acaba por ser dada a cada acontecimento. Um exemplo? O Caso Maddie: quantas crianças desaparecem e quantas tiveram (e têm) aquela cobertura mediática? Há milhares e nenhuma outra a teve. A menina inglesa chegou aos placards dos estádios de futebol.

Jornais, rádios , televisões e net pegam num tema, começam a gritá-lo e, de repente, o que era um caso local transforma-se numa questão nacional. Mas afinal onde acabaria por aterrar o Papa? E será que Luisão vai ultrapassar Eusébio e Coluna em títulos? E Néne? E porque será que “Salvador não tem planos para depois”? Pobre Salvador Sobral, que aparenta querer ser comedido e não o deixam.

Se é preciso valorizar o assunto, a receita é conhecida: fazer umas tantas reportagens sobre temas relacionados (por exemplo: ainda há pastores em Fátima?) e organizar mesas redondas com comentadores conhecidos. Uns novos ângulos de análise alternativa e a coisa torna-se empolgante. Já houve quem teorizasse que o poder da comunicação social vem mais da escolha que faz sobre o que publica e não publica – e do destaque que lhe atribui – do que do conteúdo e orientação que dá à informação (Alain de Botton: As notícias, manual de utilização).

Vemos as notícias porque tememos que alguma coisa importante esteja a acontecer sem que o saibamos. Mas quando o que têm para nos dizer é onde vai aterrar o Papa por causa dos ventos ou que o nosso Salvador ainda não tem projetos caso vença – então é a desilusão. E que dizer do interesse dos inúmeros “inquéritos de rua”, em que se pergunta a incautos transeuntes o que pensam do Papa, de Fátima, do ponta-de-lança do Benfica, do guarda-redes do Guimarães ou mesmo da letra do “Amor pelos dois”?

- Vem de onde? E diga-nos lá: este é o Papa de que o mundo precisa? Este é o treinador que o Benfica deve ter? Esta é a canção que nos representa?

- Bom, eu… - o que disser não interessa nada, o importante é que o espaço está preenchido.

Uma vez mais: que tem a história do Pedro e do lobo com os órgãos de informação? Um não foi salvo quando precisava; os outros tanto se banalizam que estão a caminho de nos deixarem indiferentes.

(Texto publicado originalmente no Expresso online )


Connosco
A prisão solitária do “egosistema digital” como doença contagiosa do nosso tempo Ver galeria

Há uma geração zombie deambulando pelas ruas sem levantar os olhos dos seus ecrãs, teclando no Whatsapp ou consultando o Facebook. Até os restaurantes se tornaram mais silenciosos, porque chamamos o empregado tocando num botão e conversamos à distância pelo smartphone sem prestar atenção aos vizinhos de mesa que estão a fazer exactamente o mesmo. Não é uma mudança tecnológica, é uma revolução sociológica. E o vírus é contagioso, impregnou o espaço do cosmos. Todos fomos contagiados pela doença do nosso tempo, o egosistema digital.

O jornalismo em “tempos de cólera” e a interacção com o público Ver galeria

Chegámos a um novo “patamar de interacção entre jornais e público, potencializado pela Internet e pelas ferramentas de diálogo”, e é nesse espaço  que “um tipo específico de emoção e de sensação” é agora exposto com mais frequência: “há casos recentes e emblemáticos que ilustram tempos de cólera, intolerância e polarização social por todo o mundo”. A questão de fundo é a de saber que papel de controlo, ou de mediação, pode ainda o jornalismo exercer. É este o tema do “comentário da semana” de ObjEthos, Observatório da Ética Jornalística do Brasil.

O Clube

Está formado o Júri que vai apreciar os trabalhos concorrentes ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído pelo Clube Português de Imprensa (CPI) e pelo Jornal Tribuna de Macau (JTM),  com o apoio da Fundação Jorge Álvares.

O Júri será presidido por Dinis de Abreu, em representação do CPI, e integrado pelos jornalistas José Rocha Diniz, fundador e administrador do Jornal Tribuna de Macau, José Carlos de Vasconcelos, director do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, Carlos Magno, pela Fundação Jorge Álvares e por José António Silva Pires, também do CPI.


ver mais >
Opinião
Agenda
25
Set
4º Workshop de Pós-Graduação em Ciência da Informação
09:00 @ Faculdade de Letras da Universidade do Porto
25
Set
Atelier de Jornalismo Televisivo
09:00 @ Cenjor, Lisboa
02
Out
09
Out