Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Media

Jornalista espanhola denuncia os equívocos de uma informação “tóxica”

“Estamos num momento de incerteza em que os cidadãos julgam que estão informados quando, de facto, estão apenas entretidos. E isso é muito grave. A qualidade da informação que recebem deteriora-se tão depressa que pode construir uma sociedade muito indefesa.”  É esta a reflexão inicial da jornalista Rosa María Calaf, numa longa entrevista ao jornal espanhol Público, onde são discutidos todos os equívocos do ponto em que nos encontramos.

O discurso de Rosa María Calaf, despedida da TVE em 2009, passa por muitos outros temas em que esses equívocos alteram a nossa percepção da realidade e nos conduzem a opções erradas, contra nós mesmos. Citamos aqui alguns dos mais presentes, dos que têm a ver com a comunicação e com a responsabilidade dos media

Sobre a mobilização social que existia no princípio da crise económica:

“Temos de fazer autocrítica, porque nessa altura os media não souberam defender o espaço que têm de ter o jornalismo e a informação junto dos cidadãos. Nesse momento, de perigo extremo, as pessoas tinham consciência de fazer alguma coisa. Agora [ainda] o crêem, mas julgam que, quando tomam uma decisão, estão a fazê-lo sobre uma base sólida de conhecimento, e [já] não é assim.” (...) 

“A Imprensa, em vez de combater a instalação desses métodos tão preigosos, para que as pessoas se dessem conta de que estavam a ocultar-lhes a verdade, não o fez. Além disso, na maioria dos casos alinhou pelos mesmos interesses que promovem este mundo. A maioria dos media, aqui e no estrangeiro, está com grupos de poder económicos. Neste momento o perigo não é o poder político, mas o económico, (...) que devorou a política e os media.” (...) 

“Cada vez mais vivemos num mundo que não é de opinião pública, mas sim de emoção pública. E isso é muito perigoso. Basear as decisões em emoções tem um risco extraordinário, porque é muito difícil controlar as emoções. É claro que há uma parte emocional, de empatia, mas essa emoção tem de estar ancorada num conhecimemnto e numa parte racional. Não nos deixarmos levar pela primeira coisa que nos dizem.” 

Sobre a comunicação exibida pelo Estado Islâmico, cuja origem não é explicada: 

“... Como se fossem meia dúzia de vândalos fanáticos, que aparecem de repente com armamento caríssimo e complicadíssimo. Quem o paga? Quem os treina a manejá-lo? E conseguem que os jornalistas se vão embora, porque eles próprios mandam a informação. Eles fazem uns vídeos espectaculares. Quem lhes faz os vídeos, que parecem de uma empresa de Hollywood? Quem faz o quê? Esta é que é a questão a que a Imprensa devia responder, em vez de páginas cheias de ódio ou de impacto sentimental, indo pelo caminho fácil.” 

Sobre a precariedade na profissão do jornalismo: 

“A precariedade é uma forma de controlo, porque, se os redactores trabalham em situação de stress e de angústia, e não têm os recursos para exercer bem o seu trabalho, o resultado será de pior qualidade. (...)  Dizer que a precariedade foi resultado da tecnologia, ou de um momento económico, é uma cortina de fumo. O que existe por detrás é uma vontade de que as redacções não façam o jornalismo que devem, regoroso e de investigação.” (...)

 

Sobre questões de igualdade de género, e depois de ter dito que estamos a assistir a um retrocesso, que preocupa muito as mulheres que lutaram por ela, Rosa María Calaf recorda, com alguma ironia, o seu princípio na profissão: 

“Quando cheguei a Madrid era a única repórter de rua, e diziam-me  -  ‘Olha, estavas lindíssima na crónica de ontem, a blusa ficava-te muito bem.’ Depois de oito dias a ouvir estes comentários, sem má intenção, porque não era para me humilharem e queriam ser simpáticos, fiz o mesmo. E dizia-lhes  - ‘Olha, aquela tua gravata de ontem... era genial!’ E claro, ficavam desconcertados.” (...) 

Sobre o desprestígio que se lança contra os meios de comunicação: 

“Desprestigiar a televisão pública faz com que os próprios cidadãos peçam que ela desapareça. Mas quem ganha com isso? Não são os cidadãos. Uma televisão pública que funcione como deve é uma garantia para o cidadão. E o cidadão deve exigir. Assim como um serviço de saúde e uma educação pública, deve exigir bons media públicos.” (...)  

“Também os deve exigir privados. Todos estamos de acordo em que deve existir liberdade de empresa. Por que não consentimos que se ponha azeite tóxico nas latas de sardinha? Sobre isso exercemos vigilância. Por que não controlamos que a qualidade de informação seja o que deve ser?” (...) 

“Não permitimos que uma empresa nos dê a consumir sardinhas em óleo de colza. Mas permitimos que empresas nos dêem informação tóxica?” (...) 


A entrevista de Rosa María Calaf, na íntegra, em Público.es

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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