Quinta-feira, 18 de Julho, 2019
Media

Jornalista espanhola denuncia os equívocos de uma informação “tóxica”

“Estamos num momento de incerteza em que os cidadãos julgam que estão informados quando, de facto, estão apenas entretidos. E isso é muito grave. A qualidade da informação que recebem deteriora-se tão depressa que pode construir uma sociedade muito indefesa.”  É esta a reflexão inicial da jornalista Rosa María Calaf, numa longa entrevista ao jornal espanhol Público, onde são discutidos todos os equívocos do ponto em que nos encontramos.

O discurso de Rosa María Calaf, despedida da TVE em 2009, passa por muitos outros temas em que esses equívocos alteram a nossa percepção da realidade e nos conduzem a opções erradas, contra nós mesmos. Citamos aqui alguns dos mais presentes, dos que têm a ver com a comunicação e com a responsabilidade dos media

Sobre a mobilização social que existia no princípio da crise económica:

“Temos de fazer autocrítica, porque nessa altura os media não souberam defender o espaço que têm de ter o jornalismo e a informação junto dos cidadãos. Nesse momento, de perigo extremo, as pessoas tinham consciência de fazer alguma coisa. Agora [ainda] o crêem, mas julgam que, quando tomam uma decisão, estão a fazê-lo sobre uma base sólida de conhecimento, e [já] não é assim.” (...) 

“A Imprensa, em vez de combater a instalação desses métodos tão preigosos, para que as pessoas se dessem conta de que estavam a ocultar-lhes a verdade, não o fez. Além disso, na maioria dos casos alinhou pelos mesmos interesses que promovem este mundo. A maioria dos media, aqui e no estrangeiro, está com grupos de poder económicos. Neste momento o perigo não é o poder político, mas o económico, (...) que devorou a política e os media.” (...) 

“Cada vez mais vivemos num mundo que não é de opinião pública, mas sim de emoção pública. E isso é muito perigoso. Basear as decisões em emoções tem um risco extraordinário, porque é muito difícil controlar as emoções. É claro que há uma parte emocional, de empatia, mas essa emoção tem de estar ancorada num conhecimemnto e numa parte racional. Não nos deixarmos levar pela primeira coisa que nos dizem.” 

Sobre a comunicação exibida pelo Estado Islâmico, cuja origem não é explicada: 

“... Como se fossem meia dúzia de vândalos fanáticos, que aparecem de repente com armamento caríssimo e complicadíssimo. Quem o paga? Quem os treina a manejá-lo? E conseguem que os jornalistas se vão embora, porque eles próprios mandam a informação. Eles fazem uns vídeos espectaculares. Quem lhes faz os vídeos, que parecem de uma empresa de Hollywood? Quem faz o quê? Esta é que é a questão a que a Imprensa devia responder, em vez de páginas cheias de ódio ou de impacto sentimental, indo pelo caminho fácil.” 

Sobre a precariedade na profissão do jornalismo: 

“A precariedade é uma forma de controlo, porque, se os redactores trabalham em situação de stress e de angústia, e não têm os recursos para exercer bem o seu trabalho, o resultado será de pior qualidade. (...)  Dizer que a precariedade foi resultado da tecnologia, ou de um momento económico, é uma cortina de fumo. O que existe por detrás é uma vontade de que as redacções não façam o jornalismo que devem, regoroso e de investigação.” (...)

 

Sobre questões de igualdade de género, e depois de ter dito que estamos a assistir a um retrocesso, que preocupa muito as mulheres que lutaram por ela, Rosa María Calaf recorda, com alguma ironia, o seu princípio na profissão: 

“Quando cheguei a Madrid era a única repórter de rua, e diziam-me  -  ‘Olha, estavas lindíssima na crónica de ontem, a blusa ficava-te muito bem.’ Depois de oito dias a ouvir estes comentários, sem má intenção, porque não era para me humilharem e queriam ser simpáticos, fiz o mesmo. E dizia-lhes  - ‘Olha, aquela tua gravata de ontem... era genial!’ E claro, ficavam desconcertados.” (...) 

Sobre o desprestígio que se lança contra os meios de comunicação: 

“Desprestigiar a televisão pública faz com que os próprios cidadãos peçam que ela desapareça. Mas quem ganha com isso? Não são os cidadãos. Uma televisão pública que funcione como deve é uma garantia para o cidadão. E o cidadão deve exigir. Assim como um serviço de saúde e uma educação pública, deve exigir bons media públicos.” (...)  

“Também os deve exigir privados. Todos estamos de acordo em que deve existir liberdade de empresa. Por que não consentimos que se ponha azeite tóxico nas latas de sardinha? Sobre isso exercemos vigilância. Por que não controlamos que a qualidade de informação seja o que deve ser?” (...) 

“Não permitimos que uma empresa nos dê a consumir sardinhas em óleo de colza. Mas permitimos que empresas nos dêem informação tóxica?” (...) 


A entrevista de Rosa María Calaf, na íntegra, em Público.es

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
Um relatório recente sobre os princípios de actuação mais frequentes dos maiores publishers digitais dá algumas indicações que vale a pena ter em conta. O estudo “Digital Publishers Report”, divulgado pelo site Digiday, analisa as práticas de uma centena de editores e destaca alguns factores que, na sua opinião, permitem obter os melhores resultados. O estudo estima que as receitas provenientes de conteúdo digital...
E lá se foi mais um daqueles Artistas geniais que tornam a existência humana mais suportável… Guillermo Mordillo era um daqueles raríssimos autores que não precisam de palavras para nos revelarem os aspectos mais evidentes, e também os mais escondidos, das nossas vidas – os alegres, os menos alegres, os cómicos, os ridículos, até os trágicos -- com um traço redondo, que dava aos seus bonecos uma vivacidade...
Sejam de direita ou de esquerda, há uma verdadeira inflação de políticos no activo - ou supostamente retirados - ,  “vestidos” de comentadores residentes nas televisões, com farto proveito. Alguns deles acumulam mesmo os “plateaux” com os microfones  da rádio ou as colunas de jornais, demonstrando  uma invejável capacidade de desdobramento. O objectivo comum a todos é, naturalmente,  pastorearem...
“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
Lançar notícias falsas sobre adversários políticos ou outros existe há séculos. Mas a internet deu às mentiras uma capacidade de difusão nunca antes vista.  Divulgar no espaço público notícias falsas (“fake news”) é hoje um problema que, com razão, preocupa muita gente. Mas não se pode considerar que este seja um problema novo. Claro que a internet e as redes sociais proporcionam...
Agenda
01
Ago
Composição Fotográfica
09:00 @ Cenjor,Lisboa
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigéria
16
Set