Terça-feira, 22 de Agosto, 2017
Media

Jornalista espanhola denuncia os equívocos de uma informação “tóxica”

“Estamos num momento de incerteza em que os cidadãos julgam que estão informados quando, de facto, estão apenas entretidos. E isso é muito grave. A qualidade da informação que recebem deteriora-se tão depressa que pode construir uma sociedade muito indefesa.”  É esta a reflexão inicial da jornalista Rosa María Calaf, numa longa entrevista ao jornal espanhol Público, onde são discutidos todos os equívocos do ponto em que nos encontramos.

O discurso de Rosa María Calaf, despedida da TVE em 2009, passa por muitos outros temas em que esses equívocos alteram a nossa percepção da realidade e nos conduzem a opções erradas, contra nós mesmos. Citamos aqui alguns dos mais presentes, dos que têm a ver com a comunicação e com a responsabilidade dos media

Sobre a mobilização social que existia no princípio da crise económica:

“Temos de fazer autocrítica, porque nessa altura os media não souberam defender o espaço que têm de ter o jornalismo e a informação junto dos cidadãos. Nesse momento, de perigo extremo, as pessoas tinham consciência de fazer alguma coisa. Agora [ainda] o crêem, mas julgam que, quando tomam uma decisão, estão a fazê-lo sobre uma base sólida de conhecimento, e [já] não é assim.” (...) 

“A Imprensa, em vez de combater a instalação desses métodos tão preigosos, para que as pessoas se dessem conta de que estavam a ocultar-lhes a verdade, não o fez. Além disso, na maioria dos casos alinhou pelos mesmos interesses que promovem este mundo. A maioria dos media, aqui e no estrangeiro, está com grupos de poder económicos. Neste momento o perigo não é o poder político, mas o económico, (...) que devorou a política e os media.” (...) 

“Cada vez mais vivemos num mundo que não é de opinião pública, mas sim de emoção pública. E isso é muito perigoso. Basear as decisões em emoções tem um risco extraordinário, porque é muito difícil controlar as emoções. É claro que há uma parte emocional, de empatia, mas essa emoção tem de estar ancorada num conhecimemnto e numa parte racional. Não nos deixarmos levar pela primeira coisa que nos dizem.” 

Sobre a comunicação exibida pelo Estado Islâmico, cuja origem não é explicada: 

“... Como se fossem meia dúzia de vândalos fanáticos, que aparecem de repente com armamento caríssimo e complicadíssimo. Quem o paga? Quem os treina a manejá-lo? E conseguem que os jornalistas se vão embora, porque eles próprios mandam a informação. Eles fazem uns vídeos espectaculares. Quem lhes faz os vídeos, que parecem de uma empresa de Hollywood? Quem faz o quê? Esta é que é a questão a que a Imprensa devia responder, em vez de páginas cheias de ódio ou de impacto sentimental, indo pelo caminho fácil.” 

Sobre a precariedade na profissão do jornalismo: 

“A precariedade é uma forma de controlo, porque, se os redactores trabalham em situação de stress e de angústia, e não têm os recursos para exercer bem o seu trabalho, o resultado será de pior qualidade. (...)  Dizer que a precariedade foi resultado da tecnologia, ou de um momento económico, é uma cortina de fumo. O que existe por detrás é uma vontade de que as redacções não façam o jornalismo que devem, regoroso e de investigação.” (...)

 

Sobre questões de igualdade de género, e depois de ter dito que estamos a assistir a um retrocesso, que preocupa muito as mulheres que lutaram por ela, Rosa María Calaf recorda, com alguma ironia, o seu princípio na profissão: 

“Quando cheguei a Madrid era a única repórter de rua, e diziam-me  -  ‘Olha, estavas lindíssima na crónica de ontem, a blusa ficava-te muito bem.’ Depois de oito dias a ouvir estes comentários, sem má intenção, porque não era para me humilharem e queriam ser simpáticos, fiz o mesmo. E dizia-lhes  - ‘Olha, aquela tua gravata de ontem... era genial!’ E claro, ficavam desconcertados.” (...) 

Sobre o desprestígio que se lança contra os meios de comunicação: 

“Desprestigiar a televisão pública faz com que os próprios cidadãos peçam que ela desapareça. Mas quem ganha com isso? Não são os cidadãos. Uma televisão pública que funcione como deve é uma garantia para o cidadão. E o cidadão deve exigir. Assim como um serviço de saúde e uma educação pública, deve exigir bons media públicos.” (...)  

“Também os deve exigir privados. Todos estamos de acordo em que deve existir liberdade de empresa. Por que não consentimos que se ponha azeite tóxico nas latas de sardinha? Sobre isso exercemos vigilância. Por que não controlamos que a qualidade de informação seja o que deve ser?” (...) 

“Não permitimos que uma empresa nos dê a consumir sardinhas em óleo de colza. Mas permitimos que empresas nos dêem informação tóxica?” (...) 


A entrevista de Rosa María Calaf, na íntegra, em Público.es

Connosco
Como a prometida liberdade em “rede social” nos trouxe à ditadura das notícias falsas Ver galeria

A história de como a Internet, depois de ter prometido dar voz e libertação a todos os marginalizados, desembocou na presente ditadura das fake news em “rede social”, é uma longa teia de ilusões aceitáveis e de equívocos pouco inocentes. O jornalista Marcelo Rech, presidente do Fórum Mundial de Editores, desfia esta narrativa num artigo extenso, mas de leitura indispensável. É melhor percebermos como chegámos até aqui. E, se pudermos, mantendo a atitude que ele escolheu como título  -  “Uma chance para o optimismo”.

Este artigo é o terceiro da série sobre o tema “Da pós-verdade ao risco da pós-imprensa”, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Dois anos de notícias falsas, com duas plataformas chamadas à responsabilidade Ver galeria

A chamada “era de ouro das notícias falsas” não tem mais de dois anos, e está hoje bem documentada, pelo que vale a pena rever a sua história. É este o tema de um artigo do jornalista Nelson de Sá, da Folha de S. Paulo, que descreve o que se passou com o “duopólio” Google-Facebook  -  a sua inicial desvalorização do problema, as tentativas de auto-justificação, as primeiras medidas de controlo e o reconhecimento de que a estrutura de financiamento das grandes plataformas está edificada para premiar o que é “viral”, não o que é verdadeiro.

O Clube


O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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