Quarta-feira, 18 de Julho, 2018
Media

Jornalista espanhola denuncia os equívocos de uma informação “tóxica”

“Estamos num momento de incerteza em que os cidadãos julgam que estão informados quando, de facto, estão apenas entretidos. E isso é muito grave. A qualidade da informação que recebem deteriora-se tão depressa que pode construir uma sociedade muito indefesa.”  É esta a reflexão inicial da jornalista Rosa María Calaf, numa longa entrevista ao jornal espanhol Público, onde são discutidos todos os equívocos do ponto em que nos encontramos.

O discurso de Rosa María Calaf, despedida da TVE em 2009, passa por muitos outros temas em que esses equívocos alteram a nossa percepção da realidade e nos conduzem a opções erradas, contra nós mesmos. Citamos aqui alguns dos mais presentes, dos que têm a ver com a comunicação e com a responsabilidade dos media

Sobre a mobilização social que existia no princípio da crise económica:

“Temos de fazer autocrítica, porque nessa altura os media não souberam defender o espaço que têm de ter o jornalismo e a informação junto dos cidadãos. Nesse momento, de perigo extremo, as pessoas tinham consciência de fazer alguma coisa. Agora [ainda] o crêem, mas julgam que, quando tomam uma decisão, estão a fazê-lo sobre uma base sólida de conhecimento, e [já] não é assim.” (...) 

“A Imprensa, em vez de combater a instalação desses métodos tão preigosos, para que as pessoas se dessem conta de que estavam a ocultar-lhes a verdade, não o fez. Além disso, na maioria dos casos alinhou pelos mesmos interesses que promovem este mundo. A maioria dos media, aqui e no estrangeiro, está com grupos de poder económicos. Neste momento o perigo não é o poder político, mas o económico, (...) que devorou a política e os media.” (...) 

“Cada vez mais vivemos num mundo que não é de opinião pública, mas sim de emoção pública. E isso é muito perigoso. Basear as decisões em emoções tem um risco extraordinário, porque é muito difícil controlar as emoções. É claro que há uma parte emocional, de empatia, mas essa emoção tem de estar ancorada num conhecimemnto e numa parte racional. Não nos deixarmos levar pela primeira coisa que nos dizem.” 

Sobre a comunicação exibida pelo Estado Islâmico, cuja origem não é explicada: 

“... Como se fossem meia dúzia de vândalos fanáticos, que aparecem de repente com armamento caríssimo e complicadíssimo. Quem o paga? Quem os treina a manejá-lo? E conseguem que os jornalistas se vão embora, porque eles próprios mandam a informação. Eles fazem uns vídeos espectaculares. Quem lhes faz os vídeos, que parecem de uma empresa de Hollywood? Quem faz o quê? Esta é que é a questão a que a Imprensa devia responder, em vez de páginas cheias de ódio ou de impacto sentimental, indo pelo caminho fácil.” 

Sobre a precariedade na profissão do jornalismo: 

“A precariedade é uma forma de controlo, porque, se os redactores trabalham em situação de stress e de angústia, e não têm os recursos para exercer bem o seu trabalho, o resultado será de pior qualidade. (...)  Dizer que a precariedade foi resultado da tecnologia, ou de um momento económico, é uma cortina de fumo. O que existe por detrás é uma vontade de que as redacções não façam o jornalismo que devem, regoroso e de investigação.” (...)

 

Sobre questões de igualdade de género, e depois de ter dito que estamos a assistir a um retrocesso, que preocupa muito as mulheres que lutaram por ela, Rosa María Calaf recorda, com alguma ironia, o seu princípio na profissão: 

“Quando cheguei a Madrid era a única repórter de rua, e diziam-me  -  ‘Olha, estavas lindíssima na crónica de ontem, a blusa ficava-te muito bem.’ Depois de oito dias a ouvir estes comentários, sem má intenção, porque não era para me humilharem e queriam ser simpáticos, fiz o mesmo. E dizia-lhes  - ‘Olha, aquela tua gravata de ontem... era genial!’ E claro, ficavam desconcertados.” (...) 

Sobre o desprestígio que se lança contra os meios de comunicação: 

“Desprestigiar a televisão pública faz com que os próprios cidadãos peçam que ela desapareça. Mas quem ganha com isso? Não são os cidadãos. Uma televisão pública que funcione como deve é uma garantia para o cidadão. E o cidadão deve exigir. Assim como um serviço de saúde e uma educação pública, deve exigir bons media públicos.” (...)  

“Também os deve exigir privados. Todos estamos de acordo em que deve existir liberdade de empresa. Por que não consentimos que se ponha azeite tóxico nas latas de sardinha? Sobre isso exercemos vigilância. Por que não controlamos que a qualidade de informação seja o que deve ser?” (...) 

“Não permitimos que uma empresa nos dê a consumir sardinhas em óleo de colza. Mas permitimos que empresas nos dêem informação tóxica?” (...) 


A entrevista de Rosa María Calaf, na íntegra, em Público.es

Connosco
CPI e "Tribuna de Macau" instituem Prémios de Ensaio e de Jornalismo da Lusofonia Ver galeria

O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído há um ano por iniciativa do jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, com o patrocínio da Fundação Jorge Álvares e o apoio do JL – Jornal de Artes, Letras e Ideias, reparte-se, nesta sua segunda edição, por dois: um aberto a textos originais, que passa a designar-se o Prémio Ensaio da Lusofonia, e outro que mantém o título de Prémio de Jornalismo da Lusofonia, destinado a textos já publicados, em suporte papel ou digital.

Mantém-se o espírito original de distinguir trabalhos “no quadro do desejado aprofundamento de todos os aspectos ligados à Língua Portuguesa, com relevo para a singularidade do posicionamento de Macau no seu papel de plataforma de ligação entre países de Língua Oficial Portuguesa”.

Jornalismo "ao vivo" em festival de Verão de "Le Monde" Ver galeria

Um festival de Verão sem estrondo de altifalantes, sem música de “fogo-de-artifício”, todo baseado na palavra, na conversa em grupo ou no diálogo directo com os jornalistas presentes. Durante o fim-de-semana de 13 a 15 de Julho, cerca de 4500 inscritos animaram a terceira edição do Festival Internacional de Jornalismo organizado pelo grupo Le Monde na localidade de Couthures, em França, à beira do rio Garonne. A aldeia não chega aos 400 habitantes, mas mais de 100 voluntários ajudaram a fazer funcionar, durante três dias, um encontro de muitos debates. Como disse Gilles van Kote, jornalista de Le Monde, a intenção era precisamente a de que tudo pudesse ser posto em questão, “sem tabus”.

O Clube
O CPI – Clube Português de Imprensa voltou a participar no Prémio  Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018,  instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura,  em cooperação com a Europa Nostra, a principal organização europeia de defesa do património,  que o CNC representa em Portugal.   O Prémio foi atribuído, este ano,  à...

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Opinião
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Boa ideia, Pedro
Manuel Falcão
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Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
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