Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Implicações da Ética para o jornalista na era da comunicação digital

A revolução digital trouxe tantas possibilidades novas que é fácil cairmos na tentação de pensar que o progresso é sempre bom. Os jornalistas têm vindo a descobrir que pode ser bom ou mau, e que tudo o que traz implica escolhas morais. O debate actual sobre a verdade ou falsidade do que se publica é o exemplo mais recente. Charles Ess, professor no Departamento de Comunicação da Universidade de Oslo, partiu da sua formação inicial em história da filosofia para uma atenção às questões de fundo na comunicação digital. Entre os seus livros mais recentes contam-se “Ética dos Meios Digitais” e “Na Intersecção entre os Estudos sobre a Internet e a Filosofia: Quem Sou Eu Online?”

O primeiro dos dois livros citados analisa questões morais proeminentes nos media digitais  – perda de privacidade, vigilância em massa, distribuição dos direitos autorais, entre outros temas.

Para efeitos práticos, a entrevista que aqui citamos, reproduzida em ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística, do Brasil, começa pelo conceito de “pluralismo ético”, que Charles Ess propõe como solução para sair de um dilema: ou partir de uma ética absoluta e cair na divisão entre “tecnologias boas” contra “tecnologias más”, ou concluir que toda a ética é relativa e que não é possível “a realização de normas e valores universais”. 

“Quando escrevi pela primeira vez sobre isto  - diz Charles Ess -  não existiam muitos exemplos do mundo real que eu poderia apontar para ilustrar como o pluralismo se ‘pareceria’, no geral, e como funcionaria na prática. Na segunda edição do meu livro Digital Media Ethics (de 2013), por exemplo, eu pude apontar para a privacidade, interpretada e aplicada, entre a Noruega e os Estados Unidos e, a seguir, a protecção aos dados da privacidade desenvolvidos na União Europeia em relação aos Estados Unidos.” 

A sua observação é que, “especificamente, a liberdade de expressão nos Estados Unidos é apenas um direito negativo (ou seja, uma garantia de que o Estado não interferirá com veemência para além de limites já reconhecíveis, como calúnia, ameaça de dano ou um ‘perigo claro e presente’).” 

“Em contraste, a liberdade de expressão na Noruega inclui um direito positivo  – o Estado deve apoiar activamente a liberdade de expressão, por exemplo, através de subsídios à Imprensa que assegurem a sobrevivência de jornais locais em todo o país, o que, desta forma, representa uma maior diversidade de pontos de vista em relação aos sistemas de media puramente dependentes do mercado.” 

Isso ajuda a compreender, segundo o autor, o motivo pelo qual a Noruega foi recentemente classificada no 1º lugar do Ranking Mundial de Liberdade de Expressão pela organização Repórteres sem Fronteiras, enquanto os EUA ocupam o 43º. Os Estados Unidos, afirma, protegem a liberdade de expressão, mas fazem-no “de uma maneira claramente menos efectiva”. 

Entre outros seguidores da sua linha de pensamento, Charles Ess cita Shannon Vallor [professora de Filosofia na Universidade de Santa Clara, na Califórnia], autora de “Technology and the Virtues: a Philosophical Guide to a Future Worth Wanting” (MIT Press, 2016), que inclui explicitamente o pluralismo ético como uma parte da sua abordagem a partir da ética das virtudes. 

Charles Ess responde “sim” à pergunta sobre “uma educação ética para os utentes dos meios digitais:

“Absolutamente  – pelo menos se essa educação é cuidadosamente desenvolvida e habilmente ensinada. Isso significa, em parte, que tal educação deve ir além do ‘de cima para baixo’, ‘aqui estão as regras, crianças: memorizem e obedeçam’.” 

“Embora isso possa ser um começo necessário, especialmente em culturas e países mais acostumados a esse tipo de educação, é muito mais eficaz usar exemplos e exercícios que enfatizam uma abordagem de baixo para cima, que pressupõe a sensibilidade ética dos alunos já razoavelmente bem formada.”  (...)

 

O texto da entrevista, em ObjEthos

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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