Quarta-feira, 16 de Agosto, 2017
Media

Implicações da Ética para o jornalista na era da comunicação digital

A revolução digital trouxe tantas possibilidades novas que é fácil cairmos na tentação de pensar que o progresso é sempre bom. Os jornalistas têm vindo a descobrir que pode ser bom ou mau, e que tudo o que traz implica escolhas morais. O debate actual sobre a verdade ou falsidade do que se publica é o exemplo mais recente. Charles Ess, professor no Departamento de Comunicação da Universidade de Oslo, partiu da sua formação inicial em história da filosofia para uma atenção às questões de fundo na comunicação digital. Entre os seus livros mais recentes contam-se “Ética dos Meios Digitais” e “Na Intersecção entre os Estudos sobre a Internet e a Filosofia: Quem Sou Eu Online?”

O primeiro dos dois livros citados analisa questões morais proeminentes nos media digitais  – perda de privacidade, vigilância em massa, distribuição dos direitos autorais, entre outros temas.

Para efeitos práticos, a entrevista que aqui citamos, reproduzida em ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística, do Brasil, começa pelo conceito de “pluralismo ético”, que Charles Ess propõe como solução para sair de um dilema: ou partir de uma ética absoluta e cair na divisão entre “tecnologias boas” contra “tecnologias más”, ou concluir que toda a ética é relativa e que não é possível “a realização de normas e valores universais”. 

“Quando escrevi pela primeira vez sobre isto  - diz Charles Ess -  não existiam muitos exemplos do mundo real que eu poderia apontar para ilustrar como o pluralismo se ‘pareceria’, no geral, e como funcionaria na prática. Na segunda edição do meu livro Digital Media Ethics (de 2013), por exemplo, eu pude apontar para a privacidade, interpretada e aplicada, entre a Noruega e os Estados Unidos e, a seguir, a protecção aos dados da privacidade desenvolvidos na União Europeia em relação aos Estados Unidos.” 

A sua observação é que, “especificamente, a liberdade de expressão nos Estados Unidos é apenas um direito negativo (ou seja, uma garantia de que o Estado não interferirá com veemência para além de limites já reconhecíveis, como calúnia, ameaça de dano ou um ‘perigo claro e presente’).” 

“Em contraste, a liberdade de expressão na Noruega inclui um direito positivo  – o Estado deve apoiar activamente a liberdade de expressão, por exemplo, através de subsídios à Imprensa que assegurem a sobrevivência de jornais locais em todo o país, o que, desta forma, representa uma maior diversidade de pontos de vista em relação aos sistemas de media puramente dependentes do mercado.” 

Isso ajuda a compreender, segundo o autor, o motivo pelo qual a Noruega foi recentemente classificada no 1º lugar do Ranking Mundial de Liberdade de Expressão pela organização Repórteres sem Fronteiras, enquanto os EUA ocupam o 43º. Os Estados Unidos, afirma, protegem a liberdade de expressão, mas fazem-no “de uma maneira claramente menos efectiva”. 

Entre outros seguidores da sua linha de pensamento, Charles Ess cita Shannon Vallor [professora de Filosofia na Universidade de Santa Clara, na Califórnia], autora de “Technology and the Virtues: a Philosophical Guide to a Future Worth Wanting” (MIT Press, 2016), que inclui explicitamente o pluralismo ético como uma parte da sua abordagem a partir da ética das virtudes. 

Charles Ess responde “sim” à pergunta sobre “uma educação ética para os utentes dos meios digitais:

“Absolutamente  – pelo menos se essa educação é cuidadosamente desenvolvida e habilmente ensinada. Isso significa, em parte, que tal educação deve ir além do ‘de cima para baixo’, ‘aqui estão as regras, crianças: memorizem e obedeçam’.” 

“Embora isso possa ser um começo necessário, especialmente em culturas e países mais acostumados a esse tipo de educação, é muito mais eficaz usar exemplos e exercícios que enfatizam uma abordagem de baixo para cima, que pressupõe a sensibilidade ética dos alunos já razoavelmente bem formada.”  (...)

 

O texto da entrevista, em ObjEthos

Connosco
Modos de combater a vigilância electrónica sobre jornalistas e as suas fontes Ver galeria

Jornalistas que tenham de trabalhar em ambientes autoritários tendem a ser alvo de vigilância electrónica. Muitos acabam por se adaptar e aceitá-la como um risco indesejado, mas inevitável na sua profissão. Ou podem tentar combatê-la. “Afinal de contas, ela ameaça a sua segurança, bem como das suas fontes, e constitui um ataque à liberdade de Imprensa e de expressão.” A reflexão é do jornalista mexicano Jorge Luis Sierra, perito em segurança digital, que adianta alguns conselhos práticos para casos destes. 

A avalancha da Internet atropelou a nossa capacidade de lidar com tantos dados Ver galeria

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A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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