Sexta-feira, 16 de Novembro, 2018
Media

A responsabilidade das plataformas digitais na proliferação das notícias falsas

Quanto mais somos expostos a coisas que não são verdadeiras, tanto mais é provável que as aceitemos como sendo de facto. Os leitores tendem a esquecer onde leram a notícia pela primeira vez. Quando voltam a encontrá-la, já é familiar pela primeira exposição, pelo que se torna mais fácil aceitá-la como verdadeira. Não importa que tenha vindo com etiqueta de fake news. A repetição é que conta.

Esta reflexão é de dois investigadores norte-americanos, ambos docentes universitários, sobre o estado actual do combate à desinformação em meio digital. O ponto a que chegam é que as coisas pioraram e, mesmo as soluções propostas pela Google, Facebook e outros gigantes da tecnologia de comunicações, são inadequadas para enfrentar o problema. 

“Reduzir a aceitação das notícias falsas significa, deste modo, torná-las menos familiares. Os editores, produtores, distribuidores e agregadores de conteúdos precisam de deixar de repetir estas histórias, principalmente nos títulos.” (...) 

“A edição online do Washington Post publica regularmente títulos com fact-checker, que consistem em afirmações que necessitam de ser avaliadas, com um ‘Teste Pinóquio’ no fim da história anexa. O problema é que os leitores estão mais inclinados a notar e a recordar a afirmação do que a conclusão.” 

“Outra coisa que sabemos é que as afirmações chocantes fixam-se na memória. Uma quantidade de investigação revelou que as pessoas estão mais inclinadas a escutar e a recordar mais tarde um título sensacionalista ou negativo, mesmo que uma ferramenta de fact checker o assinale como suspeito. As histórias de fake news quase sempre exibem afirmações alarmistas, com a intenção de captar a atenção dos que ‘navegam’ na Rede. Os fact checkers não podem competir  -  principalmente se as suas conclusões aparecem em letras pequenas.” (...) 

“As plataformas da Internet têm talvez o papel mais importante na luta contra as fake news. Precisam de mudar as notícias suspeitas mais para baixo nas listas de temas que são propostos pelos motores de busca ou pelas redes sociais. A chave para a avaliação da credibilidade, e a localização da história, deve focar-se não em temas individuais mas sim na corrente acumulada de conteúdo de um determinado site. A avaliação de histórias individuais é demasiado lenta para deter, com segurança, a sua proliferação.” (...) 

“Finalmente, o público deve responsabilizar Facebook, Google e as outras plataformas pelas suas escolhas. É quase impossível monitorar a autenticidade ou eficácia dos seus esforços contra as fake news porque as plataformas controlam os dados necessários a tais avaliações. É necessário que investigadores independentes tenham acesso a estes dados de uma forma que proteja a privacidade dos utentes, mas que nos ajude todos a compreender o que é que funciona ou não nesta luta contra a desinformação.” (...) 

 

O artigo original de Matthew Baum e David Lazer, publicado em Los Angeles Times

Connosco
Bettany Hugues defendeu a importância da memória na construção do futuro e da paz Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hugues, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hugues como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Para Alberto Dines, “o jornalismo era o próprio sentido da vida” Ver galeria

Cada história é uma vida, e algumas delas são muito especiais. “Alberto Dines foi autor e protagonista de uma dessas trajectórias incomuns: um intelectual visceral, que usou a sua inteligência e lucidez não para disputar uma partida, mas para mudar o jogo.” Sob o título “Uma vida sem ponto final”, um dos seus numerosos discípulos, Bruno Thys, evoca com a saudade de uma relação muito pessoal o percurso e obra de Alberto Dines, falecido em São Paulo em Maio deste ano.

O autor do texto que citamos valoriza uma parte da biografia menos mencionada de Alberto Dines, a que o coloca numa linhagem de judeus emigrados de uma Europa em várias convulsões:

“Dines tornou-se uma das mais cintilantes estrelas de sua geração, a primeira de judeus nascidos no Brasil. (...) Da geração de seus pais, herdou a cultura ancestral. Dines tinha sólida formação humanística e as suas raízes remontam à Haskalá, o iluminismo judaico que floresceu na Europa Ocidental nos séculos XVIII e XIX. Este movimento pregava a interacção da sabedoria judaica com a cultura europeia e produziu nomes como Einstein, Freud, Herzel e Stefan Zweig, o grande biógrafo austríaco, que, muitos anos depois, seria biografado por Dines.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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As notícias falsas e a internet
Francisco Sarsfield Cabral
As redes sociais são, hoje, a principal fonte de informação, se não mesmo a única, para imensa gente. O combate às “fake news” tem que ser feito, não pela censura, mas pela consciencialização dos utilizadores da net. Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil graças à utilização maciça das redes sociais. A maioria dos jornais brasileiros de referência não o apoiou, o...
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