Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Media

A responsabilidade das plataformas digitais na proliferação das notícias falsas

Quanto mais somos expostos a coisas que não são verdadeiras, tanto mais é provável que as aceitemos como sendo de facto. Os leitores tendem a esquecer onde leram a notícia pela primeira vez. Quando voltam a encontrá-la, já é familiar pela primeira exposição, pelo que se torna mais fácil aceitá-la como verdadeira. Não importa que tenha vindo com etiqueta de fake news. A repetição é que conta.

Esta reflexão é de dois investigadores norte-americanos, ambos docentes universitários, sobre o estado actual do combate à desinformação em meio digital. O ponto a que chegam é que as coisas pioraram e, mesmo as soluções propostas pela Google, Facebook e outros gigantes da tecnologia de comunicações, são inadequadas para enfrentar o problema. 

“Reduzir a aceitação das notícias falsas significa, deste modo, torná-las menos familiares. Os editores, produtores, distribuidores e agregadores de conteúdos precisam de deixar de repetir estas histórias, principalmente nos títulos.” (...) 

“A edição online do Washington Post publica regularmente títulos com fact-checker, que consistem em afirmações que necessitam de ser avaliadas, com um ‘Teste Pinóquio’ no fim da história anexa. O problema é que os leitores estão mais inclinados a notar e a recordar a afirmação do que a conclusão.” 

“Outra coisa que sabemos é que as afirmações chocantes fixam-se na memória. Uma quantidade de investigação revelou que as pessoas estão mais inclinadas a escutar e a recordar mais tarde um título sensacionalista ou negativo, mesmo que uma ferramenta de fact checker o assinale como suspeito. As histórias de fake news quase sempre exibem afirmações alarmistas, com a intenção de captar a atenção dos que ‘navegam’ na Rede. Os fact checkers não podem competir  -  principalmente se as suas conclusões aparecem em letras pequenas.” (...) 

“As plataformas da Internet têm talvez o papel mais importante na luta contra as fake news. Precisam de mudar as notícias suspeitas mais para baixo nas listas de temas que são propostos pelos motores de busca ou pelas redes sociais. A chave para a avaliação da credibilidade, e a localização da história, deve focar-se não em temas individuais mas sim na corrente acumulada de conteúdo de um determinado site. A avaliação de histórias individuais é demasiado lenta para deter, com segurança, a sua proliferação.” (...) 

“Finalmente, o público deve responsabilizar Facebook, Google e as outras plataformas pelas suas escolhas. É quase impossível monitorar a autenticidade ou eficácia dos seus esforços contra as fake news porque as plataformas controlam os dados necessários a tais avaliações. É necessário que investigadores independentes tenham acesso a estes dados de uma forma que proteja a privacidade dos utentes, mas que nos ajude todos a compreender o que é que funciona ou não nesta luta contra a desinformação.” (...) 

 

O artigo original de Matthew Baum e David Lazer, publicado em Los Angeles Times

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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