Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Media

“The Boston Globe” reinventa o conceito de jornal metropolitano

O diário norte-americano The Boston Globe orgulha-se de estar à frente no número de assinantes exclusivos da sua edição digital, mas afirma que não vai desistir do jornal impresso nem pretende tornar-se numa empresa digital first. A reestruturação que tem neste momento em curso aponta para “ser grande em todas as plataformas”, mantendo o nível que lhe deu quatro Prémios Pulitzer e oito finalistas nestes últimos quatro anos.

Ao mesmo tempo, o seu director, Brian McGrory, acaba de dirigir a todo o pessoal um documento de incentivo e informação sobre o que vem aí, não escondendo que se trata de uma “reestruturação ambiciosa”, implicando um “esforço disruptivo” que começa já, no início de Maio. 

The Boston Globe define-se como um grande jornal metropolitano, o que significa, nos EUA, que cobre uma cidade importante e a respectiva área metropolitana, algures entre os (muito poucos) jornais de projecção verdadeiramente nacional e a Imprensa de natureza claramente local. 

O comentário de David Uberti, na Columbia Journalism Review, que aqui citamos, diz que os motivos que tornam este diário “um laboratório interessante sobre a reinvenção do jornal metropolitano” são os mesmos que tornam o esforço difícil de copiar para outros casos: “um proprietário bem sucedido e dotado de espírito cívico; instituições locais de alcance nacional e internacional; e uma invulgarmente elevada concentração de licenciados na sua área de cobertura próxima”. 

Segundo o testemunho do analista de media Ken Doctor, em Março de 2017 The Boston Globe tinha ultrapassado as 80 mil assinaturas digitais, “o mais elevado número entre todos os diários de expansão regional no país”. Esta subida foi acentuada nas primeiras semanas do ano, “mas saber se o benefício cresce a um ritmo capaz de contrabalançar as perdas no jornal impresso continua a ser uma questão em aberto”. 

O texto de mobilização de Brian McGrory informa sobre novidades e prioridades, entre estas a constituição de um departamento nomeado Express Desk, bem servido de meios humanos e com “alguns dos nossos melhores editores e repórteres”, para dar aos leitores “aquilo que precisam de saber e que sem dúvida vão desejar saber”. Vai incluir as breaking news (as notícias de última hora), assim como as trending news, sobre o meio social de Boston e arredores, e as apetecíveis histórias locais colhidas de redes sociais ou de fontes directas. 

O fio comum a todas será “a urgência de as ter publicadas”. Aliás, a meio do memorando, o director anuncia que se vai começar a trabalhar mais cedo. “Uma boa parte do Express Desk vai certamente ser lançada entre as seis e as oito. A reunião da manhã vai passar a ser às 9h.15, e toda a redacção vai começar às 9h em vez de às 10h.” 

A respeito do jornal impresso, não há uma desistência, “mas simplesmente não queremos que ele domine tudo aquilo que fazemos e como fazemos, do modo como sucede actualmente”. Os editores responsáveis vão exigir que “o jornal físico, em papel, seja sempre fresco, se não mesmo surpreendente”. 

E a mudança anunciada não é só no estilo e nos ritmos de trabalho. Nas conclusões da sua carta aos que trabalham no Boston Globe, o director põe a questão: 

“Quanto tempo deveria alguém permanecer num posto? A experiência garante sabedoria, confiança e, no nosso ramo, fontes. Mas o ponto fraco incómodo da experiência é, frequentemente, a complacência. (...) Demasiadas pessoas ficam demasiado tempo em demasiadas posições. Vamos então estabelecer que não há postos fixos na redacção do Globe. Vamos sacudir isto. Vamos deixar de temer novas funções. Isto vai revigorar as pessoas, individualmente, e abrir as nossas artérias, colectivamente. A equipa Spotlight, por exemplo, vai passar a ter uma estrita rotação de dois anos, e a revista de Domingo de um ano.” (...)

 

Mais informação no artigo da CJR, de onde colhemos a imagem utilizada, e o memorando de Brian McGrory, na íntegra

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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