Quarta-feira, 16 de Agosto, 2017
Media

“The Boston Globe” reinventa o conceito de jornal metropolitano

O diário norte-americano The Boston Globe orgulha-se de estar à frente no número de assinantes exclusivos da sua edição digital, mas afirma que não vai desistir do jornal impresso nem pretende tornar-se numa empresa digital first. A reestruturação que tem neste momento em curso aponta para “ser grande em todas as plataformas”, mantendo o nível que lhe deu quatro Prémios Pulitzer e oito finalistas nestes últimos quatro anos.

Ao mesmo tempo, o seu director, Brian McGrory, acaba de dirigir a todo o pessoal um documento de incentivo e informação sobre o que vem aí, não escondendo que se trata de uma “reestruturação ambiciosa”, implicando um “esforço disruptivo” que começa já, no início de Maio. 

The Boston Globe define-se como um grande jornal metropolitano, o que significa, nos EUA, que cobre uma cidade importante e a respectiva área metropolitana, algures entre os (muito poucos) jornais de projecção verdadeiramente nacional e a Imprensa de natureza claramente local. 

O comentário de David Uberti, na Columbia Journalism Review, que aqui citamos, diz que os motivos que tornam este diário “um laboratório interessante sobre a reinvenção do jornal metropolitano” são os mesmos que tornam o esforço difícil de copiar para outros casos: “um proprietário bem sucedido e dotado de espírito cívico; instituições locais de alcance nacional e internacional; e uma invulgarmente elevada concentração de licenciados na sua área de cobertura próxima”. 

Segundo o testemunho do analista de media Ken Doctor, em Março de 2017 The Boston Globe tinha ultrapassado as 80 mil assinaturas digitais, “o mais elevado número entre todos os diários de expansão regional no país”. Esta subida foi acentuada nas primeiras semanas do ano, “mas saber se o benefício cresce a um ritmo capaz de contrabalançar as perdas no jornal impresso continua a ser uma questão em aberto”. 

O texto de mobilização de Brian McGrory informa sobre novidades e prioridades, entre estas a constituição de um departamento nomeado Express Desk, bem servido de meios humanos e com “alguns dos nossos melhores editores e repórteres”, para dar aos leitores “aquilo que precisam de saber e que sem dúvida vão desejar saber”. Vai incluir as breaking news (as notícias de última hora), assim como as trending news, sobre o meio social de Boston e arredores, e as apetecíveis histórias locais colhidas de redes sociais ou de fontes directas. 

O fio comum a todas será “a urgência de as ter publicadas”. Aliás, a meio do memorando, o director anuncia que se vai começar a trabalhar mais cedo. “Uma boa parte do Express Desk vai certamente ser lançada entre as seis e as oito. A reunião da manhã vai passar a ser às 9h.15, e toda a redacção vai começar às 9h em vez de às 10h.” 

A respeito do jornal impresso, não há uma desistência, “mas simplesmente não queremos que ele domine tudo aquilo que fazemos e como fazemos, do modo como sucede actualmente”. Os editores responsáveis vão exigir que “o jornal físico, em papel, seja sempre fresco, se não mesmo surpreendente”. 

E a mudança anunciada não é só no estilo e nos ritmos de trabalho. Nas conclusões da sua carta aos que trabalham no Boston Globe, o director põe a questão: 

“Quanto tempo deveria alguém permanecer num posto? A experiência garante sabedoria, confiança e, no nosso ramo, fontes. Mas o ponto fraco incómodo da experiência é, frequentemente, a complacência. (...) Demasiadas pessoas ficam demasiado tempo em demasiadas posições. Vamos então estabelecer que não há postos fixos na redacção do Globe. Vamos sacudir isto. Vamos deixar de temer novas funções. Isto vai revigorar as pessoas, individualmente, e abrir as nossas artérias, colectivamente. A equipa Spotlight, por exemplo, vai passar a ter uma estrita rotação de dois anos, e a revista de Domingo de um ano.” (...)

 

Mais informação no artigo da CJR, de onde colhemos a imagem utilizada, e o memorando de Brian McGrory, na íntegra

Connosco
Modos de combater a vigilância electrónica sobre jornalistas e as suas fontes Ver galeria

Jornalistas que tenham de trabalhar em ambientes autoritários tendem a ser alvo de vigilância electrónica. Muitos acabam por se adaptar e aceitá-la como um risco indesejado, mas inevitável na sua profissão. Ou podem tentar combatê-la. “Afinal de contas, ela ameaça a sua segurança, bem como das suas fontes, e constitui um ataque à liberdade de Imprensa e de expressão.” A reflexão é do jornalista mexicano Jorge Luis Sierra, perito em segurança digital, que adianta alguns conselhos práticos para casos destes. 

A avalancha da Internet atropelou a nossa capacidade de lidar com tantos dados Ver galeria

A grande revolução nas rotinas e normas do jornalismo foi-nos imposta, não pelo computador, mas pela Internet, quando “a avalancha informativa e as redes sociais virtuais atropelaram a capacidade das redacções processarem informações; (...) o volume cresceu em tal magnitude que se tornaram incapazes de lidar com tantos dados, factos e eventos”.

A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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Opinião
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