Quarta-feira, 18 de Julho, 2018
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Quando a ética jornalística se deixa viciar pelo cinismo

O jornalismo tem uma missão indispensável à democracia mas, quando consente em degradar-se, afasta-se do seu fundamento de “afligir os satisfeitos e satisfazer os aflitos”, tornando-se exactamente no contrário disso. A propósito da controversa figura jurídica da “delação premiada”, o autor do Comentário da Semana do ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística, faz uma reflexão sobre o que sucede quando o jornalismo segue o caminho do cinismo.

O texto começa por uma referência à Crítica da Razão Cínica, de Peter Sloterdijk, publicado em 1983 na Alemanha, comouma referência para entender o comportamento humano, representado por várias instituições, ao final do século 20”. 

“Ele já percebia cinismo crescente à época em diversas actividades, como na religiosa, nas forças armadas, na política parlamentar, no Estado…Também não deixa de falar sobre o jornalismo. O autor alemão considerava que o jornalismo estava se tornando um terreno mais fértil para a legitimação pública de ideias do que os próprios institutos de relações públicas, as agências de publicidade, os estúdios de propaganda e congéneres. Verificava tal tendência. Era mais conveniente e crível que o jornalismo continuasse a se chamar jornalismo, mas vivesse de estratégias como a da propaganda.” (...) 

O autor deste Comentário da Semana, Francisco José Castilhos Karam, investigador do ObjEthos e autor, entre outros textos, de Jornalismo, Ética e Liberdade, toma partido sobre a actual situação política no seu país, afirmando: 

“Talvez hoje, no Brasil de 2017, consigamos, quase quatro décadas depois do livro Crítica da Razão Cínica, constatar que a Imprensa  – como instituição consolidada na Modernidade e na democracia –  ajudou a confirmar o autor alemão. Sim, a maior parte do jornalismo da chamada grande media faz parte, actualmente, de um amplo processo de propaganda de interesses particulares, desvinculando-se, a despeito da vontade e esforço de muitos de seus profissionais, do até então marco do interesse público. Uma nova etapa? Ainda dá pra chamar de jornalismo?” 

“Embora ofereça muita munição como pauta, a troca de delação por liberdade não é tema de investigação jornalística. Faz parte do cinismo contemporâneo.” (...) 

O seu diagnóstico final é pesado:

“Infelizmente, a partir das reformas propostas por Temer e apoiadas pelos media, subsidiados para defender interesses privados patrocinados pela propina oferecida diariamente pelo governo às empresas jornalísticas e nem mais disfarçada, ‘chegar lá’ torna-se uma utopia cada vez mais distante.” 

“O dinheiro público que vai para a empresa jornalística sai ‘do meu bolso, do seu bolso’, do ‘bolso do contribuinte’ e agrava ainda mais a ‘crise da Previdência e do País’. Quanto às delações, a investigação jornalística, se jornalismo houvesse, deveria apresentar precisão, factos e documentos de acordo com o tamanho das denúncias. Mas estamos no reino do cinismo.”

 

O original, na íntegra, em ObjEthos, de onde recolhemos igualmente o cartoon que inserimos

Connosco
CPI e "Tribuna de Macau" instituem Prémios de Ensaio e de Jornalismo da Lusofonia Ver galeria

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Mantém-se o espírito original de distinguir trabalhos “no quadro do desejado aprofundamento de todos os aspectos ligados à Língua Portuguesa, com relevo para a singularidade do posicionamento de Macau no seu papel de plataforma de ligação entre países de Língua Oficial Portuguesa”.

Jornalismo "ao vivo" em festival de Verão de "Le Monde" Ver galeria

Um festival de Verão sem estrondo de altifalantes, sem música de “fogo-de-artifício”, todo baseado na palavra, na conversa em grupo ou no diálogo directo com os jornalistas presentes. Durante o fim-de-semana de 13 a 15 de Julho, cerca de 4500 inscritos animaram a terceira edição do Festival Internacional de Jornalismo organizado pelo grupo Le Monde na localidade de Couthures, em França, à beira do rio Garonne. A aldeia não chega aos 400 habitantes, mas mais de 100 voluntários ajudaram a fazer funcionar, durante três dias, um encontro de muitos debates. Como disse Gilles van Kote, jornalista de Le Monde, a intenção era precisamente a de que tudo pudesse ser posto em questão, “sem tabus”.

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