Terça-feira, 27 de Junho, 2017
Fórum

Quando a ética jornalística se deixa viciar pelo cinismo

O jornalismo tem uma missão indispensável à democracia mas, quando consente em degradar-se, afasta-se do seu fundamento de “afligir os satisfeitos e satisfazer os aflitos”, tornando-se exactamente no contrário disso. A propósito da controversa figura jurídica da “delação premiada”, o autor do Comentário da Semana do ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística, faz uma reflexão sobre o que sucede quando o jornalismo segue o caminho do cinismo.

O texto começa por uma referência à Crítica da Razão Cínica, de Peter Sloterdijk, publicado em 1983 na Alemanha, comouma referência para entender o comportamento humano, representado por várias instituições, ao final do século 20”. 

“Ele já percebia cinismo crescente à época em diversas actividades, como na religiosa, nas forças armadas, na política parlamentar, no Estado…Também não deixa de falar sobre o jornalismo. O autor alemão considerava que o jornalismo estava se tornando um terreno mais fértil para a legitimação pública de ideias do que os próprios institutos de relações públicas, as agências de publicidade, os estúdios de propaganda e congéneres. Verificava tal tendência. Era mais conveniente e crível que o jornalismo continuasse a se chamar jornalismo, mas vivesse de estratégias como a da propaganda.” (...) 

O autor deste Comentário da Semana, Francisco José Castilhos Karam, investigador do ObjEthos e autor, entre outros textos, de Jornalismo, Ética e Liberdade, toma partido sobre a actual situação política no seu país, afirmando: 

“Talvez hoje, no Brasil de 2017, consigamos, quase quatro décadas depois do livro Crítica da Razão Cínica, constatar que a Imprensa  – como instituição consolidada na Modernidade e na democracia –  ajudou a confirmar o autor alemão. Sim, a maior parte do jornalismo da chamada grande media faz parte, actualmente, de um amplo processo de propaganda de interesses particulares, desvinculando-se, a despeito da vontade e esforço de muitos de seus profissionais, do até então marco do interesse público. Uma nova etapa? Ainda dá pra chamar de jornalismo?” 

“Embora ofereça muita munição como pauta, a troca de delação por liberdade não é tema de investigação jornalística. Faz parte do cinismo contemporâneo.” (...) 

O seu diagnóstico final é pesado:

“Infelizmente, a partir das reformas propostas por Temer e apoiadas pelos media, subsidiados para defender interesses privados patrocinados pela propina oferecida diariamente pelo governo às empresas jornalísticas e nem mais disfarçada, ‘chegar lá’ torna-se uma utopia cada vez mais distante.” 

“O dinheiro público que vai para a empresa jornalística sai ‘do meu bolso, do seu bolso’, do ‘bolso do contribuinte’ e agrava ainda mais a ‘crise da Previdência e do País’. Quanto às delações, a investigação jornalística, se jornalismo houvesse, deveria apresentar precisão, factos e documentos de acordo com o tamanho das denúncias. Mas estamos no reino do cinismo.”

 

O original, na íntegra, em ObjEthos, de onde recolhemos igualmente o cartoon que inserimos

Connosco
Uma foto icónica partilhada por jornais e redes sociais Ver galeria

Há imagens que valem por mil palavras. Esta que reproduzimos acima é uma delas, registada pelo bombeiro Pedro Brás, no segundo dia do incêndio de Pedrogão Grande, quando 13 companheiros se deitaram no chão exaustos, no combate aos fogos.

A foto foi reproduzida, originalmente, pelos jornais espanhóis El Mundo e El Pais e, também, entre outros, pelo site electrónico Observador, doqual retiramos este documento.

Mais tarde, a imagem percorreu mundo, através das redes sociais e tornou-se icónica de uma luta desigual contra uma calamidade em que morreram 64 habitantes de Pedrogão Grande e 254 ficaram feridos, segundo as ultimas estimativas.

A foto foi tirada na manhã de 18 de Junho, e ganhou estatuto de viral. É uma imagem que “fala por si”, representando, simbolicamente, a homenagem a todos os bombeiros que estiveram envolvidos na contenção do  terrível sinistro.

Em pouco tempo, registaram-se cerca de 80 mil partilhas na rede social Facebook, e a  foto ganhou expressão, também, no Twitter e noutros  meios de comunicação social espalhados pelo mundo.

Dirigentes europeus intimam redes sociais a envolverem-se na luta contra o extremismo online Ver galeria
O Clube

 
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia é a nova iniciativa promovida pelo Clube Português de Imprensa (CPI) em parceria com o Jornal Tribuna de Macau (JTM), no quadro das comorações que assinalam o 35º aniversário daquele diário de língua portuguesa em Macau.

Com o valor de 10 mil euros e periodicidade anual, o Prémio será atribuído por um Júri constituído por representantes do CPI, do JTM e por personalidades de reconhecido mérito na área do jornalismo ou que se tenham distinguido na defesa, divulgação ou ensino da Língua Portuguesa no Mundo.

Trata-se, pois, de um novo Prémio que, de acordo com o respectivo Regulamento (que inserimos noutro espaço deste site) se destina “a jornalistas e à Imprensa de Língua Portuguesa de todo o Mundo, em suporte papel ou digital”. 


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Opinião
Que terá movido o Sindicato dos Jornalistas (SJ) a questionar o jornal espanhol El Mundo sobre a identidade de  um seu correspondente que cobriu os incêndios de Pedrogão Grande?   Diz a direcção do Sindicato, no respectivo site,  que “ decidiu pedir informações sobre as dúvidas levantadas acerca do suposto jornalista Sebastião Pereira(…)” . O Sindicato levou os seus esforços de...
Dados os muitos terabytes de prosa – sólidamente negativa – com que os media globais saudaram a decisão do presidente Trump, anunciada em discurso na Casa Branca no passado dia 1 de Junho, de retirar os EUA. do Acordo de Paris, seria de esperar uma cobertura exaustiva do tema, ou seja, que nenhum aspecto ou complexidade dessa terrível ameaça para a saúde do planeta escapasse à atenção dos “opinion leaders”, em...
Trump, Macron e a comunicação social
Francisco Sarsfield Cabral

O Presidente Trump está em guerra aberta com a comunicação social americana. E esta, na sua grande maioria, não gosta de Trump. Vários presidentes anteriores foram muito criticados pela Imprensa dos EUA – Reagan, por exemplo. Mas o grau de hostilidade que agora existe entre a Casa Branca e os jornalistas é de nível excepcionalmente alto.

Num livro colectivo acabado de publicar, simultaneamente, em treze línguas e em dezenas de países espalhados pelo mundo inteiro, cuja versão francesa se intitula, significativamente, L’âge de la Régression: Pourquoi nous vivons un tournant historique[1], Appadurai disserta sobre o «sentimento de cansaço» que, na sua opinião domina a esfera pública. Sentimento de cansaço relativamente à forma de fazer...
Fim de semana alucinante, sábado épico, jornada inédita. Muito se tem chamado a este 13 de maio, dia de Fátima, do Santo Padre, do anjo Vitória e do arcanjo Sobral. As notícias, as reportagens, os diretos. O frenesim tem sido imenso. Aliás já começou há uns dias. Amanhã, depois do nascer do sol, era bom que houvesse alguma reflexão sobre o que se passou. Será que tanta agitação na...
Agenda
11
Jul
Exposição de Jornais Centenários em Bruxelas
09:00 @ Parlamento Europeu, Bruxelas
12
Jul
Curso de Verão “Jornalismo de Investigação”
09:00 @ Universidade Internacional Menéndez Pelayo, Santander
13
Jul
Westminster Media Forum
09:00 @ Central London, Londres
27
Jul
Festival de Jornalismos de Verão
09:00 @ Couthures, França