Terça-feira, 22 de Agosto, 2017
Media

Crónica das “notícias falsas” tem antecedentes em jornais alemães do séc. XIX

Habituámo-nos a identificar o fenómeno das “notícias falsas” como uma espécie de praga recente, trazida pela crispação política e potenciada pelos meios digitais; até lhe démos um nome actual  - fakenews. Mas um artigo de Petra McGillen vai ao jornalismo alemão do séc. XIX e tira do esquecimento aquilo que já era, no fundo, a mesma coisa; e também tinha nome  - unechte Korrespondenz. Uma história que nos faz pensar.

A autora, professora de estudos alemães no Dartmouth College, nos Estados Unidos, interessa-se pela história do jornalismo, desde a era industrial da Imprensa, e foi por esse caminho que chegou a Theodor Fontane, a personagem deste episódio, sobre quem está a escrever um livro. 

A questão de fundo, como conta num artigo que aqui citamos do NiemanLab, é perceber como é que as fakenews funcionam, e têm o efeito de convencer as pessoas, e o resultado da sua investigação é que “as fakenews são eficazes porque nos contam alguma coisa sobre o mundo que, de certo modo, nós já sabíamos”. A explicação parece pouco convincente, mas a autora desenvolve, mais adiante, uma análise mais focada sobre os "truques" pessoais de redacção que tornam essas histórias emocionantes e, por esse lado, apelativas e credíveis.  

“As fakenews floresceram no séc. XIX. Nesse período, a circulação de jornais e revistas aumentou muitíssimo, em consequência do progresso na tecnologia de imprensa e do facto de o papel se ter tornado mais barato. Agências de notícias profissionais apareceram nas maiores cidades do mundo, enquanto o telégrafo permitia que as mensagens fossem rapidamente enviadas entre continentes.”

Para vencerem a concorrência, os jornais passaram a procurar ter correspondentes no estrangeiro. “A ideia era que os correspondentes podiam produzir reportagens e análises de um ponto de vista pessoal, que os leitores achariam mais apelativo do que os relatos impessoais que vinham das agências de notícias.” 

Mas como ficava caro mandar repórteres ao estrangeiro, os jornais que não tinham meios para o fazer “arranjaram uma solução criativa e mais barata: pagavam a redactores locais para fingirem que estavam a enviar despachos noticiosos de fora”. 

“Em meados do séc. XIX, o fenómeno era tão generalizado na Alemanha que se tinha tornado um género próprio  - a unechte Korrespondenz, ou ‘a carta do falso correspondente no estrangeiro’, como lhe chamavam  no meio jornalístico alemão.” 

Theodor Fontane tinha sido farmacêutico antes de entrar para a redacção do jornal ultra-conservador Kreuzzeitung, de Berlim, que o encarregou “de fazer a cobertura da Inglaterra e, durante uma década, ele publicou reportagens umas atrás das outras, ‘desde’ Londres, fascinando os seus leitores com relatos ‘pessoais’ de acontecimentos dramáticos, como o grande incêndio de Tooley Street, em 1861”. 

O artigo de Petra McGillen detém-se nos pormenores da arte, passando depois a um exemplo de hoje, das eleições presidenciais nos EUA, em que um autor de fakenews acaba por contar mais tarde, ao New York Times, de que modo tinha construído a “descoberta” de umas urnas de voto, algures no Ohio, cheias de boletins de voto em Hillary Clinton. 

A autora detém-se sobre a análise de estilo literário, num e noutro caso, e identifica os pontos comuns. A lição actual é que, com “o aumento fenomenal no consumo de notícias” que se deu no final da campanha e durante a eleição, torna-se realmente difícil “discernir entre o que é falso e o que não é”.

 

O artigo original, no NiemanLab

 

Connosco
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Este artigo é o terceiro da série sobre o tema “Da pós-verdade ao risco da pós-imprensa”, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

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São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

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