Quinta-feira, 21 de Março, 2019
Media

Crónica das “notícias falsas” tem antecedentes em jornais alemães do séc. XIX

Habituámo-nos a identificar o fenómeno das “notícias falsas” como uma espécie de praga recente, trazida pela crispação política e potenciada pelos meios digitais; até lhe démos um nome actual  - fakenews. Mas um artigo de Petra McGillen vai ao jornalismo alemão do séc. XIX e tira do esquecimento aquilo que já era, no fundo, a mesma coisa; e também tinha nome  - unechte Korrespondenz. Uma história que nos faz pensar.

A autora, professora de estudos alemães no Dartmouth College, nos Estados Unidos, interessa-se pela história do jornalismo, desde a era industrial da Imprensa, e foi por esse caminho que chegou a Theodor Fontane, a personagem deste episódio, sobre quem está a escrever um livro. 

A questão de fundo, como conta num artigo que aqui citamos do NiemanLab, é perceber como é que as fakenews funcionam, e têm o efeito de convencer as pessoas, e o resultado da sua investigação é que “as fakenews são eficazes porque nos contam alguma coisa sobre o mundo que, de certo modo, nós já sabíamos”. A explicação parece pouco convincente, mas a autora desenvolve, mais adiante, uma análise mais focada sobre os "truques" pessoais de redacção que tornam essas histórias emocionantes e, por esse lado, apelativas e credíveis.  

“As fakenews floresceram no séc. XIX. Nesse período, a circulação de jornais e revistas aumentou muitíssimo, em consequência do progresso na tecnologia de imprensa e do facto de o papel se ter tornado mais barato. Agências de notícias profissionais apareceram nas maiores cidades do mundo, enquanto o telégrafo permitia que as mensagens fossem rapidamente enviadas entre continentes.”

Para vencerem a concorrência, os jornais passaram a procurar ter correspondentes no estrangeiro. “A ideia era que os correspondentes podiam produzir reportagens e análises de um ponto de vista pessoal, que os leitores achariam mais apelativo do que os relatos impessoais que vinham das agências de notícias.” 

Mas como ficava caro mandar repórteres ao estrangeiro, os jornais que não tinham meios para o fazer “arranjaram uma solução criativa e mais barata: pagavam a redactores locais para fingirem que estavam a enviar despachos noticiosos de fora”. 

“Em meados do séc. XIX, o fenómeno era tão generalizado na Alemanha que se tinha tornado um género próprio  - a unechte Korrespondenz, ou ‘a carta do falso correspondente no estrangeiro’, como lhe chamavam  no meio jornalístico alemão.” 

Theodor Fontane tinha sido farmacêutico antes de entrar para a redacção do jornal ultra-conservador Kreuzzeitung, de Berlim, que o encarregou “de fazer a cobertura da Inglaterra e, durante uma década, ele publicou reportagens umas atrás das outras, ‘desde’ Londres, fascinando os seus leitores com relatos ‘pessoais’ de acontecimentos dramáticos, como o grande incêndio de Tooley Street, em 1861”. 

O artigo de Petra McGillen detém-se nos pormenores da arte, passando depois a um exemplo de hoje, das eleições presidenciais nos EUA, em que um autor de fakenews acaba por contar mais tarde, ao New York Times, de que modo tinha construído a “descoberta” de umas urnas de voto, algures no Ohio, cheias de boletins de voto em Hillary Clinton. 

A autora detém-se sobre a análise de estilo literário, num e noutro caso, e identifica os pontos comuns. A lição actual é que, com “o aumento fenomenal no consumo de notícias” que se deu no final da campanha e durante a eleição, torna-se realmente difícil “discernir entre o que é falso e o que não é”.

 

O artigo original, no NiemanLab

 

Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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