Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Literacia "neo-jornalística" versus “jornalismo-cidadão”

É verdade que o chamado “jornalismo-cidadão” não pode substituir o trabalho de um repórter profissional. Mas todos sabemos que muitos media, sobretudo as estações de televisão, não resistem a utilizar vídeos espontâneos de quem estava no local onde as coisas aconteceram (nem podemos condenar em absoluto essa prática). Finalmente, o que hoje acontece é que muitos profissionais estão, eles próprios, a tirar partido das novas tecnologias de bolso  - por motivos evidentes. O jornalista australiano Ivo Burum foi por este caminho e explica como e porquê.

Antes do mais, o autor do texto que citamos adopta uma designação para falar do que faz: mojo, abreviatura de mobile journalism  -  o tipo de jornalismo que se pode fazer com os novos dispositivos móveis. Mas para nos situarmos em todas as questões envolvidas, começa por uma série de perguntas: 

“A pessoa que filma com um smartphone, mas depois edita num computador portátil, está em mojo? As definições de mojo podem incluir alguém que usa uma máquina fotográfica digital para fazer a captação, mas que depois edita num smartphone?” 

“E como é se alguém está no sítio certo à hora certa e filma um avião a cair no Rio Hudson, e depois faz o respectivo upload? Quem é o jornalista, neste exemplo  - o cidadão que se torna testemunha acidental, ou a CNN, que usou [o ficheiro disponível] e lhe chamou ‘jornalismo de cidadão’?” 

Ivo Burum continua:

“A concepção tradicional do mojo como sendo um processo de filmar, editar, escrever e publicar reportagens vídeo usando um smartphone é aquilo que Glen Mulcahy, o responsável por Inovações na rede irlandesa RTE, chama ‘a visão purista’. O que ele acredita é que ‘no jornalismo mobile, trata-se de dotar [empowering, no original] a testemunha individual com as competências no uso de todas as tecnologias que lhe estejam acessíveis, para obter a melhor reportagem que consiga’...” 

O autor que citamos está de acordo, desde que isso implique uma “literacia neo-jornalística”, uma “voz jornalística” e uma edição estruturada. Acrescenta a sua própria definição: 

“Em termos simples, mojo é uma combinação de competências de reportagem digital e ferramentas utilizadas para captar e transformar material em bruto, proveniente de conteúdos de utentes (UGC – user generated contents) e torná-lo em reportagens provenientes de utentes (UGS – user-generated stories).” 

A partir deste ponto, Ivo Burum passa a falar das vantagens relativas deste ou daquele material  -  gravadores, lentes, microfones, modelos de smartphones, memórias externas para dar espaço a mais trabalho, etc.

 

O artigo original, na Global Investigative Journalism Network

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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