Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Media

Mais uma ferramenta contra a natureza tendenciosa da nossa leitura de notícias

Na ressaca do debate sobre a credibilidade dos media, e num clima em que a designação de fake news se tornou uma arma de arremesso recíproco entre protagonistas inconciliáveis, está em curso a procura de ferramentas que possam orientar os leitores. The Huffington Post desenvolveu a sua própria, chamou-lhe The Flipside e apresentou-a ao público. Basicamente, é uma grelha de leitura interactiva, que recolhe os títulos mais recentes de 14 publicações e os arruma num espaço cuja linha vertical desce do mais digno de crédito até ao menos digno, abrindo-se a linha horizontal entre uma direita mais conservadora uma esquerda mais liberal.

O objectivo de fundo, nesta como noutras diligências semelhantes, é o de romper com a famosa “bolha de filtro” em que a informação digital, mediada pelas redes sociais, tende por natureza a aprisionar-nos. A jornalista Laura Hazard Owen, que apresenta este projecto no NiemanLab, e cujo artigo aqui citamos, começa por dizer que, se pertencemos “àquele reduzido número de pessoas que realmente se preocupam a respeito da natureza tendenciosa do seu consumo de notícias, temos de fazer algum trabalho”. 

Basicamente, é uma forma de irmos ver de que modo as outras pessoas, de convicções diferentes ou até opostas às nossas, lêem notícias sobre os mesmos assuntos, e onde as vão buscar  - explica.

Houve a preocupação de criar um instrumento muito simples, que não precisa de ser instalado por uma aplicação. Os títulos que aparecem no Flipside são colhidos de 14 publicações (norte-americanas, neste caso), transmitidos pelo Twitter nas últimas duas horas: 

“Não é The Huffington Post quem classifica as fontes, nem quanto à credibilidade nem quanto à ideologia. Os rankings ideológicos são os do estudo do Public Opinion Quarterly de 2016, que usou uma combinação de aprendizagem computorizada [machine learning, no original] e de consulta pública [crowdsourcing, no original] para dispor as fontes de informação no espectro desenhado. Quanto aos ratings de credibilidade, trabalharam em parceria com o site Snopes.com para atribuir essa classificação.” 

“Os ratings estão certamente abertos a discussão; por alguma razão, a Reuters aparece de modo significativo menos credível do que outros grandes media. Quando se dá uma volta pela ferramenta, vê-se que The Huffington Post está incluído na grelha  - e classificado, do ponto de vista da credibilidade, abaixo de The New York Times e The Washington Post. Na realidade, o Snopes deu-lhe a mesma classificação de credibilidade que tem a Fox News.”

 

 

O artigo citado, no NiemanLab, e a apresentação do Flipside em The Huffington Post

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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Francisco Sarsfield Cabral
O caso da participação num programa matinal da TVI de um racista, já condenado e tendo cumprido pena de prisão, Mário Machado, suscitou polémica. Ainda bem, porque as questões em causa são importantes. Mas, como é costume, o debate rapidamente derivou para um confronto entre a esquerda indignada por se ter dado tempo de antena a um criminoso fascista e a direita defendendo a liberdade de expressão e a dualidade de...
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