Quarta-feira, 16 de Agosto, 2017
Media

Mais uma ferramenta contra a natureza tendenciosa da nossa leitura de notícias

Na ressaca do debate sobre a credibilidade dos media, e num clima em que a designação de fake news se tornou uma arma de arremesso recíproco entre protagonistas inconciliáveis, está em curso a procura de ferramentas que possam orientar os leitores. The Huffington Post desenvolveu a sua própria, chamou-lhe The Flipside e apresentou-a ao público. Basicamente, é uma grelha de leitura interactiva, que recolhe os títulos mais recentes de 14 publicações e os arruma num espaço cuja linha vertical desce do mais digno de crédito até ao menos digno, abrindo-se a linha horizontal entre uma direita mais conservadora uma esquerda mais liberal.

O objectivo de fundo, nesta como noutras diligências semelhantes, é o de romper com a famosa “bolha de filtro” em que a informação digital, mediada pelas redes sociais, tende por natureza a aprisionar-nos. A jornalista Laura Hazard Owen, que apresenta este projecto no NiemanLab, e cujo artigo aqui citamos, começa por dizer que, se pertencemos “àquele reduzido número de pessoas que realmente se preocupam a respeito da natureza tendenciosa do seu consumo de notícias, temos de fazer algum trabalho”. 

Basicamente, é uma forma de irmos ver de que modo as outras pessoas, de convicções diferentes ou até opostas às nossas, lêem notícias sobre os mesmos assuntos, e onde as vão buscar  - explica.

Houve a preocupação de criar um instrumento muito simples, que não precisa de ser instalado por uma aplicação. Os títulos que aparecem no Flipside são colhidos de 14 publicações (norte-americanas, neste caso), transmitidos pelo Twitter nas últimas duas horas: 

“Não é The Huffington Post quem classifica as fontes, nem quanto à credibilidade nem quanto à ideologia. Os rankings ideológicos são os do estudo do Public Opinion Quarterly de 2016, que usou uma combinação de aprendizagem computorizada [machine learning, no original] e de consulta pública [crowdsourcing, no original] para dispor as fontes de informação no espectro desenhado. Quanto aos ratings de credibilidade, trabalharam em parceria com o site Snopes.com para atribuir essa classificação.” 

“Os ratings estão certamente abertos a discussão; por alguma razão, a Reuters aparece de modo significativo menos credível do que outros grandes media. Quando se dá uma volta pela ferramenta, vê-se que The Huffington Post está incluído na grelha  - e classificado, do ponto de vista da credibilidade, abaixo de The New York Times e The Washington Post. Na realidade, o Snopes deu-lhe a mesma classificação de credibilidade que tem a Fox News.”

 

 

O artigo citado, no NiemanLab, e a apresentação do Flipside em The Huffington Post

Connosco
Modos de combater a vigilância electrónica sobre jornalistas e as suas fontes Ver galeria

Jornalistas que tenham de trabalhar em ambientes autoritários tendem a ser alvo de vigilância electrónica. Muitos acabam por se adaptar e aceitá-la como um risco indesejado, mas inevitável na sua profissão. Ou podem tentar combatê-la. “Afinal de contas, ela ameaça a sua segurança, bem como das suas fontes, e constitui um ataque à liberdade de Imprensa e de expressão.” A reflexão é do jornalista mexicano Jorge Luis Sierra, perito em segurança digital, que adianta alguns conselhos práticos para casos destes. 

A avalancha da Internet atropelou a nossa capacidade de lidar com tantos dados Ver galeria

A grande revolução nas rotinas e normas do jornalismo foi-nos imposta, não pelo computador, mas pela Internet, quando “a avalancha informativa e as redes sociais virtuais atropelaram a capacidade das redacções processarem informações; (...) o volume cresceu em tal magnitude que se tornaram incapazes de lidar com tantos dados, factos e eventos”.

A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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Opinião
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