Quarta-feira, 16 de Agosto, 2017
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Estarão as redes distribuidoras à altura das novas responsabilidades?

As grandes plataformas que se tornaram distribuidoras de notícias tiveram, até muito recentemente, relutância em admitir que eram, finalmente, editoras, e que tinham de assumir responsabilidades como tal. Estão agora a mudar um pouco, mas entre elas e os media propriamente ditos permanece uma enorme desproporção de forças. A jornalista britânica Emily Bell, cuja reflexão sobre esta matéria tem produzido vários textos de referência, faz, em The Guardian, o ponto de situação.

A autora começa por lembrar o ponto a que chegámos. É muito recente a polémica em que Google e Facebook foram confrontados com o facto de, no primeiro caso, os anunciantes encontrarem os seus produtos ao lado de vídeos racistas, ou “jihadistas”, e, no segundo, ter ficado claro que a maior plataforma social se tinha tornado também na maior distribuidora de “factos” inventados e fake news

A perplexidade de Emily Bell põe a questão de saber como é que estas coisas estiveram “escondidas à vista de todos” durante tanto tempo:  “O facto de que só agora a Google está a dar aos anunciantes a lista de todos os canais onde os seus anúncios aparecem é surpreendente; ninguém tinha pedido antes?” 

Sir Martin Sorrell, presidente da grande agência publicitária WPP, é citado sobre esta matéria: “Sempre dissémos que Google, Facebook e outras são empresas de media e têm as mesmas responsabilidades... Não podem mascarar-se como empresas tecnológicas, especialmente quando colocam anúncios.”   

Emily Bell passa às consequências:

“Ao agirem como empresas tecnológicas, mas assumindo, de facto, o papel de editoras, Google, Facebook e outras acabaram por, acidentalmente, projectar um sistema que eleva os conteúdos mais baratos e mais ‘apelativos’ às custas do material mais dispendioso mas menos ‘distribuível’. Qualquer pessoa que queira chegar a um milhão de leitores, com um vídeo mal feito de teorias de conspiração, tem sorte. Mas se quisermos manter uma redacção bem apetrechada para cobrir uma cidade de 200 mil habitantes, descobrimos que não é sustentável.” 

“É o cúmulo da ironia que a moeda das redes sociais, que são os likes e os shares, as mais das vezes estejam directamente relacionados com a agressividade ou o sensacionalismo da notícia. Os media populistas armados, que já nem sequer precisam de pegar num telefone para vender publicidade, ficaram livres para serem tão extremistas quanto queiram. Como disse, em tweet, o troll americano de direita (e personalidade dos media) Mike Cernovich, ‘Conflito é atenção, e atenção é influência’.” 

Emily Bell faz uma comparação entre duas crises:

“Assim como, em 2008, assistimos a uma crise nos mercados financeiros, em 2016 vimos uma semelhante no mercado da informação pública. O paralelo é notável: produtos de má qualidade circularam a alta velocidade através de sistemas de negócio automáticos, fora do controlo mesmo daqueles que os haviam projectado.” 

“À semelhança do Goldman Sachs, Facebook e Google são too big to fail (demasiado grandes para tombarem), mas, ao contrário dos bancos de investimento, os desenvolvimentos políticos dos últimos seis meses galvanizaram uma resposta mais ideológica das chefias das empresas.” (...) 

A curiosidade (misturada de esperança) de Emily Bell é a de ver de que modo os gigantes de Silicon Valley vão agora responder às novas responsabilidades que já não podem negar.

 

O original da autora, na íntegra, em The Guardian

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Modos de combater a vigilância electrónica sobre jornalistas e as suas fontes Ver galeria

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A avalancha da Internet atropelou a nossa capacidade de lidar com tantos dados Ver galeria

A grande revolução nas rotinas e normas do jornalismo foi-nos imposta, não pelo computador, mas pela Internet, quando “a avalancha informativa e as redes sociais virtuais atropelaram a capacidade das redacções processarem informações; (...) o volume cresceu em tal magnitude que se tornaram incapazes de lidar com tantos dados, factos e eventos”.

A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

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Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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