Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Media

Jornalista sueco usa a lógica do “Twitter” para furar a “bolha de filtro”

A expressão “bolha de filtro” foi popularizada nos Estados Unidos para designar o isolamento informativo a que somos confinados quando passamos a depender de redes sociais que nos agrupam entre os que já têm pontos de vista semelhantes aos nossos. Agora, na Suécia, um jornalista e comentador no jornal Sydsvenskan desenvolveu uma ferramenta informática que usa o algoritmo do Twitter para obter o efeito contrário: o de proporcionar ao leitor, num relance, lado a lado, três pontos de vista sobre as questões políticas do momento  - uma mais à esquerda, outra mais ao centro, a outra mais à direita.

A inspiração inicial de Per Grankvist vem do Red Feed, Blue Feed, posto em prática por The Wall Street Journal, e que ele reconhece como “um bom ponto de partida”. Mas Grankvist defende que o facto de usar o algoritmo da plataforma, em vez de decisões humanas de natureza editorial, e ainda o de colocar os tweets dentro do contexto de tópicos políticos específicos, tornam a sua ferramenta mais poderosa. 

O seu projecto seguiu, portanto, o caminho do próprio Twitter na relação com os consumidores, ao oferecer-lhes material baseado nos tópicos e nas pessoas em que eles já estão interessados. Para construir cada “bolha”, o autor criou uma nova conta Twitter e seguiu seis a doze contas sugeridas para figuras centrais de cada uma, tais como dirigentes partidários e secretários. 

Depois foi registando as outras contas sugeridas pelo mesmo Twitter, acrescentando nomes até chegar a um número de cerca de 80 para todas três, cada uma das quais representa a fonte de informação de uma pessoa hipotética (estas listas não incluem meios de comunicação). 

“Cada tweet que entra é analisado pelo conteúdo e colocado, em tempo real, na sua fonte. O Filterbubblan segue os grandes tópicos da política, como a habitação, crime, igualdade, educação e saúde. Como era de esperar, estes tópicos são tratados de modo muito diferente consoante a fonte; os que ficam mais à direita, por exemplo, usaram o recente ataque terrorista em Londres para falar dos perigos da imigração não controlada.” 

A política na Suécia não é tão crispada, partidariamente, como noutros países. As listas de Twitter que Grankvist fez nos EUA “raramente tinham sobreposição, mas ele diz que as ‘bolhas de filtro’ no debate político sueco se dispõem numa escala contínua, um reflexo do modo como o sistema parlamentar do país torna mais realista a construção de coligações”. 

Os monitores de telemóvel apresentados na imagem indicam, à esquerda, os partidos liberais, representados a vermelho e verde; verde e azul representam os partidos do centro; e à direita ficam os mais conservadores, a azul e azul escuro [nos EUA, este contraste entre azul e vermelho tem o significado político inverso]. 

“Com um deslisar do dedo, os utentes podem navegar de uma fonte para a outra, simplificando o processo de lerem de que modo determinado tópico é discutido em diferentes meios políticos.”

 

 

Mais informação no artigo que citamos, em NiemanLab

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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