Quinta-feira, 19 de Outubro, 2017
Media

Quando o jornalismo de qualidade não chega para recuperar a confiança

Se nos preocupamos com a quebra de confiança nos meios de comunicação tradicionais, a verdade é que não estamos sós. Tem acontecido o mesmo a todas as instituições de referência, com a má notícia de que essa confiança não se desvaneceu, mas mudou para alternativas de qualidade duvidosa. Esta reflexão é do jornalista norte-americano Joshua Benton, director do Nieman Journalism Lab.

O autor toma uma faixa de tempo reconhecível, os últimos dez anos, e confronta-nos com o nível de confiança do público na religião organizada, nas escolas públicas, na Presidência e no Congresso. Depois recorda uma sondagem da Gallup, poucos meses antes do 11 de Setembro, a respeito de como os norte-americanos se sentiam a respeito de várias grandes instituições: em média, eram acreditadas por 43% dos cidadãos. Em 2016, esse número tinha descido para os 32%. 

“Não é difícil relacionar essa desconfiança crescente com o sucesso eleitoral de Donald Trump, ou com a capacidade, que parece em crescimento, de algumas pessoas acreditarem em coisas que não são factualmente verdadeiras.” 

Joshua Benton parte depois para uma comparação surpreendente, sobre o que aconteceu à confiança no bancos. “No ano passado, só 27 % dos americanos dizia que tinha confiança nos bancos nacionais, cerca de metade dos 53% de 2004.” 

“E assim como uma porção dos americanos fez o seu check-out do eco-sistema do jornalismo tradicional  - contentando-se com os clickbaits de propaganda, as fakenews do Facebook ou o doce leve [no original airy meringue] dos conteúdos da Internet de 2017 -  muitos também saltaram fora do sistema bancário.” 

Isto significa que não têm dinheiro numa conta bancária, resolvendo o problema, quando recebem um cheque, em centros onde podem trocá-los por dinheiro “vivo”, pagando as contas com cartões carregados com determinada importância ou recorrendo a outras soluções deste tipo. Um relatório de 2015 falava de nove milhões de lares americanos considerados unbanked, e de cerca de 24,5 milhões underbanked  - estes mantêm uma conta normal, mas também recorrem àquelas soluções alternativas. 

Quando se lhes pergunta por que o fazem, para além de pensarem que o seu pouco dinheiro não justifica o trabalho de ter uma conta, vem o argumento da falta de confiança no comportamento dos bancos e, por contraste, a confiança e relação pessoal que entretanto criaram com os seus centros de check-cashing mais próximos, onde são conhecidos e tratados pelo nome. 

“Alguma destas coisas soa familiar aos que estamos nos media? - pergunta o autor. O declínio dos jornais impressos substituíu um conjunto de títulos locais, em que se confiava, por gigantes distantes, em lugares como Nova Iorque ou Washington D.C. O poder das relações pessoais significa que a qualidade do amigo que partilha a notícia no Facebook pode parecer mais importante do que a qualidade da fonte noticiosa que a produziu.” (...) 

“As decisões dos clientes não são conduzidas apenas por percepções de ‘qualidade’; derivam também de factores mais prosaicos, como o atendimento, o custo, sentimentos de comunidade e relação pessoal e o sentido de que ambos os lados, na transacção, têm dentro de si interesses semelhantes.” 

Nestas condições, conclui Joshua Benton, “mesmo fazer um jornalismo de grande qualidade já não é suficiente”.

 

 

O artigo original, na íntegra, no site NiemanLab, a que pertence a imagem, assinada AP/Elaine Thompson

Connosco
Relatório assinala em Espanha quebra do consumo de TV por assinatura Ver galeria

O consumo doméstico de televisão por assinatura em Espanha, no ano de 2016, foi de 14,5 euros por mês, por habitação, o que significa quase 21% do seu gasto total em tecnologias de informação e comunicação. Esta quantia é 6,5% inferior à de 2015, que se situava numa média de 15,4%. Os dados são do relatório La sociedad en red 2016, elaborado pelo Observatorio Nacional de las Tecnologías de la Sociedad de la Información (ONTSI).

As imagens e as palavras depois da tragédia Ver galeria

A tragédia causada pelos incêndios no centro e norte do País, neste domingo 15 de Outubro, já considerado “o pior dia do ano” em número de ocorrências (mais de 500), simultâneas ou consecutivas, é retratado nas primeiras páginas dos jornais de 17. Quase todos destacam os números das vítimas, somando as de agora às de Pedrógão. Os dois jornais que usam a mesma foto, de três mulheres junto de uma casa destruída, abraçando-se ao lado de uma menina, são também os que procuram as palavras fortes para caracterizar o ocorrido: “Imperdoável” (Correio da Manhã); “Cem mortes sem desculpa” (Jornal de Notícias). 

O Clube

Está formado o Júri que vai apreciar os trabalhos concorrentes ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído pelo Clube Português de Imprensa (CPI) e pelo Jornal Tribuna de Macau (JTM),  com o apoio da Fundação Jorge Álvares.

O Júri será presidido por Dinis de Abreu, em representação do CPI, e integrado pelos jornalistas José Rocha Diniz, fundador e administrador do Jornal Tribuna de Macau, José Carlos de Vasconcelos, director do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, Carlos Magno, pela Fundação Jorge Álvares e por José António Silva Pires, também do CPI.


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