Terça-feira, 22 de Agosto, 2017
Media

Quando o jornalismo de qualidade não chega para recuperar a confiança

Se nos preocupamos com a quebra de confiança nos meios de comunicação tradicionais, a verdade é que não estamos sós. Tem acontecido o mesmo a todas as instituições de referência, com a má notícia de que essa confiança não se desvaneceu, mas mudou para alternativas de qualidade duvidosa. Esta reflexão é do jornalista norte-americano Joshua Benton, director do Nieman Journalism Lab.

O autor toma uma faixa de tempo reconhecível, os últimos dez anos, e confronta-nos com o nível de confiança do público na religião organizada, nas escolas públicas, na Presidência e no Congresso. Depois recorda uma sondagem da Gallup, poucos meses antes do 11 de Setembro, a respeito de como os norte-americanos se sentiam a respeito de várias grandes instituições: em média, eram acreditadas por 43% dos cidadãos. Em 2016, esse número tinha descido para os 32%. 

“Não é difícil relacionar essa desconfiança crescente com o sucesso eleitoral de Donald Trump, ou com a capacidade, que parece em crescimento, de algumas pessoas acreditarem em coisas que não são factualmente verdadeiras.” 

Joshua Benton parte depois para uma comparação surpreendente, sobre o que aconteceu à confiança no bancos. “No ano passado, só 27 % dos americanos dizia que tinha confiança nos bancos nacionais, cerca de metade dos 53% de 2004.” 

“E assim como uma porção dos americanos fez o seu check-out do eco-sistema do jornalismo tradicional  - contentando-se com os clickbaits de propaganda, as fakenews do Facebook ou o doce leve [no original airy meringue] dos conteúdos da Internet de 2017 -  muitos também saltaram fora do sistema bancário.” 

Isto significa que não têm dinheiro numa conta bancária, resolvendo o problema, quando recebem um cheque, em centros onde podem trocá-los por dinheiro “vivo”, pagando as contas com cartões carregados com determinada importância ou recorrendo a outras soluções deste tipo. Um relatório de 2015 falava de nove milhões de lares americanos considerados unbanked, e de cerca de 24,5 milhões underbanked  - estes mantêm uma conta normal, mas também recorrem àquelas soluções alternativas. 

Quando se lhes pergunta por que o fazem, para além de pensarem que o seu pouco dinheiro não justifica o trabalho de ter uma conta, vem o argumento da falta de confiança no comportamento dos bancos e, por contraste, a confiança e relação pessoal que entretanto criaram com os seus centros de check-cashing mais próximos, onde são conhecidos e tratados pelo nome. 

“Alguma destas coisas soa familiar aos que estamos nos media? - pergunta o autor. O declínio dos jornais impressos substituíu um conjunto de títulos locais, em que se confiava, por gigantes distantes, em lugares como Nova Iorque ou Washington D.C. O poder das relações pessoais significa que a qualidade do amigo que partilha a notícia no Facebook pode parecer mais importante do que a qualidade da fonte noticiosa que a produziu.” (...) 

“As decisões dos clientes não são conduzidas apenas por percepções de ‘qualidade’; derivam também de factores mais prosaicos, como o atendimento, o custo, sentimentos de comunidade e relação pessoal e o sentido de que ambos os lados, na transacção, têm dentro de si interesses semelhantes.” 

Nestas condições, conclui Joshua Benton, “mesmo fazer um jornalismo de grande qualidade já não é suficiente”.

 

 

O artigo original, na íntegra, no site NiemanLab, a que pertence a imagem, assinada AP/Elaine Thompson

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São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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