Sexta-feira, 15 de Dezembro, 2017
Media

Quando o jornalismo de qualidade não chega para recuperar a confiança

Se nos preocupamos com a quebra de confiança nos meios de comunicação tradicionais, a verdade é que não estamos sós. Tem acontecido o mesmo a todas as instituições de referência, com a má notícia de que essa confiança não se desvaneceu, mas mudou para alternativas de qualidade duvidosa. Esta reflexão é do jornalista norte-americano Joshua Benton, director do Nieman Journalism Lab.

O autor toma uma faixa de tempo reconhecível, os últimos dez anos, e confronta-nos com o nível de confiança do público na religião organizada, nas escolas públicas, na Presidência e no Congresso. Depois recorda uma sondagem da Gallup, poucos meses antes do 11 de Setembro, a respeito de como os norte-americanos se sentiam a respeito de várias grandes instituições: em média, eram acreditadas por 43% dos cidadãos. Em 2016, esse número tinha descido para os 32%. 

“Não é difícil relacionar essa desconfiança crescente com o sucesso eleitoral de Donald Trump, ou com a capacidade, que parece em crescimento, de algumas pessoas acreditarem em coisas que não são factualmente verdadeiras.” 

Joshua Benton parte depois para uma comparação surpreendente, sobre o que aconteceu à confiança no bancos. “No ano passado, só 27 % dos americanos dizia que tinha confiança nos bancos nacionais, cerca de metade dos 53% de 2004.” 

“E assim como uma porção dos americanos fez o seu check-out do eco-sistema do jornalismo tradicional  - contentando-se com os clickbaits de propaganda, as fakenews do Facebook ou o doce leve [no original airy meringue] dos conteúdos da Internet de 2017 -  muitos também saltaram fora do sistema bancário.” 

Isto significa que não têm dinheiro numa conta bancária, resolvendo o problema, quando recebem um cheque, em centros onde podem trocá-los por dinheiro “vivo”, pagando as contas com cartões carregados com determinada importância ou recorrendo a outras soluções deste tipo. Um relatório de 2015 falava de nove milhões de lares americanos considerados unbanked, e de cerca de 24,5 milhões underbanked  - estes mantêm uma conta normal, mas também recorrem àquelas soluções alternativas. 

Quando se lhes pergunta por que o fazem, para além de pensarem que o seu pouco dinheiro não justifica o trabalho de ter uma conta, vem o argumento da falta de confiança no comportamento dos bancos e, por contraste, a confiança e relação pessoal que entretanto criaram com os seus centros de check-cashing mais próximos, onde são conhecidos e tratados pelo nome. 

“Alguma destas coisas soa familiar aos que estamos nos media? - pergunta o autor. O declínio dos jornais impressos substituíu um conjunto de títulos locais, em que se confiava, por gigantes distantes, em lugares como Nova Iorque ou Washington D.C. O poder das relações pessoais significa que a qualidade do amigo que partilha a notícia no Facebook pode parecer mais importante do que a qualidade da fonte noticiosa que a produziu.” (...) 

“As decisões dos clientes não são conduzidas apenas por percepções de ‘qualidade’; derivam também de factores mais prosaicos, como o atendimento, o custo, sentimentos de comunidade e relação pessoal e o sentido de que ambos os lados, na transacção, têm dentro de si interesses semelhantes.” 

Nestas condições, conclui Joshua Benton, “mesmo fazer um jornalismo de grande qualidade já não é suficiente”.

 

 

O artigo original, na íntegra, no site NiemanLab, a que pertence a imagem, assinada AP/Elaine Thompson

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Novo presidente da ERC abstém-se de comentar “dossier” Altice - TVI Ver galeria

Tomou posse, na Assembleia da República, o novo Conselho Regulador da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, tendo como presidente o juiz-conselheiro Sebastião Póvoas. Instado pelos jornalistas a pronunciar-se sobre a questão sensível da compra da Media Capital pela Altice, o magistrado afirmou: “Eu não conheço os dossiers, tomei agora posse; são dossiers complexos e eu venho de uma área em que só nos pronunciamos depois de ler, consultar, ouvir e estudar, e é assim que vou fazer.” O parecer que competia à ERC tornar público, sobre esta matéria, não chegou a ser dado por falta de acordo entre os três membros que estavam em funções até agora.

O "jornalismo - espectáculo" que condena inocentes na praça pública Ver galeria

A investigação de suspeitos de qualquer conduta ilícita ou criminal é realizada pelas autoridades judiciais, que procuram provas para instrução de processo. Tendo conhecimento dessas condutas, também os meios de comunicação fazem a necessária investigação, para apuramento dos factos e posterior publicação. Uns e outros vão cruzar-se no mesmo terreno  - contidos, de ambos os lados, pelo cumprimento da lei e pela deontologia profissional. Mas o pior pode acontecer quando agentes da autoridade e repórteres se juntam para fazer “jornalismo do espectáculo”. A jornalista Nereide Beirão parte do ocorrido em 1994, com o caso que ficou conhecido como Escola Base, em São Paulo. Descreve o que sucedeu e acrescenta o exemplo de mais alguns casos da mesma natureza. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

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site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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