Sexta-feira, 16 de Novembro, 2018
Media

Quando o jornalismo de qualidade não chega para recuperar a confiança

Se nos preocupamos com a quebra de confiança nos meios de comunicação tradicionais, a verdade é que não estamos sós. Tem acontecido o mesmo a todas as instituições de referência, com a má notícia de que essa confiança não se desvaneceu, mas mudou para alternativas de qualidade duvidosa. Esta reflexão é do jornalista norte-americano Joshua Benton, director do Nieman Journalism Lab.

O autor toma uma faixa de tempo reconhecível, os últimos dez anos, e confronta-nos com o nível de confiança do público na religião organizada, nas escolas públicas, na Presidência e no Congresso. Depois recorda uma sondagem da Gallup, poucos meses antes do 11 de Setembro, a respeito de como os norte-americanos se sentiam a respeito de várias grandes instituições: em média, eram acreditadas por 43% dos cidadãos. Em 2016, esse número tinha descido para os 32%. 

“Não é difícil relacionar essa desconfiança crescente com o sucesso eleitoral de Donald Trump, ou com a capacidade, que parece em crescimento, de algumas pessoas acreditarem em coisas que não são factualmente verdadeiras.” 

Joshua Benton parte depois para uma comparação surpreendente, sobre o que aconteceu à confiança no bancos. “No ano passado, só 27 % dos americanos dizia que tinha confiança nos bancos nacionais, cerca de metade dos 53% de 2004.” 

“E assim como uma porção dos americanos fez o seu check-out do eco-sistema do jornalismo tradicional  - contentando-se com os clickbaits de propaganda, as fakenews do Facebook ou o doce leve [no original airy meringue] dos conteúdos da Internet de 2017 -  muitos também saltaram fora do sistema bancário.” 

Isto significa que não têm dinheiro numa conta bancária, resolvendo o problema, quando recebem um cheque, em centros onde podem trocá-los por dinheiro “vivo”, pagando as contas com cartões carregados com determinada importância ou recorrendo a outras soluções deste tipo. Um relatório de 2015 falava de nove milhões de lares americanos considerados unbanked, e de cerca de 24,5 milhões underbanked  - estes mantêm uma conta normal, mas também recorrem àquelas soluções alternativas. 

Quando se lhes pergunta por que o fazem, para além de pensarem que o seu pouco dinheiro não justifica o trabalho de ter uma conta, vem o argumento da falta de confiança no comportamento dos bancos e, por contraste, a confiança e relação pessoal que entretanto criaram com os seus centros de check-cashing mais próximos, onde são conhecidos e tratados pelo nome. 

“Alguma destas coisas soa familiar aos que estamos nos media? - pergunta o autor. O declínio dos jornais impressos substituíu um conjunto de títulos locais, em que se confiava, por gigantes distantes, em lugares como Nova Iorque ou Washington D.C. O poder das relações pessoais significa que a qualidade do amigo que partilha a notícia no Facebook pode parecer mais importante do que a qualidade da fonte noticiosa que a produziu.” (...) 

“As decisões dos clientes não são conduzidas apenas por percepções de ‘qualidade’; derivam também de factores mais prosaicos, como o atendimento, o custo, sentimentos de comunidade e relação pessoal e o sentido de que ambos os lados, na transacção, têm dentro de si interesses semelhantes.” 

Nestas condições, conclui Joshua Benton, “mesmo fazer um jornalismo de grande qualidade já não é suficiente”.

 

 

O artigo original, na íntegra, no site NiemanLab, a que pertence a imagem, assinada AP/Elaine Thompson

Connosco
Bettany Hugues defendeu a importância da memória na construção do futuro e da paz Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hugues, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hugues como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Para Alberto Dines, “o jornalismo era o próprio sentido da vida” Ver galeria

Cada história é uma vida, e algumas delas são muito especiais. “Alberto Dines foi autor e protagonista de uma dessas trajectórias incomuns: um intelectual visceral, que usou a sua inteligência e lucidez não para disputar uma partida, mas para mudar o jogo.” Sob o título “Uma vida sem ponto final”, um dos seus numerosos discípulos, Bruno Thys, evoca com a saudade de uma relação muito pessoal o percurso e obra de Alberto Dines, falecido em São Paulo em Maio deste ano.

O autor do texto que citamos valoriza uma parte da biografia menos mencionada de Alberto Dines, a que o coloca numa linhagem de judeus emigrados de uma Europa em várias convulsões:

“Dines tornou-se uma das mais cintilantes estrelas de sua geração, a primeira de judeus nascidos no Brasil. (...) Da geração de seus pais, herdou a cultura ancestral. Dines tinha sólida formação humanística e as suas raízes remontam à Haskalá, o iluminismo judaico que floresceu na Europa Ocidental nos séculos XVIII e XIX. Este movimento pregava a interacção da sabedoria judaica com a cultura europeia e produziu nomes como Einstein, Freud, Herzel e Stefan Zweig, o grande biógrafo austríaco, que, muitos anos depois, seria biografado por Dines.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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