Sexta-feira, 16 de Novembro, 2018
Media

Será que a União Europeia "deixou cair" o jornalismo?

Os 60 anos da assinatura do Tratado de Roma foram usados pelos “eurocratas” de Bruxelas como desculpa para gastarem milhões de euros na promoção da sua própria imagem. Os governos europeus faziam melhor em investir em salas de redacção bem equipadas, que permitiriam aos repórteres fazerem a sua cobertura e crítica  - e da própria União Europeia -  com a necessária distância e competência. Esta reflexão é de Stephan Russ-Mohl, director do European Journalism Observatory, sob o título que reproduzimos acima. 

Para remover equívocos, o autor começa por declarar que o processo da unificação europeia foi “um enorme sucesso desde que começou”, em 1957. “No entanto, especialmente depois do Brexit, um significativo número de votantes, na Europa continental, parece que já não concorda.”

Stephan Russ-Mohl enumera depois uma lista de falhas que considera graves:

“É difícil de compreender porquê, apesar dos biliões de euros recolhidos das licenças de TV, a transmissão de serviço público ainda não produziu programas multilingues acessíveis, para serem difundidos por toda a Europa. Esse conteúdo podia ter um efeito integrador, semelhante ao da RAI, a rádio e televisão italiana de serviço público.”

“Nos seus primeiros anos (antes de Silvio Berlusconi), a RAI contribuiu para a construção da nação italiana. Se as estações públicas europeias tivessem oferecido programação desse tipo, incluindo em russo e em turco, a Europa podia ter conseguido uma oportunidade de contrariar a propaganda de Erdogan e de Putin, espalhada pelo território europeu.” 

“Há apenas umas poucas emissoras multilingues ou multinacionais: a Euronews, o Eurosport, a 3sat no espaço de língua alemã e o projecto franco-germânico Arte. As emissoras suíças de serviço público, a SRG (em alemão), a SSR (em francês) e a RSI (em italiano) podiam ter ensinado aos eurocratas de Bruxelas de que modo a TV multilingue, de integração relativamente independente, consegue trabalhar e até atingir grandes audiências.” 

E o autor prossegue para uma questão mais delicada:

“Por que é que um projecto como a Digital News Initiative (DNI) é oferecido pela Google e não pela União Europeia? Trata-se de uma competição europeia pelas melhores ideias para salvar o jornalismo no mundo digital. Por meio desta iniciativa, a Google já terá distribuído, por volta de 2018, 150 milhões de euros (que são migalhas, comparados com os seus lucros anuais) entre as empresas dos media, ligando-os à sua própria organização.” (…) 

“A Europa também falhou na criação de um motor de busca europeu, enquanto a Rússia e a China enfrentam a Google e o Bing com a sua própria infra-estrutura, por meio de Yandex e Baidu.” 

“Se a Europa fosse cortada do acesso a estes motores de busca”  - avisa Andreas Hotho, professor na Universidade de Würzburg, na Alemanha -  “nunca mais encontrávamos na Web a informação de que precisamos.” 

“É também irritante o pouco que a União Europeia investiu na infra-estrutura do jornalismo ao longo de décadas, especialmente na formação e treino de jornalistas. Melhor preparação poderia ter dotado os jornalistas da capacidade de tornarem o complexo projecto europeu mais acessível ao público, mantendo uma boa distância de análise em relação aos seus respectivos governos.” 

“O European University Institute, em Florença, uma instituição europeia, tem estado estes anos a formar a futura elite de peritos em Direito, Economia e Política, mas não há no Instituto programas semelhantes para jornalistas, apesar do seu papel crucial na comunicação da Europa. Em vez disso existe o muito mais modesto European Journalism Centre em Maastricht, que tem lutado muitos anos pela sobrevivência.” 

Stephan Russ-Mohl termina desejando que a sociedade civil se mobilize na criação de um jornalismo “Europeu” independente e de análise, que não seria um “altifalante da EU”, mas “um exemplo de controlo das suas instituições”. 

“Se os eurocratas pudessem olhar essas vozes críticas como suas aliadas, em vez de inimigas, isto podia fortalecer não só a Europa, mas também a liberdade de Imprensa e de expressão, que continua ainda a ser grandemente ameaçada em muitos países europeus.” 

O texto original, na íntegra, no site do European Journalism Observatory

Connosco
Bettany Hugues defendeu a importância da memória na construção do futuro e da paz Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hugues, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hugues como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Para Alberto Dines, “o jornalismo era o próprio sentido da vida” Ver galeria

Cada história é uma vida, e algumas delas são muito especiais. “Alberto Dines foi autor e protagonista de uma dessas trajectórias incomuns: um intelectual visceral, que usou a sua inteligência e lucidez não para disputar uma partida, mas para mudar o jogo.” Sob o título “Uma vida sem ponto final”, um dos seus numerosos discípulos, Bruno Thys, evoca com a saudade de uma relação muito pessoal o percurso e obra de Alberto Dines, falecido em São Paulo em Maio deste ano.

O autor do texto que citamos valoriza uma parte da biografia menos mencionada de Alberto Dines, a que o coloca numa linhagem de judeus emigrados de uma Europa em várias convulsões:

“Dines tornou-se uma das mais cintilantes estrelas de sua geração, a primeira de judeus nascidos no Brasil. (...) Da geração de seus pais, herdou a cultura ancestral. Dines tinha sólida formação humanística e as suas raízes remontam à Haskalá, o iluminismo judaico que floresceu na Europa Ocidental nos séculos XVIII e XIX. Este movimento pregava a interacção da sabedoria judaica com a cultura europeia e produziu nomes como Einstein, Freud, Herzel e Stefan Zweig, o grande biógrafo austríaco, que, muitos anos depois, seria biografado por Dines.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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