null, 17 de Dezembro, 2017
Media

Será que a União Europeia "deixou cair" o jornalismo?

Os 60 anos da assinatura do Tratado de Roma foram usados pelos “eurocratas” de Bruxelas como desculpa para gastarem milhões de euros na promoção da sua própria imagem. Os governos europeus faziam melhor em investir em salas de redacção bem equipadas, que permitiriam aos repórteres fazerem a sua cobertura e crítica  - e da própria União Europeia -  com a necessária distância e competência. Esta reflexão é de Stephan Russ-Mohl, director do European Journalism Observatory, sob o título que reproduzimos acima. 

Para remover equívocos, o autor começa por declarar que o processo da unificação europeia foi “um enorme sucesso desde que começou”, em 1957. “No entanto, especialmente depois do Brexit, um significativo número de votantes, na Europa continental, parece que já não concorda.”

Stephan Russ-Mohl enumera depois uma lista de falhas que considera graves:

“É difícil de compreender porquê, apesar dos biliões de euros recolhidos das licenças de TV, a transmissão de serviço público ainda não produziu programas multilingues acessíveis, para serem difundidos por toda a Europa. Esse conteúdo podia ter um efeito integrador, semelhante ao da RAI, a rádio e televisão italiana de serviço público.”

“Nos seus primeiros anos (antes de Silvio Berlusconi), a RAI contribuiu para a construção da nação italiana. Se as estações públicas europeias tivessem oferecido programação desse tipo, incluindo em russo e em turco, a Europa podia ter conseguido uma oportunidade de contrariar a propaganda de Erdogan e de Putin, espalhada pelo território europeu.” 

“Há apenas umas poucas emissoras multilingues ou multinacionais: a Euronews, o Eurosport, a 3sat no espaço de língua alemã e o projecto franco-germânico Arte. As emissoras suíças de serviço público, a SRG (em alemão), a SSR (em francês) e a RSI (em italiano) podiam ter ensinado aos eurocratas de Bruxelas de que modo a TV multilingue, de integração relativamente independente, consegue trabalhar e até atingir grandes audiências.” 

E o autor prossegue para uma questão mais delicada:

“Por que é que um projecto como a Digital News Initiative (DNI) é oferecido pela Google e não pela União Europeia? Trata-se de uma competição europeia pelas melhores ideias para salvar o jornalismo no mundo digital. Por meio desta iniciativa, a Google já terá distribuído, por volta de 2018, 150 milhões de euros (que são migalhas, comparados com os seus lucros anuais) entre as empresas dos media, ligando-os à sua própria organização.” (…) 

“A Europa também falhou na criação de um motor de busca europeu, enquanto a Rússia e a China enfrentam a Google e o Bing com a sua própria infra-estrutura, por meio de Yandex e Baidu.” 

“Se a Europa fosse cortada do acesso a estes motores de busca”  - avisa Andreas Hotho, professor na Universidade de Würzburg, na Alemanha -  “nunca mais encontrávamos na Web a informação de que precisamos.” 

“É também irritante o pouco que a União Europeia investiu na infra-estrutura do jornalismo ao longo de décadas, especialmente na formação e treino de jornalistas. Melhor preparação poderia ter dotado os jornalistas da capacidade de tornarem o complexo projecto europeu mais acessível ao público, mantendo uma boa distância de análise em relação aos seus respectivos governos.” 

“O European University Institute, em Florença, uma instituição europeia, tem estado estes anos a formar a futura elite de peritos em Direito, Economia e Política, mas não há no Instituto programas semelhantes para jornalistas, apesar do seu papel crucial na comunicação da Europa. Em vez disso existe o muito mais modesto European Journalism Centre em Maastricht, que tem lutado muitos anos pela sobrevivência.” 

Stephan Russ-Mohl termina desejando que a sociedade civil se mobilize na criação de um jornalismo “Europeu” independente e de análise, que não seria um “altifalante da EU”, mas “um exemplo de controlo das suas instituições”. 

“Se os eurocratas pudessem olhar essas vozes críticas como suas aliadas, em vez de inimigas, isto podia fortalecer não só a Europa, mas também a liberdade de Imprensa e de expressão, que continua ainda a ser grandemente ameaçada em muitos países europeus.” 

O texto original, na íntegra, no site do European Journalism Observatory

Connosco
Novo presidente da ERC abstém-se de comentar “dossier” Altice - TVI Ver galeria

Tomou posse, na Assembleia da República, o novo Conselho Regulador da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, tendo como presidente o juiz-conselheiro Sebastião Póvoas. Instado pelos jornalistas a pronunciar-se sobre a questão sensível da compra da Media Capital pela Altice, o magistrado afirmou: “Eu não conheço os dossiers, tomei agora posse; são dossiers complexos e eu venho de uma área em que só nos pronunciamos depois de ler, consultar, ouvir e estudar, e é assim que vou fazer.” O parecer que competia à ERC tornar público, sobre esta matéria, não chegou a ser dado por falta de acordo entre os três membros que estavam em funções até agora.

Sobre a “decadência das redacções”, a dúvida de ser jornalista Ver galeria

“A decadência das redações e a diminuição do número de alunos cursando jornalismo apontam na direção da extinção da profissão de repórter?” A pergunta é do jornalista brasileiro Carlos Wagner, que compara a situação que encontrou há 40 anos, quando começou a sua carreira de repórter de investigação, com aquela que hoje enfrentam os novos candidatos. Para a geração dos seus pais (a mãe opunha-se a que ele seguisse este caminho), “os jornalistas tinham fama de bêbados, boémios, comunistas e de ‘língua de lavadeira’.” Mas “a preocupação dos pais da geração de repórteres que entra na faculdade no próximo ano é se ainda existirá a profissão quando o filho acabar o curso”. No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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