Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Media

Será que a União Europeia "deixou cair" o jornalismo?

Os 60 anos da assinatura do Tratado de Roma foram usados pelos “eurocratas” de Bruxelas como desculpa para gastarem milhões de euros na promoção da sua própria imagem. Os governos europeus faziam melhor em investir em salas de redacção bem equipadas, que permitiriam aos repórteres fazerem a sua cobertura e crítica  - e da própria União Europeia -  com a necessária distância e competência. Esta reflexão é de Stephan Russ-Mohl, director do European Journalism Observatory, sob o título que reproduzimos acima. 

Para remover equívocos, o autor começa por declarar que o processo da unificação europeia foi “um enorme sucesso desde que começou”, em 1957. “No entanto, especialmente depois do Brexit, um significativo número de votantes, na Europa continental, parece que já não concorda.”

Stephan Russ-Mohl enumera depois uma lista de falhas que considera graves:

“É difícil de compreender porquê, apesar dos biliões de euros recolhidos das licenças de TV, a transmissão de serviço público ainda não produziu programas multilingues acessíveis, para serem difundidos por toda a Europa. Esse conteúdo podia ter um efeito integrador, semelhante ao da RAI, a rádio e televisão italiana de serviço público.”

“Nos seus primeiros anos (antes de Silvio Berlusconi), a RAI contribuiu para a construção da nação italiana. Se as estações públicas europeias tivessem oferecido programação desse tipo, incluindo em russo e em turco, a Europa podia ter conseguido uma oportunidade de contrariar a propaganda de Erdogan e de Putin, espalhada pelo território europeu.” 

“Há apenas umas poucas emissoras multilingues ou multinacionais: a Euronews, o Eurosport, a 3sat no espaço de língua alemã e o projecto franco-germânico Arte. As emissoras suíças de serviço público, a SRG (em alemão), a SSR (em francês) e a RSI (em italiano) podiam ter ensinado aos eurocratas de Bruxelas de que modo a TV multilingue, de integração relativamente independente, consegue trabalhar e até atingir grandes audiências.” 

E o autor prossegue para uma questão mais delicada:

“Por que é que um projecto como a Digital News Initiative (DNI) é oferecido pela Google e não pela União Europeia? Trata-se de uma competição europeia pelas melhores ideias para salvar o jornalismo no mundo digital. Por meio desta iniciativa, a Google já terá distribuído, por volta de 2018, 150 milhões de euros (que são migalhas, comparados com os seus lucros anuais) entre as empresas dos media, ligando-os à sua própria organização.” (…) 

“A Europa também falhou na criação de um motor de busca europeu, enquanto a Rússia e a China enfrentam a Google e o Bing com a sua própria infra-estrutura, por meio de Yandex e Baidu.” 

“Se a Europa fosse cortada do acesso a estes motores de busca”  - avisa Andreas Hotho, professor na Universidade de Würzburg, na Alemanha -  “nunca mais encontrávamos na Web a informação de que precisamos.” 

“É também irritante o pouco que a União Europeia investiu na infra-estrutura do jornalismo ao longo de décadas, especialmente na formação e treino de jornalistas. Melhor preparação poderia ter dotado os jornalistas da capacidade de tornarem o complexo projecto europeu mais acessível ao público, mantendo uma boa distância de análise em relação aos seus respectivos governos.” 

“O European University Institute, em Florença, uma instituição europeia, tem estado estes anos a formar a futura elite de peritos em Direito, Economia e Política, mas não há no Instituto programas semelhantes para jornalistas, apesar do seu papel crucial na comunicação da Europa. Em vez disso existe o muito mais modesto European Journalism Centre em Maastricht, que tem lutado muitos anos pela sobrevivência.” 

Stephan Russ-Mohl termina desejando que a sociedade civil se mobilize na criação de um jornalismo “Europeu” independente e de análise, que não seria um “altifalante da EU”, mas “um exemplo de controlo das suas instituições”. 

“Se os eurocratas pudessem olhar essas vozes críticas como suas aliadas, em vez de inimigas, isto podia fortalecer não só a Europa, mas também a liberdade de Imprensa e de expressão, que continua ainda a ser grandemente ameaçada em muitos países europeus.” 

O texto original, na íntegra, no site do European Journalism Observatory

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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