Quarta-feira, 23 de Setembro, 2020
Jantares-debate

“Portugal pode e deve ser mais activo na Europa”, afirmou o Embaixador Seixas da Costa

No jantar-debate do ciclo em curso, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, Francisco Seixas da Costa fez uma avaliação dos 30 anos de pertença portuguesa à União Europeia e concluiu:

“A Europa é, de facto, o melhor espaço para afirmarmos o nosso País e a nossa capacidade de influência no mundo. Mas há mais vida para além da Europa. Nós temos 30 anos de União Europeia e 900 de História. Não nos podemos esquecer disso.”

A abrir a sua palestra, o Embaixador Seixas da Costa afirmou-se um europeísta “pela razão” e também “pela convicção, pela experiência, pela prática”, mas não tanto um “europeísta natural”:

“Sinto-me português, sinto-me europeu, mas quase sempre sou europeísta tanto quanto os interesses de Portugal o justificarem.”

 

Recordou que “somos um País que entrou para a Europa precisamente a meio dos 60 anos da União Europeia, que agora comemoramos”, e citou duas personalidades relevantes nesse processo, Mário Soares e Medeiros Ferreira.

 

“Foi uma decisão certa e no momento certo, no tempo exacto da União Europeia. Se nós não tivéssemos entrado em 86, estaríamos mais tarde a bater à porta da Europa, como aconteceu a quase todos os países da Europa Ocidental e Central, e se calhar em condições muito piores, em concorrência com outros países. Foi uma decisão tomada com grande coragem, que ao mesmo tempo serviu para consolidar a democracia, para nos desenvolver e para nos manter ligados a um projecto de bem, um projecto civilizacional.”

 

Mas, sobre a origem da UE, antes da adesão de Portugal, Seixas da Costa advertiu:

“Vale a pena lembrar que a primeira Comunidade, das várias que entretanto se criaram, era a Comunidade do Carvão e do Aço, e era com o aço e com o carvão que se faziam as armas… E não é por acaso que a partilha destes dois elementos é uma forma de exorcizar a guerra e, de certa maneira, tentar garantir um espaço novo, de sucesso, que acabou por acontecer.”

 

Esses primeiros 30 anos foram chamados, pelos franceses, “Les Trente Glorieuses”. Acrescentou o orador:

“Foram não só 30 anos gloriosos, foram 50 anos de grande sucesso, com os últimos dez anos, eu diria, de maior crise. E nós temos sempre a tentação de nos lembrarmos mais da parte final do que daquilo que foi o passado.”

 

“A certa altura, a União Europeia é vítima do seu próprio sucesso. A Guerra Fria, no fundo, é o período de grande sucesso da União Europeia. (...) Portanto, eu diria que é ‘vítima’ da queda do Muro de Berlim, mas a União Europeia não podia dar-se ao luxo de se manter como uma espécie de museu democrático e de desenvolvimento, do lado ocidental da Europa, sem dar resposta àqueles países que durante anos tinham olhado para o projecto europeu como um projecto de liberdade, democracia e desenvolvimento.”

 

Seixas da Costa reconheceu a “mudança de natureza” que quase sempre acompanhou os diversos alargamentos da UE e, sobre este mais recente, mencionou a crítica dos que dizem que “não poderia ser feito daquela maneira”. E comentou:

 

“Em primeiro lugar, houve uma acumulação de lobbies, quase diria, para o alargamento a esses países, dos seus amigos dentro da União. E depois há uma coisa de que poucos falam: é que, no fundo, o alargamento aos países do Centro e do Leste europeu foi um aproveitamento da fragilidade conjuntural da Rússia e que, sem a oportunidade de trazer aqueles países para este projecto, muito provavelmente hoje em dia, se tivéssemos que ter uma discussão com a Rússia relativamente ao alargamento da União, as coisas não seriam o que foram.”

 

“Isso aconteceu no caso da União Europeia e também aconteceu no caso da Nato, porque muitos dos países que entraram, na altura, para as duas organizações, têm um interesse específico maior na sua segurança e defesa do que no próprio projecto tutelado em Bruxelas.”

 

O orador recordou o “grande equívoco” presente nesta fase:

“Havia uma ideia de que o alargamento era uma espécie de colonização da Europa de Leste. Isto é: este modelo passava para o lado de lá e os países do lado de lá, no fundo, incorporavam exactamente o modelo do lado de cá. Não é bem assim… Os países que vieram para dentro da União Europeia trouxeram toda a sua agenda, que é de interesses, de preocupações, a agenda de fronteiras.” (...)

 

Estes factores tornaram assim a União Europeia, no fundo, muito mais diversa e também mais complexa.

 

Mencionou depois “um parceiro que, não sendo membro da União Europeia, é um poder europeu, que são os EUA. Os Estados Unidos são, no fundo, para além de Maurice Schumann, Jean Monet e José Estaline, o grande criador da União Europeia. Estaline pelo medo, os Estados Unidos pela promoção; em primeiro lugar pelo Plano Marshall, o interesse em ver a Europa como um exemplo de democracia e de sociedade liberal, e deram um impulso muito forte à relação com a Europa”.

 

Recordou que os EUA “tiveram sempre uma relação de alguma ambiguidade nesse relacionamento, nem sempre as coisas funcionaram da mesma maneira ao longo dos vários anos”, mas que continuam a ser “um elemento fundamental”.

 

O que se está a passar actualmente, após a eleição de Donald Trump, “rebentou com a previsibilidade relativamente à nossa relação com o outro lado do Atlântico e cria-nos um profundo mundo de indecisões e até alguma visível hostilidade, quer em relação ao projecto europeu em geral, quer em particular em relação ao Euro. Isto é altamente preocupante, e a Europa também não sabe como é que há-de lidar com isto. Vamos fazer uma navegação à vista”  – afirmou.

 

Sobre o caso português, Francisco Seixas da Costa sublinhou o “efeito extremamente positivo” nas infraestruturas, nas mentalidades, na mobilidade, tanto de emigrantes como dos jovens envolvidos no programa Erasmus.

Descreveu também, com evidente conhecimento de causa, a mudança ocorrida na diplomacia portuguesa, e as contribuições que Portugal trouxe à União Europeia, neste terreno:

 

“Trouxémos um trabalho importante na nossa relação com África, no período complexo de recuperação de relações com as nossas antigas colónias, mas também na criação de uma certa leitura de relações externas com a União Europeia para África  - fomos nós que fizémos as duas cimeiras Portugal-África, e isso não é despiciendo.” 

“Trouxémos ainda algo para a própria diplomacia de Direitos Humanos da União Europeia, talvez forçados pela questão de Timor, mas conseguimos com isso criar uma dinâmica nova dentro do próprio País e um trabalho muito criterioso dentro das Nações Unidas, nessa área. Também nas questões do desenvolvimento, quando elas eram mais importantes do que são hoje, infelizmente.”

 

Na parte final da sua palestra, o Embaixador Seixas da Costa não escondeu os conflitos internos que desfiguram actualmente o projecto europeu, levando a que muitos cidadãos dos países que são mais pobres, ou cujos interesses não estejam consonantes com o processo legislativo em Bruxelas, ou que não tenham população “que lhes dê para serem relevantes no processo decisório”, acabem por perceber que a sua influência e capacidade de intervenção são, no fundo, muito inferiores às de outros países. “Isso cria uma espécie de hierarquia dentro da Europa”  - disse.

 

Sublinhou que “a generosidade e a solidariedade estão hoje em crise na Europa”, e que “as opiniões públicas vivem debaixo da insegurança e do medo”:

 

“A Europa deixou-se enredar num discurso em que é o próprio bode expiatório de tudo o que funciona mal. E os Governos muitas vezes utilizam a Europa, como é sabido, para dizer que tudo o que corre bem é deles, tudo o que corre mal é culpa da Europa…”

 

Seixas da Costa recordou a crise financeira de 2007, para a qual “as instituições europeias não estavam preparadas”, e afirmou que “a crise financeira e a questão dos refugiados foram a grande pedra que caíu sobre a solidariedade europeia”:

 

“Não há discurso de solidariedade europeia, aquele senhor holandês é a cara disso e, independentemente da maneira como o disse, nós pressentimos que ele sentia aquilo e sabemos que não é só ele que pensa assim. Há muita gente que pensa aquilo. Quebrou-se claramente a noção da solidariedade.”

 

E acrescentou:

“Era importante um dia desmontar esta ideia de que a Europa é uma dos que dão e outra dos que recebem… É preciso percebermos que a Europa é um jogo de soma nula, um jogo em que toda a gente ganha e toda a gente perde. A Europa da segurança, a Europa da criação de sociedades de consumo, é aquela que interessa a países que se portam como é o caso da Alemanha. A existência de sociedades em paz, à volta dos grandes países europeus, é do interesse desses próprios países europeus. Ninguém deve nada a ninguém na Europa. (...) Esta ideia que se criou de que o Sul deve ao Norte  - vejam as taxas de juro que foram dadas, dos empréstimos, durante todo o período do resgate... Vale a pena olhar para isso.”

 

A terminar, alertou para os riscos do Brexit, que “tira da União o maior orçamento de defesa da União Europeia, tira o terceiro contribuinte líquido para o orçamento da UE, a maior indústria de defesa da UE, as forças armadas melhor equipadas e, com a França, o segundo poder nuclear da União Europeia”. (...)

Além disso, “a saída do Reino Unido leva a União um pouco para lá, em matéria de Oeste-Leste, e isso é perigoso para nós”.

 

No entanto, Seixas da Costa mantém que “não podemos cair na tentação de ter relações de natureza bilateral com o Reino Unido nesta matéria; a nossa força far-se-á dentro da União Europeia, na negociação dos grandes dossiers, o que não significa que no futuro, quando ele estiver fora da União Europeia, Portugal não possa renovar uma relação privilegiada com o Reino Unido”.  (…)

Connosco
O jornalismo impresso como “alta-costura” dos “media” Ver galeria

A pandemia veio agravar a situação, já débil, dos “media” tradicionais, ao provocar uma quebra nas receitas publicitárias e de circulação, o que levou alguns profissionais a questionarem o futuro do formato impresso.

Contudo, Andrés Rodríguez -- CEO do Grupo SpainMedia e membro da direcção da Asociación de La Prensa de Madrid, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria -- considera que o jornalismo impresso irá conseguir recuperar, pouco a pouco, o seu protagonismo.

Durante a sua participação na conferência "Reinventando o Papel", no 15º Congresso de Editores de Jornais, Rodríguez reiterou que "não precisamos de reinventar o papel, mas sim o modelo de negócio", e observou que "veremos tiragens mais pequenas e edições mais cuidadosas", para que "o papel, em qualquer formato, seja de ‘alta-costura’, e a comunicação digital seja um 'pronto-a-vestir".

Assim, os responsáveis pelos “media” terão de aprender a combinar o “formato tradicional” com o “futuro digital”. "Teremos de passar o nosso rendimento do papel para o digital, temos de saber que todos temos uma televisão no bolso, mas que isso não é incompatível com a edição impressa".


World Press Cartoon atribui primeiro prémio a "cartoonista" alemão Ver galeria

Centro Cultural das Caldas da Rainha foi, novamente,  “a casa de acolhimento” do World Press Cartoon, que, na sua 15ªa edição, distinguiu o “cartoonista” alemão Frank Hoppmann com o primeiro prémio, graças a uma caricatura do primeiro-ministro inglês, Boris Johnson, publicada no jornal “Eulenspiegel”,  em Outubro de 2019.

O segundo prémio foi atribuído ao mexicano Darío, com o desenho do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, publicado no jornal espanhol “Mundiario”. O português Pedro Silva ficou em terceiro lugar, com a caricatura de Christine Lagarde, actual presidente do Banco Central Europeu.

O grego Georgopalis destacou-se, por sua vez, na categoria “Desenho de Humor”, com “Message in a Bottle”. Já na categoria de “cartoon editorial”, o primeiro prémio foi para o grego Aytos .

De acordo com a organização do evento, as obras premiadas foram escolhidas pelo júri, entre 280 caricaturas, cartoons editoriais e desenhos de humor, seleccionados a partir de 150 publicações, de 50  países.


O Clube


Terminada a pausa de Agosto, este site do CPI  retoma a sua actividade e as  actualizações diárias, num contacto regular que faz parte da rotina de consulta dos nossos associados e parceiros, e que  tem vindo a atrair um confortável e crescente número de visitantes em Portugal e um pouco por todo o mundo, com relevo para os países lusófonos.

Sem prejuízo de  algumas alterações de estrutura funcional , o site continuará  acompanhar, a par e passo,  as iniciativas do Clube, bem como o  que de mais relevante  ocorrer no País e fora dele em matéria de jornalismo,  jornalistas e de liberdade de expressão.

Os media enfrentam uma situação complexa e, para muitos,  não se adivinha um desfecho airoso. 

O futuro dos media independentes está tingido de sombras.  E o das associações independentes de jornalistas – como é o caso do Clube Português de Imprensa – não se antevê, também, isento de dificuldades, que saberemos vencer, como vencemos outras ao longo de quase quatro décadas de história, que se completam este ano.

Desde a sua fundação, em 1980, o CPI viveu exclusivamente  com o apoio dos sócios, e de alguns mecenas que quiseram acompanhar os esforços do Clube,  identificado com uma sólida  profissão de fé em defesa do jornalismo e dos jornalistas.



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Agenda
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo