Sábado, 25 de Maio, 2019
Jantares-debate

“Portugal pode e deve ser mais activo na Europa”, afirmou o Embaixador Seixas da Costa

No jantar-debate do ciclo em curso, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, Francisco Seixas da Costa fez uma avaliação dos 30 anos de pertença portuguesa à União Europeia e concluiu:

“A Europa é, de facto, o melhor espaço para afirmarmos o nosso País e a nossa capacidade de influência no mundo. Mas há mais vida para além da Europa. Nós temos 30 anos de União Europeia e 900 de História. Não nos podemos esquecer disso.”

A abrir a sua palestra, o Embaixador Seixas da Costa afirmou-se um europeísta “pela razão” e também “pela convicção, pela experiência, pela prática”, mas não tanto um “europeísta natural”:

“Sinto-me português, sinto-me europeu, mas quase sempre sou europeísta tanto quanto os interesses de Portugal o justificarem.”

 

Recordou que “somos um País que entrou para a Europa precisamente a meio dos 60 anos da União Europeia, que agora comemoramos”, e citou duas personalidades relevantes nesse processo, Mário Soares e Medeiros Ferreira.

 

“Foi uma decisão certa e no momento certo, no tempo exacto da União Europeia. Se nós não tivéssemos entrado em 86, estaríamos mais tarde a bater à porta da Europa, como aconteceu a quase todos os países da Europa Ocidental e Central, e se calhar em condições muito piores, em concorrência com outros países. Foi uma decisão tomada com grande coragem, que ao mesmo tempo serviu para consolidar a democracia, para nos desenvolver e para nos manter ligados a um projecto de bem, um projecto civilizacional.”

 

Mas, sobre a origem da UE, antes da adesão de Portugal, Seixas da Costa advertiu:

“Vale a pena lembrar que a primeira Comunidade, das várias que entretanto se criaram, era a Comunidade do Carvão e do Aço, e era com o aço e com o carvão que se faziam as armas… E não é por acaso que a partilha destes dois elementos é uma forma de exorcizar a guerra e, de certa maneira, tentar garantir um espaço novo, de sucesso, que acabou por acontecer.”

 

Esses primeiros 30 anos foram chamados, pelos franceses, “Les Trente Glorieuses”. Acrescentou o orador:

“Foram não só 30 anos gloriosos, foram 50 anos de grande sucesso, com os últimos dez anos, eu diria, de maior crise. E nós temos sempre a tentação de nos lembrarmos mais da parte final do que daquilo que foi o passado.”

 

“A certa altura, a União Europeia é vítima do seu próprio sucesso. A Guerra Fria, no fundo, é o período de grande sucesso da União Europeia. (...) Portanto, eu diria que é ‘vítima’ da queda do Muro de Berlim, mas a União Europeia não podia dar-se ao luxo de se manter como uma espécie de museu democrático e de desenvolvimento, do lado ocidental da Europa, sem dar resposta àqueles países que durante anos tinham olhado para o projecto europeu como um projecto de liberdade, democracia e desenvolvimento.”

 

Seixas da Costa reconheceu a “mudança de natureza” que quase sempre acompanhou os diversos alargamentos da UE e, sobre este mais recente, mencionou a crítica dos que dizem que “não poderia ser feito daquela maneira”. E comentou:

 

“Em primeiro lugar, houve uma acumulação de lobbies, quase diria, para o alargamento a esses países, dos seus amigos dentro da União. E depois há uma coisa de que poucos falam: é que, no fundo, o alargamento aos países do Centro e do Leste europeu foi um aproveitamento da fragilidade conjuntural da Rússia e que, sem a oportunidade de trazer aqueles países para este projecto, muito provavelmente hoje em dia, se tivéssemos que ter uma discussão com a Rússia relativamente ao alargamento da União, as coisas não seriam o que foram.”

 

“Isso aconteceu no caso da União Europeia e também aconteceu no caso da Nato, porque muitos dos países que entraram, na altura, para as duas organizações, têm um interesse específico maior na sua segurança e defesa do que no próprio projecto tutelado em Bruxelas.”

 

O orador recordou o “grande equívoco” presente nesta fase:

“Havia uma ideia de que o alargamento era uma espécie de colonização da Europa de Leste. Isto é: este modelo passava para o lado de lá e os países do lado de lá, no fundo, incorporavam exactamente o modelo do lado de cá. Não é bem assim… Os países que vieram para dentro da União Europeia trouxeram toda a sua agenda, que é de interesses, de preocupações, a agenda de fronteiras.” (...)

 

Estes factores tornaram assim a União Europeia, no fundo, muito mais diversa e também mais complexa.

 

Mencionou depois “um parceiro que, não sendo membro da União Europeia, é um poder europeu, que são os EUA. Os Estados Unidos são, no fundo, para além de Maurice Schumann, Jean Monet e José Estaline, o grande criador da União Europeia. Estaline pelo medo, os Estados Unidos pela promoção; em primeiro lugar pelo Plano Marshall, o interesse em ver a Europa como um exemplo de democracia e de sociedade liberal, e deram um impulso muito forte à relação com a Europa”.

 

Recordou que os EUA “tiveram sempre uma relação de alguma ambiguidade nesse relacionamento, nem sempre as coisas funcionaram da mesma maneira ao longo dos vários anos”, mas que continuam a ser “um elemento fundamental”.

 

O que se está a passar actualmente, após a eleição de Donald Trump, “rebentou com a previsibilidade relativamente à nossa relação com o outro lado do Atlântico e cria-nos um profundo mundo de indecisões e até alguma visível hostilidade, quer em relação ao projecto europeu em geral, quer em particular em relação ao Euro. Isto é altamente preocupante, e a Europa também não sabe como é que há-de lidar com isto. Vamos fazer uma navegação à vista”  – afirmou.

 

Sobre o caso português, Francisco Seixas da Costa sublinhou o “efeito extremamente positivo” nas infraestruturas, nas mentalidades, na mobilidade, tanto de emigrantes como dos jovens envolvidos no programa Erasmus.

Descreveu também, com evidente conhecimento de causa, a mudança ocorrida na diplomacia portuguesa, e as contribuições que Portugal trouxe à União Europeia, neste terreno:

 

“Trouxémos um trabalho importante na nossa relação com África, no período complexo de recuperação de relações com as nossas antigas colónias, mas também na criação de uma certa leitura de relações externas com a União Europeia para África  - fomos nós que fizémos as duas cimeiras Portugal-África, e isso não é despiciendo.” 

“Trouxémos ainda algo para a própria diplomacia de Direitos Humanos da União Europeia, talvez forçados pela questão de Timor, mas conseguimos com isso criar uma dinâmica nova dentro do próprio País e um trabalho muito criterioso dentro das Nações Unidas, nessa área. Também nas questões do desenvolvimento, quando elas eram mais importantes do que são hoje, infelizmente.”

 

Na parte final da sua palestra, o Embaixador Seixas da Costa não escondeu os conflitos internos que desfiguram actualmente o projecto europeu, levando a que muitos cidadãos dos países que são mais pobres, ou cujos interesses não estejam consonantes com o processo legislativo em Bruxelas, ou que não tenham população “que lhes dê para serem relevantes no processo decisório”, acabem por perceber que a sua influência e capacidade de intervenção são, no fundo, muito inferiores às de outros países. “Isso cria uma espécie de hierarquia dentro da Europa”  - disse.

 

Sublinhou que “a generosidade e a solidariedade estão hoje em crise na Europa”, e que “as opiniões públicas vivem debaixo da insegurança e do medo”:

 

“A Europa deixou-se enredar num discurso em que é o próprio bode expiatório de tudo o que funciona mal. E os Governos muitas vezes utilizam a Europa, como é sabido, para dizer que tudo o que corre bem é deles, tudo o que corre mal é culpa da Europa…”

 

Seixas da Costa recordou a crise financeira de 2007, para a qual “as instituições europeias não estavam preparadas”, e afirmou que “a crise financeira e a questão dos refugiados foram a grande pedra que caíu sobre a solidariedade europeia”:

 

“Não há discurso de solidariedade europeia, aquele senhor holandês é a cara disso e, independentemente da maneira como o disse, nós pressentimos que ele sentia aquilo e sabemos que não é só ele que pensa assim. Há muita gente que pensa aquilo. Quebrou-se claramente a noção da solidariedade.”

 

E acrescentou:

“Era importante um dia desmontar esta ideia de que a Europa é uma dos que dão e outra dos que recebem… É preciso percebermos que a Europa é um jogo de soma nula, um jogo em que toda a gente ganha e toda a gente perde. A Europa da segurança, a Europa da criação de sociedades de consumo, é aquela que interessa a países que se portam como é o caso da Alemanha. A existência de sociedades em paz, à volta dos grandes países europeus, é do interesse desses próprios países europeus. Ninguém deve nada a ninguém na Europa. (...) Esta ideia que se criou de que o Sul deve ao Norte  - vejam as taxas de juro que foram dadas, dos empréstimos, durante todo o período do resgate... Vale a pena olhar para isso.”

 

A terminar, alertou para os riscos do Brexit, que “tira da União o maior orçamento de defesa da União Europeia, tira o terceiro contribuinte líquido para o orçamento da UE, a maior indústria de defesa da UE, as forças armadas melhor equipadas e, com a França, o segundo poder nuclear da União Europeia”. (...)

Além disso, “a saída do Reino Unido leva a União um pouco para lá, em matéria de Oeste-Leste, e isso é perigoso para nós”.

 

No entanto, Seixas da Costa mantém que “não podemos cair na tentação de ter relações de natureza bilateral com o Reino Unido nesta matéria; a nossa força far-se-á dentro da União Europeia, na negociação dos grandes dossiers, o que não significa que no futuro, quando ele estiver fora da União Europeia, Portugal não possa renovar uma relação privilegiada com o Reino Unido”.  (…)

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
Lançar notícias falsas sobre adversários políticos ou outros existe há séculos. Mas a internet deu às mentiras uma capacidade de difusão nunca antes vista.  Divulgar no espaço público notícias falsas (“fake news”) é hoje um problema que, com razão, preocupa muita gente. Mas não se pode considerar que este seja um problema novo. Claro que a internet e as redes sociais proporcionam...
A celebração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa  constitui o pretexto e o convite para uma reflexão que não nos exclui. Com os jornais em contínua degradação de vendas em banca, obrigando  já a soluções extremas  - como se verificou com o centenário  “Diário de Noticias”, que passou a ser semanário, embora sem inverter o plano inclinado -,  a apatia...
A Google trouxe a Lisboa Mark Howe, um veterano da publicidade no Reino Unido. Actualmente responsável da Google pela relação com as agências de meios na Europa, Mark Howe contou uma história que mostra bem a importância de as marcas comunicarem de forma continuada – mesmo que o objectivo não seja as vendas imediatamente. A situação passou-se no Reino Unido e nos EUA durante a II Grande Guerra. Por iniciativa dos governos foi...
Agenda
27
Mai
DW Global Media Forum
09:00 @ Bona, Alemanha
02
Jun
"The Children’s Media Conference"
11:00 @ Sheffield, Reino Unido
14
Jun
14
Jun
21
Jun
Social Media Day: Halifax
09:00 @ Halifax, Nova Escócia, Canadá