Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Sessenta e quatro por cento da informação digital gratuita é “corta e cola”

Os editores da maioria dos meios de comunicação dos países avançados cometeram um grande erro ao colocar gratuitamente na Internet os conteúdos que ofereciam no papel, e que eram pagos.

Este movimento contribuiu para a ruptura do modelo predominante no mundo, no qual os media eram financiados pela publicidade e pelas vendas. Há uns anos atrás começou a surgir uma nova perspectiva, na qual a informação original de qualidade é paga, mas com um preço baixo e personalizada para milhares de assinantes.

O relatório L'information à tout prix, recentemente publicado em França por Julia Cagé, Marie-Luce Viaud e Nicolas Hervé, chega a conclusão de que 64 por cento da informação digital é “corta e cola”.

Só 21 por cento dos 850 mil artigos analisados no estudo eram originais e metade dos artigos, tinham menos de 20 por cento de conteúdos nativos.

Segundo os autores do estudo, este facto deve-se em grande medida à crescente despovoação das redações dos jornais, que têm estadado a diminuir a um ritmo acelerado.

Os autores calcularam também que a redução de jornalistas vai fazer com que, até 2020, haja menos 30 mil artigos de informação original.

Os meios não têm incentivo económico para produzir informação original, já que o objectivo da carreira é obter “visitas” e para isso é suficiente “cortar e colar”.

 

Por outro lado, os meios tendem a não referir as fontes, só o fazem em 8 por cento dos casos.

Como refere Miguel Ormaetxea, num artigo publicado no site media-tics, esta situação está a criar uma homogeneização crescente dos conteúdos, que torna mais pobre a informação de que a opinião pública dispõe.

Produzir informação original é caro e com a queda do modelo económico anterior, os editores com o recurso ao “corta e cola” estão a "cavar a sua própria sepultura".

Há, no entanto, uma luz ao fundo do túnel: o desenvolvimento de um novo modelo de negócio, de subscrição paga, geralmente de baixo preço, mas que está a aumentar nos grandes meios.

É o caso do The New York Times e também dos britânicos The Times, The Telegraph e do Financial Times.


Mais informação em Media-tics

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O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

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Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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