Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Regulação e transparência como grandes questões éticas do jornalismo

O debate sobre o estado do jornalismo tem sido muito ocupado com as consequências da revolução digital e, mais recentemente, com a questão da verdade e da mentira organizada. Mas os temas que mais interessaram os participantes na IV Conferência Internacional sobre Ética nos Media, em Sevilha, foram outros: a importância de uma regulação rigorosa dos próprios meios de comunicação e a sua abertura a uma atitude de transparência perante o público que o sustenta.

Segundo o Comentário da Semana de ObjEthos, que aqui citamos, os jornalistas e docentes de dez países participantes concentraram-se principalmente sobre estas duas questões, dando espaço a uma avaliação comparada entre o caso espanhol e o do Brasil.

 

"Na Espanha, os jornalistas se organizam em sindicatos, colégios profissionais e associações de imprensa. Há ainda os conselhos audiovisuais nas províncias autónomas. A existência de actores tão parecidos mas com funções ligeiramente distintas causa disputas sobre quem deve normatizar a ética jornalística no país."

"Sindicatos tratam de negociar salários e fechar acordos colectivos. Associações têm carácter mais privado, reunindo profissionais por empresa, praticamente, e avançam no terreno da deontologia. Conselhos de audiovisual tratam de conteúdos veiculados que extrapolam o jornalístico, e os colégios profissionais  – herança do regime franquista mas ainda caro à profissão  -, perde terreno para seus vizinhos mais modernos. ‘Penso que isso deve caber aos colégios de jornalistas, mas precisaríamos uniformizar as regras. Vejam que sequer temos um código de ética unificado no país’, criticou a Prof. Elena Real Rodríguez, da Universidade Complutense de Madrid, na conferência de abertura."

 

No Brasil, segundo o autor do relato de ObjEthos, “há menos peças no tabuleiro e, portanto, menos confusão. Isso não significa que tenhamos um sistema de autorregulação melhor que o espanhol. A inexistência dos conselhos de audiovisual permite não apenas a veiculação de conteúdos de baixa qualidade e duvidoso gosto, mas também o total desrespeito a muitos direitos humanos”. (...)

“Historicamente, os sindicatos brasileiros, através da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), assumiram as rédeas da ética profissional. Há um código deontológico unificado, e comissões locais e uma nacional, que funciona como segunda instância. No entanto, o código tem fragilidades  – como a inaplicação prática da cláusula de consciência –  e as comissões de ética recebem poucas queixas por conta da limitação nas sanções previstas. Os colegas espanhóis se digladiam em torno de quem aplicará as regras e quais normas devem prevalecer. Nós tropeçamos em questões mais concretas: como fazer o sistema funcionar com os instrumentos que temos?”

 

A concluir, afirma o relator de ObjEthos:

 

“O contrário da transparência é a opacidade, a ocultação de processos e acções. E ela só faz proliferar desconfiança e distanciamento. No momento actual, em que o jornalismo luta para se manter útil e relevante para a sociedade, abrir mão da confiança e da proximidade de quem o sustenta financeira e socialmente é o maior dos erros.”

 

 
Mais informação em ObjEthos e no site do Congresso

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O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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