Quinta-feira, 18 de Julho, 2019
Media

Jornais procuram interagir com os comentários dos leitores

Os comentários dos leitores, usados como forma de abrir os jornais à participação do público, continuam a pôr problemas às redacções. A má qualidade de muitos deles, incluindo a grosseria e o discurso de ódio, desafiam a eficácia das práticas de moderação tentadas. Mas há estudos recentes sobre abordagens alternativas, revelando que as atitudes estão a mudar. Esta reflexão é de Marisa Torres da Silva, professora associada na FCSH da Universidade Nova de Lisboa, publicada no European Journalism Observatory.

Segundo a autora, os jornais online “exploraram diferentes opções de moderação por tentativa e erro, incluindo algumas alternativas radicais, como a de abandonar os comentários às notícias e/ou a de movê-los para o Facebook-commenting”. 

Quando decidiram mantê-los, seguiram diversas abordagens: a ‘vigilante’ (onde os jornalistas fazem a “pré-moderação” ou avaliam cada comentário antes de ser publicado; a ‘frouxa’ (onde os jornalistas só intervêm no caso de queixas dos utentes); ou uma mais ‘descentralizada/mista’, que corresponde a uma moderação colaborativa, incluindo os utentes neste processo. 

Marisa Torres da Silva cita então o exemplo de três estudos sobre esta matéria: 

O de dois investigadores na Escola de Jornalismo da Universidade do Texas, que entrevistaram 34 jornalistas sobre a sua opinião a respeito dos comentários de leitores. O seu trabalho, Normalizing online comments, revela que os jornalistas estão a ficar mais confortáveis com esta prática “e frequentemente interagem com os comentadores, para promover discussões deliberativas ou para estancar a incivilidade”. 

Mas alguns não sentem tão à-vontade, pelo receio de estarem a violar “a regra jornalística da objectividade”, tornando-se uma espécie de “polícias” do Facebook. 

O segundo estudo, de dois investigadores na Universidade Gutenberg, na Alemanha, centrou-se sobre a prática da moderação jornalística interactiva. O que descobriram “sugere que a presença de um jornalista como moderador na secção de comentários não é suficiente para suscitar um debate mais construtivo”. 

Mas a sua atitude tem efeito: sempre que o próprio jornal usava de sarcasmo ao expôr o comportamento de um comentador como inadequado, a situação piorava; mas quando respondia de modo factual e polido a comentadores indelicados, obtinha-se melhor atmosfera de debate deliberativo. 

O terceiro estudo, da própria autora, debruça-se sobre o caso português, concretamente sobre a experiência do Público, que adoptou em 2012 uma prática de moderação colaborativa (onde utentes fazem a moderação de outros utentes). 

“Dependendo dos pontos que foram ganhando ou perdendo, os utentes foram classificados como ‘principiantes’, ‘influentes’, ‘experientes’ e por fim ‘moderadores’, partilhando a função de moderação com o seu responsável no jornal.” 

Marisa Torres da Silva estudou detalhadamente a lista de comentários a uma notícia publicada tanto na edição impressa como na digital de 16 de Fevereiro de 2013. A sua análise dos 90 comentários válidos publicados revelou que a maioria dos leitores discutia os aspectos negativos dos comentários  - a agressividade, a violação das normas de publicação ou a baixa qualidade dos textos. 

Os leitores que tinham acumulado pontos suficientes para se tornarem eles mesmos “moderadores” eram encarados com suspeita. Alguns leitores descreveram o seu comportamento como “arrogante” e criticaram-nos por juízos arbitrários, ou chegaram mesmo a acusá-los de “censura”. 


O artigo original, na língua inglesa, no site do EJO

Connosco
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Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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