Sexta-feira, 16 de Novembro, 2018
Media

Jornais procuram interagir com os comentários dos leitores

Os comentários dos leitores, usados como forma de abrir os jornais à participação do público, continuam a pôr problemas às redacções. A má qualidade de muitos deles, incluindo a grosseria e o discurso de ódio, desafiam a eficácia das práticas de moderação tentadas. Mas há estudos recentes sobre abordagens alternativas, revelando que as atitudes estão a mudar. Esta reflexão é de Marisa Torres da Silva, professora associada na FCSH da Universidade Nova de Lisboa, publicada no European Journalism Observatory.

Segundo a autora, os jornais online “exploraram diferentes opções de moderação por tentativa e erro, incluindo algumas alternativas radicais, como a de abandonar os comentários às notícias e/ou a de movê-los para o Facebook-commenting”. 

Quando decidiram mantê-los, seguiram diversas abordagens: a ‘vigilante’ (onde os jornalistas fazem a “pré-moderação” ou avaliam cada comentário antes de ser publicado; a ‘frouxa’ (onde os jornalistas só intervêm no caso de queixas dos utentes); ou uma mais ‘descentralizada/mista’, que corresponde a uma moderação colaborativa, incluindo os utentes neste processo. 

Marisa Torres da Silva cita então o exemplo de três estudos sobre esta matéria: 

O de dois investigadores na Escola de Jornalismo da Universidade do Texas, que entrevistaram 34 jornalistas sobre a sua opinião a respeito dos comentários de leitores. O seu trabalho, Normalizing online comments, revela que os jornalistas estão a ficar mais confortáveis com esta prática “e frequentemente interagem com os comentadores, para promover discussões deliberativas ou para estancar a incivilidade”. 

Mas alguns não sentem tão à-vontade, pelo receio de estarem a violar “a regra jornalística da objectividade”, tornando-se uma espécie de “polícias” do Facebook. 

O segundo estudo, de dois investigadores na Universidade Gutenberg, na Alemanha, centrou-se sobre a prática da moderação jornalística interactiva. O que descobriram “sugere que a presença de um jornalista como moderador na secção de comentários não é suficiente para suscitar um debate mais construtivo”. 

Mas a sua atitude tem efeito: sempre que o próprio jornal usava de sarcasmo ao expôr o comportamento de um comentador como inadequado, a situação piorava; mas quando respondia de modo factual e polido a comentadores indelicados, obtinha-se melhor atmosfera de debate deliberativo. 

O terceiro estudo, da própria autora, debruça-se sobre o caso português, concretamente sobre a experiência do Público, que adoptou em 2012 uma prática de moderação colaborativa (onde utentes fazem a moderação de outros utentes). 

“Dependendo dos pontos que foram ganhando ou perdendo, os utentes foram classificados como ‘principiantes’, ‘influentes’, ‘experientes’ e por fim ‘moderadores’, partilhando a função de moderação com o seu responsável no jornal.” 

Marisa Torres da Silva estudou detalhadamente a lista de comentários a uma notícia publicada tanto na edição impressa como na digital de 16 de Fevereiro de 2013. A sua análise dos 90 comentários válidos publicados revelou que a maioria dos leitores discutia os aspectos negativos dos comentários  - a agressividade, a violação das normas de publicação ou a baixa qualidade dos textos. 

Os leitores que tinham acumulado pontos suficientes para se tornarem eles mesmos “moderadores” eram encarados com suspeita. Alguns leitores descreveram o seu comportamento como “arrogante” e criticaram-nos por juízos arbitrários, ou chegaram mesmo a acusá-los de “censura”. 


O artigo original, na língua inglesa, no site do EJO

Connosco
Bettany Hugues defendeu a importância da memória na construção do futuro e da paz Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hugues, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hugues como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Para Alberto Dines, “o jornalismo era o próprio sentido da vida” Ver galeria

Cada história é uma vida, e algumas delas são muito especiais. “Alberto Dines foi autor e protagonista de uma dessas trajectórias incomuns: um intelectual visceral, que usou a sua inteligência e lucidez não para disputar uma partida, mas para mudar o jogo.” Sob o título “Uma vida sem ponto final”, um dos seus numerosos discípulos, Bruno Thys, evoca com a saudade de uma relação muito pessoal o percurso e obra de Alberto Dines, falecido em São Paulo em Maio deste ano.

O autor do texto que citamos valoriza uma parte da biografia menos mencionada de Alberto Dines, a que o coloca numa linhagem de judeus emigrados de uma Europa em várias convulsões:

“Dines tornou-se uma das mais cintilantes estrelas de sua geração, a primeira de judeus nascidos no Brasil. (...) Da geração de seus pais, herdou a cultura ancestral. Dines tinha sólida formação humanística e as suas raízes remontam à Haskalá, o iluminismo judaico que floresceu na Europa Ocidental nos séculos XVIII e XIX. Este movimento pregava a interacção da sabedoria judaica com a cultura europeia e produziu nomes como Einstein, Freud, Herzel e Stefan Zweig, o grande biógrafo austríaco, que, muitos anos depois, seria biografado por Dines.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

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