Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Media

Pode o “jornalismo de soluções” ser solução para a crise do jornalismo?

Perante a crise de credibilidade dos meios de comunicação, uma das propostas recentes mais intrigantes é a do chamado “jornalismo de soluções”. A ideia de base é a de equilibrar a “representação negativa do mundo” com a reportagem de iniciativas positivas, verificadas no terreno. Fica o receio de se cair num jornalismo “de boas notícias”  - ou numa psicologia ligeira de auto-ajuda -  mas, como diz Christian de Boisredon, o seu principal promotor, não se trata simplesmente de pôr em destaque “o bombeiro que vai salvar gatos nas árvores”.

“Além de analisarmos a fundo um determinado problema da sociedade, vamos responder-lhe colocando em foco uma solução praticada, seja a nível local, seja por indivíduos ou instituições”  - explica Anaïs Dedieu, responsável de estudos da Reporters d’Espoirs, uma ONG “cuja vocação é a de fornecer estes conteúdos aos media; uma alternativa ao jornalismo tradicional, segundo ela demasiado focado sobre as polémicas”. 

“É uma abordagem interessante, mas eu não me vejo a começar uma reunião de redacção perguntando qual é a boa iniciativa do dia”  - responde Michèle Léridon, directora de Informação da Agência France Presse. “Não é essa a função do jornalismo.” 

Por outro lado, “a negatividade conduz a um sentimento de impotência e de ansiedade, e nesse ponto o público desliga-se voluntariamente da actualidade”  - comenta Denise Baden, psicóloga especializada nos media, da Universidade de Southampton. “Embora os leitores sejam instintivamente atraídos pelos títulos alarmistas, eles consideram que a representação negativa do mundo fornecida pelos media não corresponde à realidade.” 

Segundo Le Figaro, que aqui citamos, o grande exemplo de sucesso do jornalismo de soluções, em França, é Nice Matin. Na sequência de uma intervenção judicial, em 2014, os trabalhadores adquiriram o jornal e optaram por uma linha editorial de soluções: 

“Reflectimos sobre uma oferta compensadora, que envolva o leitor. E correu muito bem! Passámos de 2.000 assinantes aos 6.500 actuais”  - constata Damien Allemand, responsável pelo serviço digital do diário. Os artigos de soluções são os que causam mais assinaturas no website. “Os leitores sentem-se mais voltados para conteúdos construtivos, que suscitem um debate autêntico.” 

Christian de Boisredon, fundador de Sparknews, está na origem do Impact Journalism Day, que reune mais de meia centena de jornais de todo o mundo numa jornada de partilha de soluções para outros tantos problemas referenciados. A sua próxima realização está marcada para 24 de Junho de 2017.  

 

 

O artigo citado, em Le Figaro, e informação sobre o Impact Journalism Day

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Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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