Quarta-feira, 16 de Agosto, 2017
Media

Pode o “jornalismo de soluções” ser solução para a crise do jornalismo?

Perante a crise de credibilidade dos meios de comunicação, uma das propostas recentes mais intrigantes é a do chamado “jornalismo de soluções”. A ideia de base é a de equilibrar a “representação negativa do mundo” com a reportagem de iniciativas positivas, verificadas no terreno. Fica o receio de se cair num jornalismo “de boas notícias”  - ou numa psicologia ligeira de auto-ajuda -  mas, como diz Christian de Boisredon, o seu principal promotor, não se trata simplesmente de pôr em destaque “o bombeiro que vai salvar gatos nas árvores”.

“Além de analisarmos a fundo um determinado problema da sociedade, vamos responder-lhe colocando em foco uma solução praticada, seja a nível local, seja por indivíduos ou instituições”  - explica Anaïs Dedieu, responsável de estudos da Reporters d’Espoirs, uma ONG “cuja vocação é a de fornecer estes conteúdos aos media; uma alternativa ao jornalismo tradicional, segundo ela demasiado focado sobre as polémicas”. 

“É uma abordagem interessante, mas eu não me vejo a começar uma reunião de redacção perguntando qual é a boa iniciativa do dia”  - responde Michèle Léridon, directora de Informação da Agência France Presse. “Não é essa a função do jornalismo.” 

Por outro lado, “a negatividade conduz a um sentimento de impotência e de ansiedade, e nesse ponto o público desliga-se voluntariamente da actualidade”  - comenta Denise Baden, psicóloga especializada nos media, da Universidade de Southampton. “Embora os leitores sejam instintivamente atraídos pelos títulos alarmistas, eles consideram que a representação negativa do mundo fornecida pelos media não corresponde à realidade.” 

Segundo Le Figaro, que aqui citamos, o grande exemplo de sucesso do jornalismo de soluções, em França, é Nice Matin. Na sequência de uma intervenção judicial, em 2014, os trabalhadores adquiriram o jornal e optaram por uma linha editorial de soluções: 

“Reflectimos sobre uma oferta compensadora, que envolva o leitor. E correu muito bem! Passámos de 2.000 assinantes aos 6.500 actuais”  - constata Damien Allemand, responsável pelo serviço digital do diário. Os artigos de soluções são os que causam mais assinaturas no website. “Os leitores sentem-se mais voltados para conteúdos construtivos, que suscitem um debate autêntico.” 

Christian de Boisredon, fundador de Sparknews, está na origem do Impact Journalism Day, que reune mais de meia centena de jornais de todo o mundo numa jornada de partilha de soluções para outros tantos problemas referenciados. A sua próxima realização está marcada para 24 de Junho de 2017.  

 

 

O artigo citado, em Le Figaro, e informação sobre o Impact Journalism Day

Connosco
Modos de combater a vigilância electrónica sobre jornalistas e as suas fontes Ver galeria

Jornalistas que tenham de trabalhar em ambientes autoritários tendem a ser alvo de vigilância electrónica. Muitos acabam por se adaptar e aceitá-la como um risco indesejado, mas inevitável na sua profissão. Ou podem tentar combatê-la. “Afinal de contas, ela ameaça a sua segurança, bem como das suas fontes, e constitui um ataque à liberdade de Imprensa e de expressão.” A reflexão é do jornalista mexicano Jorge Luis Sierra, perito em segurança digital, que adianta alguns conselhos práticos para casos destes. 

A avalancha da Internet atropelou a nossa capacidade de lidar com tantos dados Ver galeria

A grande revolução nas rotinas e normas do jornalismo foi-nos imposta, não pelo computador, mas pela Internet, quando “a avalancha informativa e as redes sociais virtuais atropelaram a capacidade das redacções processarem informações; (...) o volume cresceu em tal magnitude que se tornaram incapazes de lidar com tantos dados, factos e eventos”.

A “curadoria de notícias”, que parecia inerente ao trabalho de qualquer jornalista, tornou-se mais necessária do que nunca, mas, “como actividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação”. É esta a reflexão de Carlos Castilho, ex-assessor da União Europeia para projectos de comunicação na América Central e membro da direcção do Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


ver mais >
Opinião
Ser Jornalista
Dinis de Abreu

O jornalismo vive dias difíceis. O avanço no digital não compensa os jornais que fecham e as redacções que reduzem os quadros. Criou-se um sentimento de precariedade no oficio de jornalsita que ameaça a sua independência. Ou pior: que o coloca numa grande dependência perante as incertezas.

Uma comunicação mal comunicada
Francisco Sarsfield Cabral
A tragédia dos incêndios florestal tem evidenciado uma preocupante desorganização no seu combate. Essa desorganização também se manifesta no campo da comunicação social. A Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) anunciou há dias que passaria a concentrar a informação sobre os fogos em dois “briefings” diários na sua sede em Carnaxide – um de manhã, outro...
Dados os muitos terabytes de prosa – sólidamente negativa – com que os media globais saudaram a decisão do presidente Trump, anunciada em discurso na Casa Branca no passado dia 1 de Junho, de retirar os EUA. do Acordo de Paris, seria de esperar uma cobertura exaustiva do tema, ou seja, que nenhum aspecto ou complexidade dessa terrível ameaça para a saúde do planeta escapasse à atenção dos “opinion leaders”, em...
Num livro colectivo acabado de publicar, simultaneamente, em treze línguas e em dezenas de países espalhados pelo mundo inteiro, cuja versão francesa se intitula, significativamente, L’âge de la Régression: Pourquoi nous vivons un tournant historique[1], Appadurai disserta sobre o «sentimento de cansaço» que, na sua opinião domina a esfera pública. Sentimento de cansaço relativamente à forma de fazer...
Fim de semana alucinante, sábado épico, jornada inédita. Muito se tem chamado a este 13 de maio, dia de Fátima, do Santo Padre, do anjo Vitória e do arcanjo Sobral. As notícias, as reportagens, os diretos. O frenesim tem sido imenso. Aliás já começou há uns dias. Amanhã, depois do nascer do sol, era bom que houvesse alguma reflexão sobre o que se passou. Será que tanta agitação na...
Agenda
01
Set
IFA
09:00 @ Berlim, Alemanha
04
Set
11
Set
Jornalismo de Investigação
09:00 @ Cenjor,Lisboa