Quinta-feira, 21 de Março, 2019
Media

Pode o “jornalismo de soluções” ser solução para a crise do jornalismo?

Perante a crise de credibilidade dos meios de comunicação, uma das propostas recentes mais intrigantes é a do chamado “jornalismo de soluções”. A ideia de base é a de equilibrar a “representação negativa do mundo” com a reportagem de iniciativas positivas, verificadas no terreno. Fica o receio de se cair num jornalismo “de boas notícias”  - ou numa psicologia ligeira de auto-ajuda -  mas, como diz Christian de Boisredon, o seu principal promotor, não se trata simplesmente de pôr em destaque “o bombeiro que vai salvar gatos nas árvores”.

“Além de analisarmos a fundo um determinado problema da sociedade, vamos responder-lhe colocando em foco uma solução praticada, seja a nível local, seja por indivíduos ou instituições”  - explica Anaïs Dedieu, responsável de estudos da Reporters d’Espoirs, uma ONG “cuja vocação é a de fornecer estes conteúdos aos media; uma alternativa ao jornalismo tradicional, segundo ela demasiado focado sobre as polémicas”. 

“É uma abordagem interessante, mas eu não me vejo a começar uma reunião de redacção perguntando qual é a boa iniciativa do dia”  - responde Michèle Léridon, directora de Informação da Agência France Presse. “Não é essa a função do jornalismo.” 

Por outro lado, “a negatividade conduz a um sentimento de impotência e de ansiedade, e nesse ponto o público desliga-se voluntariamente da actualidade”  - comenta Denise Baden, psicóloga especializada nos media, da Universidade de Southampton. “Embora os leitores sejam instintivamente atraídos pelos títulos alarmistas, eles consideram que a representação negativa do mundo fornecida pelos media não corresponde à realidade.” 

Segundo Le Figaro, que aqui citamos, o grande exemplo de sucesso do jornalismo de soluções, em França, é Nice Matin. Na sequência de uma intervenção judicial, em 2014, os trabalhadores adquiriram o jornal e optaram por uma linha editorial de soluções: 

“Reflectimos sobre uma oferta compensadora, que envolva o leitor. E correu muito bem! Passámos de 2.000 assinantes aos 6.500 actuais”  - constata Damien Allemand, responsável pelo serviço digital do diário. Os artigos de soluções são os que causam mais assinaturas no website. “Os leitores sentem-se mais voltados para conteúdos construtivos, que suscitem um debate autêntico.” 

Christian de Boisredon, fundador de Sparknews, está na origem do Impact Journalism Day, que reune mais de meia centena de jornais de todo o mundo numa jornada de partilha de soluções para outros tantos problemas referenciados. A sua próxima realização está marcada para 24 de Junho de 2017.  

 

 

O artigo citado, em Le Figaro, e informação sobre o Impact Journalism Day

Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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