Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
Media

Pode o “jornalismo de soluções” ser solução para a crise do jornalismo?

Perante a crise de credibilidade dos meios de comunicação, uma das propostas recentes mais intrigantes é a do chamado “jornalismo de soluções”. A ideia de base é a de equilibrar a “representação negativa do mundo” com a reportagem de iniciativas positivas, verificadas no terreno. Fica o receio de se cair num jornalismo “de boas notícias”  - ou numa psicologia ligeira de auto-ajuda -  mas, como diz Christian de Boisredon, o seu principal promotor, não se trata simplesmente de pôr em destaque “o bombeiro que vai salvar gatos nas árvores”.

“Além de analisarmos a fundo um determinado problema da sociedade, vamos responder-lhe colocando em foco uma solução praticada, seja a nível local, seja por indivíduos ou instituições”  - explica Anaïs Dedieu, responsável de estudos da Reporters d’Espoirs, uma ONG “cuja vocação é a de fornecer estes conteúdos aos media; uma alternativa ao jornalismo tradicional, segundo ela demasiado focado sobre as polémicas”. 

“É uma abordagem interessante, mas eu não me vejo a começar uma reunião de redacção perguntando qual é a boa iniciativa do dia”  - responde Michèle Léridon, directora de Informação da Agência France Presse. “Não é essa a função do jornalismo.” 

Por outro lado, “a negatividade conduz a um sentimento de impotência e de ansiedade, e nesse ponto o público desliga-se voluntariamente da actualidade”  - comenta Denise Baden, psicóloga especializada nos media, da Universidade de Southampton. “Embora os leitores sejam instintivamente atraídos pelos títulos alarmistas, eles consideram que a representação negativa do mundo fornecida pelos media não corresponde à realidade.” 

Segundo Le Figaro, que aqui citamos, o grande exemplo de sucesso do jornalismo de soluções, em França, é Nice Matin. Na sequência de uma intervenção judicial, em 2014, os trabalhadores adquiriram o jornal e optaram por uma linha editorial de soluções: 

“Reflectimos sobre uma oferta compensadora, que envolva o leitor. E correu muito bem! Passámos de 2.000 assinantes aos 6.500 actuais”  - constata Damien Allemand, responsável pelo serviço digital do diário. Os artigos de soluções são os que causam mais assinaturas no website. “Os leitores sentem-se mais voltados para conteúdos construtivos, que suscitem um debate autêntico.” 

Christian de Boisredon, fundador de Sparknews, está na origem do Impact Journalism Day, que reune mais de meia centena de jornais de todo o mundo numa jornada de partilha de soluções para outros tantos problemas referenciados. A sua próxima realização está marcada para 24 de Junho de 2017.  

 

 

O artigo citado, em Le Figaro, e informação sobre o Impact Journalism Day

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
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Composição Fotográfica
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Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigéria
16
Set