Sexta-feira, 16 de Novembro, 2018
Media

O jornalismo como espaço não-lucrativo de comunicação cívica

Tendo a crise dos modelos tradicionais de sustento do jornalismo chegado ao ponto que sabemos, um académico e um jornalista tornado gestor e especialista em desenvolvimento dos media propõem que voltemos a considerar soluções como o mecenato [filantropia, no original], empresas não-lucrativas e fundações. A alternativa, dizem, é deixarmos definhar o espaço de comunicação e debate público, sem o qual não há vida democrática.

O seu ponto de partida é uma citação em que o Juiz David Souter, que pertenceu ao Supremo Tribunal de Justiça dos EUA, afirma:

“A democracia não pode sobreviver a muita ignorância... (...) Aquilo que me preocupa é que, quando os problemas não são enfrentados, as pessoas não sabem quem tem a responsabilidade... É assim que a democracia morre. E se não se fizer nada para melhorar o nível de conhecimento cívico, é sobre isso que nos devíamos preocupar à noite.” 

E o seu primeiro parágrafo começa por dizer que “os media, a sociedade civil e a democracia encontram-se por todo o mundo submetidos a uma pressão sem precedentes; é importante que vejamos estes fenómenos como interligados  -  para compreendermos que o declínio dos media cívicos coloca uma ameaça à sociedade civil e, em última instância, ao próprio processo democrático.” 

No seu trabalho, que citamos da Global Investigative Journalism Network, Bruce Sievers e Patrice Schneider lembram ainda as reflexões de Jürgen Habermas e Alexis de Tocqueville sobre estas matérias, nomeadamente a observação feita pelo último sobre o papel do jornalismo que encontrou nos EUA, no princípio do séc. XIX: “Foi o jornal que os aproximou [os cidadãos], e é o jornal que continua a ser necessário para os manter unidos.” 

“Decorre daqui que o enfraquecimento do sistema de livre comunicação ataca gravemente um sistema democrático. A característica distintiva das sociedades autoritárias tem sido, de facto, a repressão das instituições independentes que possam desafiar o controlo central exercido pelo domínio do Estado ou de um grupo oligárquico. (...) Uma das primeiras prioridades de tais regimes é assumir o controlo dos media.” (...) 

A situação actual é agravada por uma ameaça nova:

“A comunicação cívica está a ser cada vez mais ameaçada por uma repressão que não vem de cima para baixo, de sistemas autoritários (embora isto ainda continue), mas antes de forças corrosivas internas, de natureza social e económica.” (...) 

Os autores identificam cinco tendências principais nesta passagem de século:

“1 – Uma base de financiamento do jornalismo impresso radicalmente diminuída;  2 – Audiências cada vez mais fragmentadas;  3 – Um padrão cada vez mais acelerado de proliferação digital instantânea de informação;  4 – O crescente desfasamento do vídeo em relação à palavra escrita e falada; 5 – Uma diminuição e rebaixamento de qualidade da educação cívica, com correspondente declínio no conhecimento dos assuntos públicos.” 

Depois de citarem alguns números sobre a quebra na circulação dos jornais, advertem que há fortes evidências de que muitas outras “formas de comunicação cívica tradicional, não só dos jornais, estão a passar por um declínio semelhante, tanto em quantidade como em qualidade”. 

A segunda parte desenvolve, com vários exemplos da presente situação nos Estados Unidos, bem como na Europa, a proposta de uma atitude filantrópica, ou de mecenato, para resolver o problema do sustento dos media. Antes de o fazerem, os dois autores citam outras propostas, de apoio mais governamental (programas estatais, impostos, taxas de utilização), para reconhecerem a sua limitação na cultura norte-americana: 

“Pensamos que a resistência americana, tanto a impostos mais elevados como a um acréscimo de envolvimento governamental nos meios de comunicação, derrotaria esse esforço. Mesmo nos países europeus onde já existem elevados níveis de apoio público aos media, este financiamento não tem evitado um declínio constante  - até aos 4.7% negativos entre 2014 e 2015.” (...) 

Bruce Sievers e Patrice Schneider concluem:

“A protecção dos media independentes e da esfera pública coloca um desafio épico à filantropia contemporânea, mas nós cremos que as actuais organizações filantrópicas estão à sua altura. Para apoiar os seus esforços e multiplicar o seu impacto, encorajamos um debate muito mais vasto e a orientação de recursos para aquilo que pode ser hoje o pilar mais vulnerável do Estado democrático.”

 

O artigo original, na íntegra, na Global Investigative Journalism Network, a que pertence a imagem utilizada

Connosco
Bettany Hugues defendeu a importância da memória na construção do futuro e da paz Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hugues, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hugues como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Para Alberto Dines, “o jornalismo era o próprio sentido da vida” Ver galeria

Cada história é uma vida, e algumas delas são muito especiais. “Alberto Dines foi autor e protagonista de uma dessas trajectórias incomuns: um intelectual visceral, que usou a sua inteligência e lucidez não para disputar uma partida, mas para mudar o jogo.” Sob o título “Uma vida sem ponto final”, um dos seus numerosos discípulos, Bruno Thys, evoca com a saudade de uma relação muito pessoal o percurso e obra de Alberto Dines, falecido em São Paulo em Maio deste ano.

O autor do texto que citamos valoriza uma parte da biografia menos mencionada de Alberto Dines, a que o coloca numa linhagem de judeus emigrados de uma Europa em várias convulsões:

“Dines tornou-se uma das mais cintilantes estrelas de sua geração, a primeira de judeus nascidos no Brasil. (...) Da geração de seus pais, herdou a cultura ancestral. Dines tinha sólida formação humanística e as suas raízes remontam à Haskalá, o iluminismo judaico que floresceu na Europa Ocidental nos séculos XVIII e XIX. Este movimento pregava a interacção da sabedoria judaica com a cultura europeia e produziu nomes como Einstein, Freud, Herzel e Stefan Zweig, o grande biógrafo austríaco, que, muitos anos depois, seria biografado por Dines.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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