Terça-feira, 22 de Agosto, 2017
Media

O jornalismo como espaço não-lucrativo de comunicação cívica

Tendo a crise dos modelos tradicionais de sustento do jornalismo chegado ao ponto que sabemos, um académico e um jornalista tornado gestor e especialista em desenvolvimento dos media propõem que voltemos a considerar soluções como o mecenato [filantropia, no original], empresas não-lucrativas e fundações. A alternativa, dizem, é deixarmos definhar o espaço de comunicação e debate público, sem o qual não há vida democrática.

O seu ponto de partida é uma citação em que o Juiz David Souter, que pertenceu ao Supremo Tribunal de Justiça dos EUA, afirma:

“A democracia não pode sobreviver a muita ignorância... (...) Aquilo que me preocupa é que, quando os problemas não são enfrentados, as pessoas não sabem quem tem a responsabilidade... É assim que a democracia morre. E se não se fizer nada para melhorar o nível de conhecimento cívico, é sobre isso que nos devíamos preocupar à noite.” 

E o seu primeiro parágrafo começa por dizer que “os media, a sociedade civil e a democracia encontram-se por todo o mundo submetidos a uma pressão sem precedentes; é importante que vejamos estes fenómenos como interligados  -  para compreendermos que o declínio dos media cívicos coloca uma ameaça à sociedade civil e, em última instância, ao próprio processo democrático.” 

No seu trabalho, que citamos da Global Investigative Journalism Network, Bruce Sievers e Patrice Schneider lembram ainda as reflexões de Jürgen Habermas e Alexis de Tocqueville sobre estas matérias, nomeadamente a observação feita pelo último sobre o papel do jornalismo que encontrou nos EUA, no princípio do séc. XIX: “Foi o jornal que os aproximou [os cidadãos], e é o jornal que continua a ser necessário para os manter unidos.” 

“Decorre daqui que o enfraquecimento do sistema de livre comunicação ataca gravemente um sistema democrático. A característica distintiva das sociedades autoritárias tem sido, de facto, a repressão das instituições independentes que possam desafiar o controlo central exercido pelo domínio do Estado ou de um grupo oligárquico. (...) Uma das primeiras prioridades de tais regimes é assumir o controlo dos media.” (...) 

A situação actual é agravada por uma ameaça nova:

“A comunicação cívica está a ser cada vez mais ameaçada por uma repressão que não vem de cima para baixo, de sistemas autoritários (embora isto ainda continue), mas antes de forças corrosivas internas, de natureza social e económica.” (...) 

Os autores identificam cinco tendências principais nesta passagem de século:

“1 – Uma base de financiamento do jornalismo impresso radicalmente diminuída;  2 – Audiências cada vez mais fragmentadas;  3 – Um padrão cada vez mais acelerado de proliferação digital instantânea de informação;  4 – O crescente desfasamento do vídeo em relação à palavra escrita e falada; 5 – Uma diminuição e rebaixamento de qualidade da educação cívica, com correspondente declínio no conhecimento dos assuntos públicos.” 

Depois de citarem alguns números sobre a quebra na circulação dos jornais, advertem que há fortes evidências de que muitas outras “formas de comunicação cívica tradicional, não só dos jornais, estão a passar por um declínio semelhante, tanto em quantidade como em qualidade”. 

A segunda parte desenvolve, com vários exemplos da presente situação nos Estados Unidos, bem como na Europa, a proposta de uma atitude filantrópica, ou de mecenato, para resolver o problema do sustento dos media. Antes de o fazerem, os dois autores citam outras propostas, de apoio mais governamental (programas estatais, impostos, taxas de utilização), para reconhecerem a sua limitação na cultura norte-americana: 

“Pensamos que a resistência americana, tanto a impostos mais elevados como a um acréscimo de envolvimento governamental nos meios de comunicação, derrotaria esse esforço. Mesmo nos países europeus onde já existem elevados níveis de apoio público aos media, este financiamento não tem evitado um declínio constante  - até aos 4.7% negativos entre 2014 e 2015.” (...) 

Bruce Sievers e Patrice Schneider concluem:

“A protecção dos media independentes e da esfera pública coloca um desafio épico à filantropia contemporânea, mas nós cremos que as actuais organizações filantrópicas estão à sua altura. Para apoiar os seus esforços e multiplicar o seu impacto, encorajamos um debate muito mais vasto e a orientação de recursos para aquilo que pode ser hoje o pilar mais vulnerável do Estado democrático.”

 

O artigo original, na íntegra, na Global Investigative Journalism Network, a que pertence a imagem utilizada

Connosco
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O Clube Português de Imprensa fecha em Agosto para férias. E este site também. A partir de 31 de Julho e até 27 de Agosto não serão feitas as habituais actualizações diárias.

Em vésperas de fazermos esta pausa, e à semelhança do que já aconteceu no Verão passado, queremos agradecer aos jornalistas (e aos não jornalistas) pela sua preferência e que têm contribuído com as suas visitas regulares para alargar a audiência deste espaço, lançado há  menos de dois anos, com objectivo de constituir uma alternativa de informação e de reflexão sobre os jornalismo e os jornalistas, sem receio de problematizar as questões que hoje se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, tanto  às empresas editoriais como aos profissionais do sector.

São esses os conteúdos que privilegiamos, a par da cobertura das actividades do Clube, desde os ciclos de jantares-debate, em parceria com o CNC-Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, ao Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau; e ao Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pelo CNC, em conjunto com o CPI e a Europa Nostra .

No regresso prometemos mais novidades no Clube e no site. Boas Férias!   


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