Terça-feira, 27 de Junho, 2017
Media

O jornalismo como espaço não-lucrativo de comunicação cívica

Tendo a crise dos modelos tradicionais de sustento do jornalismo chegado ao ponto que sabemos, um académico e um jornalista tornado gestor e especialista em desenvolvimento dos media propõem que voltemos a considerar soluções como o mecenato [filantropia, no original], empresas não-lucrativas e fundações. A alternativa, dizem, é deixarmos definhar o espaço de comunicação e debate público, sem o qual não há vida democrática.

O seu ponto de partida é uma citação em que o Juiz David Souter, que pertenceu ao Supremo Tribunal de Justiça dos EUA, afirma:

“A democracia não pode sobreviver a muita ignorância... (...) Aquilo que me preocupa é que, quando os problemas não são enfrentados, as pessoas não sabem quem tem a responsabilidade... É assim que a democracia morre. E se não se fizer nada para melhorar o nível de conhecimento cívico, é sobre isso que nos devíamos preocupar à noite.” 

E o seu primeiro parágrafo começa por dizer que “os media, a sociedade civil e a democracia encontram-se por todo o mundo submetidos a uma pressão sem precedentes; é importante que vejamos estes fenómenos como interligados  -  para compreendermos que o declínio dos media cívicos coloca uma ameaça à sociedade civil e, em última instância, ao próprio processo democrático.” 

No seu trabalho, que citamos da Global Investigative Journalism Network, Bruce Sievers e Patrice Schneider lembram ainda as reflexões de Jürgen Habermas e Alexis de Tocqueville sobre estas matérias, nomeadamente a observação feita pelo último sobre o papel do jornalismo que encontrou nos EUA, no princípio do séc. XIX: “Foi o jornal que os aproximou [os cidadãos], e é o jornal que continua a ser necessário para os manter unidos.” 

“Decorre daqui que o enfraquecimento do sistema de livre comunicação ataca gravemente um sistema democrático. A característica distintiva das sociedades autoritárias tem sido, de facto, a repressão das instituições independentes que possam desafiar o controlo central exercido pelo domínio do Estado ou de um grupo oligárquico. (...) Uma das primeiras prioridades de tais regimes é assumir o controlo dos media.” (...) 

A situação actual é agravada por uma ameaça nova:

“A comunicação cívica está a ser cada vez mais ameaçada por uma repressão que não vem de cima para baixo, de sistemas autoritários (embora isto ainda continue), mas antes de forças corrosivas internas, de natureza social e económica.” (...) 

Os autores identificam cinco tendências principais nesta passagem de século:

“1 – Uma base de financiamento do jornalismo impresso radicalmente diminuída;  2 – Audiências cada vez mais fragmentadas;  3 – Um padrão cada vez mais acelerado de proliferação digital instantânea de informação;  4 – O crescente desfasamento do vídeo em relação à palavra escrita e falada; 5 – Uma diminuição e rebaixamento de qualidade da educação cívica, com correspondente declínio no conhecimento dos assuntos públicos.” 

Depois de citarem alguns números sobre a quebra na circulação dos jornais, advertem que há fortes evidências de que muitas outras “formas de comunicação cívica tradicional, não só dos jornais, estão a passar por um declínio semelhante, tanto em quantidade como em qualidade”. 

A segunda parte desenvolve, com vários exemplos da presente situação nos Estados Unidos, bem como na Europa, a proposta de uma atitude filantrópica, ou de mecenato, para resolver o problema do sustento dos media. Antes de o fazerem, os dois autores citam outras propostas, de apoio mais governamental (programas estatais, impostos, taxas de utilização), para reconhecerem a sua limitação na cultura norte-americana: 

“Pensamos que a resistência americana, tanto a impostos mais elevados como a um acréscimo de envolvimento governamental nos meios de comunicação, derrotaria esse esforço. Mesmo nos países europeus onde já existem elevados níveis de apoio público aos media, este financiamento não tem evitado um declínio constante  - até aos 4.7% negativos entre 2014 e 2015.” (...) 

Bruce Sievers e Patrice Schneider concluem:

“A protecção dos media independentes e da esfera pública coloca um desafio épico à filantropia contemporânea, mas nós cremos que as actuais organizações filantrópicas estão à sua altura. Para apoiar os seus esforços e multiplicar o seu impacto, encorajamos um debate muito mais vasto e a orientação de recursos para aquilo que pode ser hoje o pilar mais vulnerável do Estado democrático.”

 

O artigo original, na íntegra, na Global Investigative Journalism Network, a que pertence a imagem utilizada

Connosco
Uma foto icónica partilhada por jornais e redes sociais Ver galeria

Há imagens que valem por mil palavras. Esta que reproduzimos acima é uma delas, registada pelo bombeiro Pedro Brás, no segundo dia do incêndio de Pedrogão Grande, quando 13 companheiros se deitaram no chão exaustos, no combate aos fogos.

A foto foi reproduzida, originalmente, pelos jornais espanhóis El Mundo e El Pais e, também, entre outros, pelo site electrónico Observador, doqual retiramos este documento.

Mais tarde, a imagem percorreu mundo, através das redes sociais e tornou-se icónica de uma luta desigual contra uma calamidade em que morreram 64 habitantes de Pedrogão Grande e 254 ficaram feridos, segundo as ultimas estimativas.

A foto foi tirada na manhã de 18 de Junho, e ganhou estatuto de viral. É uma imagem que “fala por si”, representando, simbolicamente, a homenagem a todos os bombeiros que estiveram envolvidos na contenção do  terrível sinistro.

Em pouco tempo, registaram-se cerca de 80 mil partilhas na rede social Facebook, e a  foto ganhou expressão, também, no Twitter e noutros  meios de comunicação social espalhados pelo mundo.

Dirigentes europeus intimam redes sociais a envolverem-se na luta contra o extremismo online Ver galeria
O Clube

 
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia é a nova iniciativa promovida pelo Clube Português de Imprensa (CPI) em parceria com o Jornal Tribuna de Macau (JTM), no quadro das comorações que assinalam o 35º aniversário daquele diário de língua portuguesa em Macau.

Com o valor de 10 mil euros e periodicidade anual, o Prémio será atribuído por um Júri constituído por representantes do CPI, do JTM e por personalidades de reconhecido mérito na área do jornalismo ou que se tenham distinguido na defesa, divulgação ou ensino da Língua Portuguesa no Mundo.

Trata-se, pois, de um novo Prémio que, de acordo com o respectivo Regulamento (que inserimos noutro espaço deste site) se destina “a jornalistas e à Imprensa de Língua Portuguesa de todo o Mundo, em suporte papel ou digital”. 


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Opinião
Que terá movido o Sindicato dos Jornalistas (SJ) a questionar o jornal espanhol El Mundo sobre a identidade de  um seu correspondente que cobriu os incêndios de Pedrogão Grande?   Diz a direcção do Sindicato, no respectivo site,  que “ decidiu pedir informações sobre as dúvidas levantadas acerca do suposto jornalista Sebastião Pereira(…)” . O Sindicato levou os seus esforços de...
Dados os muitos terabytes de prosa – sólidamente negativa – com que os media globais saudaram a decisão do presidente Trump, anunciada em discurso na Casa Branca no passado dia 1 de Junho, de retirar os EUA. do Acordo de Paris, seria de esperar uma cobertura exaustiva do tema, ou seja, que nenhum aspecto ou complexidade dessa terrível ameaça para a saúde do planeta escapasse à atenção dos “opinion leaders”, em...
Trump, Macron e a comunicação social
Francisco Sarsfield Cabral

O Presidente Trump está em guerra aberta com a comunicação social americana. E esta, na sua grande maioria, não gosta de Trump. Vários presidentes anteriores foram muito criticados pela Imprensa dos EUA – Reagan, por exemplo. Mas o grau de hostilidade que agora existe entre a Casa Branca e os jornalistas é de nível excepcionalmente alto.

Num livro colectivo acabado de publicar, simultaneamente, em treze línguas e em dezenas de países espalhados pelo mundo inteiro, cuja versão francesa se intitula, significativamente, L’âge de la Régression: Pourquoi nous vivons un tournant historique[1], Appadurai disserta sobre o «sentimento de cansaço» que, na sua opinião domina a esfera pública. Sentimento de cansaço relativamente à forma de fazer...
Fim de semana alucinante, sábado épico, jornada inédita. Muito se tem chamado a este 13 de maio, dia de Fátima, do Santo Padre, do anjo Vitória e do arcanjo Sobral. As notícias, as reportagens, os diretos. O frenesim tem sido imenso. Aliás já começou há uns dias. Amanhã, depois do nascer do sol, era bom que houvesse alguma reflexão sobre o que se passou. Será que tanta agitação na...
Agenda
11
Jul
Exposição de Jornais Centenários em Bruxelas
09:00 @ Parlamento Europeu, Bruxelas
12
Jul
Curso de Verão “Jornalismo de Investigação”
09:00 @ Universidade Internacional Menéndez Pelayo, Santander
13
Jul
Westminster Media Forum
09:00 @ Central London, Londres
27
Jul
Festival de Jornalismos de Verão
09:00 @ Couthures, França