Quinta-feira, 18 de Julho, 2019
Media

O jornalismo como espaço não-lucrativo de comunicação cívica

Tendo a crise dos modelos tradicionais de sustento do jornalismo chegado ao ponto que sabemos, um académico e um jornalista tornado gestor e especialista em desenvolvimento dos media propõem que voltemos a considerar soluções como o mecenato [filantropia, no original], empresas não-lucrativas e fundações. A alternativa, dizem, é deixarmos definhar o espaço de comunicação e debate público, sem o qual não há vida democrática.

O seu ponto de partida é uma citação em que o Juiz David Souter, que pertenceu ao Supremo Tribunal de Justiça dos EUA, afirma:

“A democracia não pode sobreviver a muita ignorância... (...) Aquilo que me preocupa é que, quando os problemas não são enfrentados, as pessoas não sabem quem tem a responsabilidade... É assim que a democracia morre. E se não se fizer nada para melhorar o nível de conhecimento cívico, é sobre isso que nos devíamos preocupar à noite.” 

E o seu primeiro parágrafo começa por dizer que “os media, a sociedade civil e a democracia encontram-se por todo o mundo submetidos a uma pressão sem precedentes; é importante que vejamos estes fenómenos como interligados  -  para compreendermos que o declínio dos media cívicos coloca uma ameaça à sociedade civil e, em última instância, ao próprio processo democrático.” 

No seu trabalho, que citamos da Global Investigative Journalism Network, Bruce Sievers e Patrice Schneider lembram ainda as reflexões de Jürgen Habermas e Alexis de Tocqueville sobre estas matérias, nomeadamente a observação feita pelo último sobre o papel do jornalismo que encontrou nos EUA, no princípio do séc. XIX: “Foi o jornal que os aproximou [os cidadãos], e é o jornal que continua a ser necessário para os manter unidos.” 

“Decorre daqui que o enfraquecimento do sistema de livre comunicação ataca gravemente um sistema democrático. A característica distintiva das sociedades autoritárias tem sido, de facto, a repressão das instituições independentes que possam desafiar o controlo central exercido pelo domínio do Estado ou de um grupo oligárquico. (...) Uma das primeiras prioridades de tais regimes é assumir o controlo dos media.” (...) 

A situação actual é agravada por uma ameaça nova:

“A comunicação cívica está a ser cada vez mais ameaçada por uma repressão que não vem de cima para baixo, de sistemas autoritários (embora isto ainda continue), mas antes de forças corrosivas internas, de natureza social e económica.” (...) 

Os autores identificam cinco tendências principais nesta passagem de século:

“1 – Uma base de financiamento do jornalismo impresso radicalmente diminuída;  2 – Audiências cada vez mais fragmentadas;  3 – Um padrão cada vez mais acelerado de proliferação digital instantânea de informação;  4 – O crescente desfasamento do vídeo em relação à palavra escrita e falada; 5 – Uma diminuição e rebaixamento de qualidade da educação cívica, com correspondente declínio no conhecimento dos assuntos públicos.” 

Depois de citarem alguns números sobre a quebra na circulação dos jornais, advertem que há fortes evidências de que muitas outras “formas de comunicação cívica tradicional, não só dos jornais, estão a passar por um declínio semelhante, tanto em quantidade como em qualidade”. 

A segunda parte desenvolve, com vários exemplos da presente situação nos Estados Unidos, bem como na Europa, a proposta de uma atitude filantrópica, ou de mecenato, para resolver o problema do sustento dos media. Antes de o fazerem, os dois autores citam outras propostas, de apoio mais governamental (programas estatais, impostos, taxas de utilização), para reconhecerem a sua limitação na cultura norte-americana: 

“Pensamos que a resistência americana, tanto a impostos mais elevados como a um acréscimo de envolvimento governamental nos meios de comunicação, derrotaria esse esforço. Mesmo nos países europeus onde já existem elevados níveis de apoio público aos media, este financiamento não tem evitado um declínio constante  - até aos 4.7% negativos entre 2014 e 2015.” (...) 

Bruce Sievers e Patrice Schneider concluem:

“A protecção dos media independentes e da esfera pública coloca um desafio épico à filantropia contemporânea, mas nós cremos que as actuais organizações filantrópicas estão à sua altura. Para apoiar os seus esforços e multiplicar o seu impacto, encorajamos um debate muito mais vasto e a orientação de recursos para aquilo que pode ser hoje o pilar mais vulnerável do Estado democrático.”

 

O artigo original, na íntegra, na Global Investigative Journalism Network, a que pertence a imagem utilizada

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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“Fake news”, ontem e hoje
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Composição Fotográfica
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