Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Media

Grandes anunciantes boicotam Google por causa de conteúdos extremistas

A dependência dos media tradicionais do suporte financeiro da publicidade é uma questão conhecida. Mas pode haver situações em que são as próprias empresas publicitárias a desejar que os seus clientes não sejam expostos a ter os anúncios em determinados media, pela natureza conflitual de alguns conteúdos. Este desenvolvimento surpreendente está a acontecer agora entre o Google e o mercado publicitário britânico, havendo já pelo menos uma grande marca, a Havas, a formalizar a separação.

Matt Brittin, o presidente do Google para a Europa, Médio-Oriente e África, apresentou um pedido de desculpas pela difusão de publicidade em contextos controversos, nomeadamente na sua filial YouTube, conforme notícia de Le Figaro: “Nós tomamos muito a sério as nossas responsabilidades quanto a estes problemas” – disse. 

Mas os problemas já tinham consequências em curso. Segundo a Meios & Publicidade, “o Havas Group UK retirou os anúncios dos seus clientes do Reino Unido das plataformas do Google, incluindo o YouTube. Esta decisão abrange marcas como a empresa de telecomunicações O2, a eléctrica EDF, o Royal Mail, a BBC, a Dominos, a Emirates e o grupo Hunday Kia”. 

“O grupo Havas do Reino Unido não está sozinho nesta matéria. O governo britânico queixou-se, após uma denúncia do jornal The Times, de que os anúncios das entidades governamentais apareciam ao lado de conteúdos políticos e religiosos extremistas. A Transport of London, que agrega as empresas de transporte público, e o jornal The Guardian também anunciaram que deixaram de investir no Google e no YouTube.” 

Segundo The Guardian, que publica um artigo esclarecedor das questões envolvidas, o Google já prometeu uma vasta revisão das suas práticas, “em resposta a um boicote crescente das suas plataformas, proveniente de grandes empresas e anunciantes, incluindo o Governo do Reino Unido, a Marks & Spencer e a McDonalds”. 

“Muitas das companhias envolvidas no boicote tinham descoberto que o seu investimento publicitário estava a ser usado para colocar alertas sobre vídeos no YouTube de grupos como o Britain First, financiando assim, indirectamente, extremistas, e prejudicando o prestígio das suas marcas”. 

Quanto à situação no nosso país, fonte oficial do Google em Portugal argumenta, a propósito deste caso e em declarações à M&P, que a empresa “tem directrizes rígidas que definem onde os anúncios do Google devem ser exibidos e, na grande maioria dos casos, as nossas políticas funcionam como pretendido, protegendo utilizadores e anunciantes de conteúdo prejudicial ou inapropriado. Aceitamos que nem sempre acontece o que é suposto, e que, por vezes, os anúncios aparecem onde não devem”. 

O Google assume “o compromisso de melhorar. Faremos as alterações necessárias nas nossas políticas e nos controlos da marca para os anunciantes”.

 

Mais informação na M&P, em The Guardian e Le Figaro

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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